Artigo
Publicado em 14/05/2021, às 20h00 Cíntia Kelly
Diante de tantas evidências da responsabilidade do governo federal na demora da compra de vacinas contra a covid-19 e a dificuldade de contornar todas os problemas advindas da pandemia, o silêncio do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuelo, na CPI da Pandemia, pode ser uma estrondosa confissão de culpa.
Vejamos. O depoimento do ex-secretário de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten, e do presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, lançou luz sobre alguns pontos.
Wajngarten confirmou em seu depoimento que uma carta enviada pela empresa Pfizer permaneceu dois meses sem resposta do governo federal. A intenção da farmacêutica era negociar a compra de vacinas pelo governo brasileiro. O documento foi enviado em 12 de setembro de 2020 e só foi respondido em 9 de novembro.
Um dia após o depoimento de Wanjngarten foi a vez de Carlos Murillo evidenciar ainda mais as trapalhadas e morosidade do governo federal ante a pandemia do coronavírus.
Em seu depoimento, Carlos Murillo confirmou que a Pfizer enviou documento ao presidente Jair Bolsonaro em 12 de setembro do ano passado. E mais. A carta “foi copiada”para outros integrantes do governo, com o intuito de reforçar o interesse da empresa em vender vacinas ao Brasil.
Carlos Murilo relatou o seguinte: “a carta foi enviada em 12 de setembro, assinada pelo nosso CEO global e era dirigida ao presidente Jair Bolsonaro, mais outras autoridades do governo. Com cópia para o vice-presidente Hamilton Mourão; o [então] ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto; o [então] ministro da Saúde, Eduardo Pazuello; o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Foster”.
Será que resta alguma dúvida de que por quase dois longos meses, a carta dormitou em alguma gaveta palaciana, enquanto outros países apressavam o passo na compra de vacina para imunizar a sua população e, consequentemente, salvar vidas.
Isso posto, o silêncio de Pazuello é um consentimento de tudo o que foi relatado na CPI nessas duas semanas. Ou ele tenta, com provas, desmentir as informações ou ele silencia e assume cada erro cometido no período em que esteve à frente do Ministério da Saúde , cada omissão, cada desdém diante do sofrimento da população brasileira.
A CPI que, por ora, vem fazendo um bom trabalho - apesar do destempero de alguns parlamentares - terá que dar resposta convincente aos cidadãos brasileiros sobre a péssima condução do governo neste um ano e dois meses de pandemia.
Confesso que estou esperançosa com os desdobramentos da comissão, e vejo cada vez mais distante a possibilidade de terminar numa indigesta pizza, mas quero ver responsabilizado um a um do governo que por desdém, irresponsabilidade e incompetência atrasou o processo de vacinação no país.
Hoje, temos mais de 430 mil mortos. Quantas dessas mortes teriam sido evitadas se tivéssemos iniciado a vacinação há mais tempo? Não podemos ficar sem resposta.
Cíntia Kelly é jornalista. Apresentadora do Direto ao Ponto da 100,7
Classificação Indicativa: Livre
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