No Brasil, a percepção de riqueza é profundamente distorcida pela nossa realidade social. Dados do relatório global da Knight Frank e dos estudos da UBS/Credit Suisse, bastante respeitado na avaliação socioeconômica mundial mostram que acumular um patrimônio líquido entre US$ 430 mil e US$ 500 mil (aproximadamente R$ 2,4 milhões a R$ 2,8 milhões) é o bastante para colocar um indivíduo no seleto grupo do 1% mais rico do país, falando do Brasil.
Em uma nação marcada por salários baixos e informalidade, possuir um imóvel quitado ou uma reserva financeira em sete dígitos gera um sentimento imediato de topo. No entanto, quando comparada aos padrões internacionais, essa régua revela-se surpreendentemente modesta. Em mercados desenvolvidos, a linha de corte para o 1% opera em outra dimensão: em Mônaco, exige-se um patrimônio mínimo de US$ 12,88 milhões ( R$ 70,8 milhões), enquanto nos
Estados Unidos a marca é de US$ 5,80 milhões (R$ 31,9 milhões).
O contraste escancara que o parâmetro brasileiro para o topo em dólares é baixo justamente porque a base da pirâmide é extremamente desprovida de recursos. Ou seja, a não é pobre, há muita
pobreza. Essa assimetria produz um fenômeno cultural e psicológico curioso: a difusão da sensação de "riqueza" em camadas que estão longe de ser abastadas.
Um país onde a pobreza é visível em cada esquina, onde determinadas camadas ainda compram produtos falsificados para parecerem ricas, onde o sucesso é medido por etiquetas, onde o trabalhador de classe média ou baixa que conquista o mínimo de estabilidade — um emprego formal, um carro popular ou a casa própria — frequentemente passa a se perceber como "privilegiado" ou até "rico". Ao olhar para baixo e enxergar a miséria absoluta, quem está apenas um degrau acima da linha de subsistência confunde ausência de indigência com opulência.
A ilusão de abastança cumpre um papel anestésico. Pessoas com rendimentos modestos ou pequenos patrimônios passam a defender lógicas econômicas e padrões de consumo da elite global, ignorando a própria vulnerabilidade diante de imprevistos de saúde, desemprego ou inflação. Acomodado na posição de "rico em relação ao miserável", o cidadão perde de vista que, na escala do mercado global de capitais, seu patrimônio continua sendo irrelevante e precário.
Dessa forma, em última análise, o fato de tantos se sentirem
ricos no Brasil diz muito mais sobre a gravidade da nossa miséria do que sobre a prosperidade da população. A régua é tão rebaixada que a simples dignidade material é confundida com fortuna. O sentimento de riqueza no país é, acima de tudo, o sintoma mais perverso da nossa desigualdade: um espelho que faz com que a estabilidade básica pareça luxo e que a grande maioria continue cega para a real concentração de capital no mundo. Onde por se sentir em grupo de ilusão, certos segmentos se agrupam para se sentirem um deles, e não são. Na primeira oportunidade, será expelido, principalmente se aparentar alguma substancial vitória ascensional financeira. Assim, infelizmente, é.