Artigo
por Juliana Barbosa
Publicado em 31/07/2025, às 10h00 - Atualizado às 20h23
A morte de Preta Gil abriu não só um luto, mas também um bueiro. Dele escorreu o lado mais podre da alma humana: aquele que gargalha da dor alheia e se sente autorizado a cuspir crueldades em praça pública.
O espetáculo começou nas redes sociais, onde nunca falta plateia para a insensibilidade: fãs cobrando Gilberto Gil por adiar um show, como se dor tivesse prazo de validade ou fosse luxo de anônimo. Como se a dor do pai devesse dar lugar à arte do cantor, como se dor e arte pudessem ser separadas.
Logo depois, um influenciador decidiu atravessar o limite do grotesco: acusou Gil de “simpatizar com sacrifício humano” e disse que ele teria entregado os filhos como oferenda, ignorando que, antes de ser ícone da música brasileira, Gilberto Gil é um pai que acabara de perder uma filha. Em tempos de histeria online, até a dor vira combustível para linchamento virtual, como se estivéssemos num tribunal da Idade Média na era do Wi-Fi.
E, quando parecia que o fundo do poço já tinha sido atingido, veio a pá de cal: um padre — aquele que deveria ser o exemplo vivo de compaixão — resolveu zombar da morte da cantora. Quando até o altar esquece o que significa amar o próximo, fica evidente que a empatia tirou férias e esqueceu de avisar a data de volta.
Por trás de tudo, há também o veneno da polaridade política, que transforma qualquer assunto em guerra. O luto da família Gil foi usado como munição ideológica, distorcido por quem prefere a teoria conspiratória ao silêncio respeitoso. No Brasil da hiperconexão e do extremismo, compaixão parece ter lado, e empatia passou a ser confundida com posição partidária, quando deveria ser apenas humana.
Vivemos tempos em que o like vale mais que o luto. Em que a maldade viraliza mais rápido que qualquer pedido de oração. O dedo que digita não sente o peso da pedra que joga. A tela dá coragem a quem, cara a cara com a dor real, provavelmente baixaria os olhos e engoliria o veneno.
Mas empatia não é — ou não deveria ser — opcional. Bom senso não é artigo de luxo. E fé, sem amor, é só teatro de domingo. Porque respeitar o luto do outro é o mínimo esperado de quem se diz cristão — ou, simplesmente, humano.
No fim, cada comentário revela menos sobre Preta Gil e mais sobre quem o escreveu. A morte escancarou não apenas a fragilidade da vida, mas também a falência coletiva da nossa capacidade de sentir. Se a gente não recuperar isso logo, talvez o que acabe de vez não seja apenas uma existência — mas a nossa humanidade inteira.
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