Artigo
Publicado em 24/12/2025, às 18h11 Marcelo Cerqueira
O Natal sempre foi um período de encontros, celebrações e gestos que aquecem os corações. Entre sorrisos e memórias, poucas tradições simbolizavam tão bem o espírito natalino como o envio e o recebimento de cartões de Natal. Porém, essa prática, tão carregada de afeto, foi desaparecendo com o passar do tempo, vítima das mudanças impostas por novas tecnologias como o WhatsApp, que trouxe a comunicação instantânea na velocidade da luz, mas afastou alguns laços humanos que demandavam cuidado e tempo.
Em outros tempos, recebíamos dezenas, às vezes centenas de cartões de Natal. E não eram cartões quaisquer. Muitos eram verdadeiras obras de arte, com detalhes lindos que encantavam. Em casa Luiz, organizarem varais deles como parte da decoração da casa. Cada cartão tinha um valor sentimental especial e representava o esforço e a lembrança de alguém querido.
Essa tradição, no entanto, ia além de simplesmente receber os cartões. Assim que chegava um pelo correio, era um ato de elegância e gentileza retribuí-lo com outro confirmando o recebimento. Essa prática reforçava os laços afetivos, um símbolo concreto de respeito e carinho mútuo. Quem nunca se encantou com a beleza de um cartão de Natal bem trabalhado, com as extremidades serilhadas e detalhes em relevo prateado e dourado?
Minha memória viaja à primeira vez que vi um cartão de Natal. Era algo fascinante. Eu me lembro como se fosse ontem: as bordas delicadas, o brilho do relevo, as mensagens manuscritas que carregavam o calor de quem as enviava. Era algo tão especial e único, quase mágico. Minha prima Carmélia, em Feira de Santana, por exemplo, fazia um dinheirinho extra vendendo cartões. Ela sempre encontrava os modelos mais bonitos, de deixar qualquer um encantado.
Além dos cartões, o Natal era recheado de momentos singulares que tornavam essa época mágica. Havia o ritual de abrir os envelopes e aproveitar o momento de exposição dos cartões, transformando a casa em um pequeno museu dos afetos. Mas não era só isso. Outra grande alegria desse período era a chegada de uma cesta que vinha, ano após ano, direto do Mercado Municipal de São Paulo.
Todo final de ano, o caminhão de entregas da antiga companhia aérea Varig deixava à porta uma cesta enorme, repleta de delícias cuidadosamente selecionadas por minha sogra, Odete de Barros Mott, uma escritora de sensibilidade singular. Ela escolhia cada item com todo o cuidado: frutas secas, queijos, doces variados e outros mimos que enchiam a casa de sabor e alegria. Tudo era pensado para tornar o Natal um momento inesquecível, onde família e amigos se reuniam para celebrar.
Esse gesto minucioso, repleto de atenção e carinho, refletia o que o Natal tinha de mais essencial: criar conexões honestas, imprimir significado em cada gesto e valorizar as pessoas que amamos.
Hoje, no entanto, quase não se trocam cartões de Natal. A tradição afetiva foi sendo gradualmente substituída por mensagens rápidas em aplicativos como WhatsApp, que, embora práticas e instantâneas, perderam um pouco daquele toque especial. Uma mensagem virtual, cara leitor do Bnews, não carrega o peso emocional que um cartão escolhido a dedo, muitas vezes escrito à mão, conseguia transmitir.
Embora a tecnologia amplie nossas comunicações, ela também cortou experiências que exigiam um nível de dedicação maior. Aquele momento de sentar, escolher um belo cartão, escrever com carinho e depois enviá-lo pelo correio deixou de existir. E, com isso, acredito também se perdeu parte daquela nostalgia, um Natal feito de detalhes carregados de significado.
Relembrar essas tradições é recordar um tempo em que as festas de fim de ano tinham suas alegrias reforçadas por gestos simples e absolutamente humanizados.Os cartões, as cestas, os momentos de organização e trocas eram como um lembrete constante de que éramos lembrados e valorizados. A cada carta, vislumbrávamos gratidão, carinho e memória.
Dedico este texto à memória do meu amigo Vida Bruno, falecido em 6 de abril de 2021. Ele era galanteador, formoso e possuía tantas outras habilidades. Seu aniversário era comemorado em 25 de dezembro, no dia de Natal.
Nossa gratidão ao prefeito Bruno Reis por eternizar sua memória ao nomear o Centro de Referência em sua homenagem.
Que o espírito do Natal traga o melhor dessa essência perdida e nos inspire a, novamente, criar essas pequenas e preciosas alegrias.
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