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Agosto é o mês dourado, dedicado à promoção da amamentação. O nome vem do “padrão ouro” do leite materno, considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o alimento mais completo para o bebê. A recomendação é clara: aleitamento materno exclusivo até os seis meses e continuado, junto com outros alimentos, até os dois anos ou mais podendo ocorrer, naturalmente, até cerca dos sete anos.
Mesmo com respaldo científico e institucional, amamentar um bebê ou uma criança pequena depois dos dois anos ainda é visto com estranheza. Eu sei disso porque amamento minha filha, de 2 anos e 4 meses, e já ouvi que “o leite virou água”, que “não sustenta”, que estou “viciando” ou “criando mal” uma criança que só busca colo. Essas frases carregam um julgamento que diz muito sobre nossa cultura: a sociedade que aceita violência contra crianças é a mesma que condena o afeto.
O educador parental Lucas Chinarelli explicou essa contradição em um vídeo que repercutiu nas redes sociais:
“A gente normalizou criança apanhando. Mas ainda estranha criança mamando depois dos dois anos. Se uma criança de três anos no peito te incomoda, o problema não é ela, é o seu olhar. É a visão distorcida que a sociedade construiu sobre algo que é natural, saudável e indigno de afeto.”
Enquanto se julga uma mãe pelo tempo em que oferece o peito, as estatísticas revelam um cenário alarmante. Só na primeira semana de agosto deste ano, uma bebê de 3 anos foi encontrada chorando e sozinha de madrugada em Santo André (SP), usando apenas fralda, depois que a mãe saiu para um baile funk. Em Taquarana (AL), um homem foi preso após agredir a própria filha, de 6 anos, com uma sandália no rosto, deixando a marca visível.
E esses não são casos isolados. Segundo o Observatório Nacional de Direitos Humanos (ObservaDH), em 2022 houve 126.013 casos de violência interpessoal contra crianças e adolescentes, incluindo agressões físicas e psicológicas, concentrados em meninas. Já em 2023, o Atlas da Violência identificou 115.384 vítimas de violência por hora, um aumento de 36% em relação ao ano anterior.
Apesar dessa realidade brutal, é o vínculo — e não a violência — que parece incomodar. Chinarelli questiona essa inversão de valores:
“Ainda é mais fácil aceitar um tapa do que um peito prolongado. Mais fácil aceitar o abandono do que o vínculo. Mais aceitável ver uma criança sozinha do que ver uma criança… acolhida.”
Amamentar não é apenas nutrir com leite. É oferecer segurança, vínculo e afeto — elementos que ajudam a formar adultos mais confiantes e emocionalmente saudáveis. O desmame forçado antes do tempo pode interromper esse processo, deixando marcas invisíveis.
Se como sociedade nos escandalizamos com uma criança de três anos mamando, mas viramos o rosto diante das estatísticas de abusos e agressões, o problema não está na criança — está no nosso olhar. Talvez o que precise mudar não seja o tempo de amamentar, mas a urgência em proteger e respeitar a infância.
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