Artigo
Publicado em 28/03/2026, às 14h00 Wendel Palhares*
Imagine morar em uma cidade onde a informação mal chega. Você não sabe como acessar um serviço público. Não sabe que o posto de saúde ampliou o atendimento. Não sabe que um médico identificou o aumento de uma doença. Não sabe que o ônibus mudou o horário. Não sabe que surgiu uma oportunidade de trabalho.
Também não vê sua comunidade representada. Não conhece suas próprias histórias. Não acompanha o que acontece na Câmara de Vereadores. Não entende para onde vai o dinheiro público. Não é falta de interesse. É falta de acesso.
Essa ausência cobra um preço: mais erros, mais desperdício de tempo, menos pertencimento, menos participação e mais vulnerabilidade. Isso tem nome: desertos informacionais.
Trata-se de uma falha de infraestrutura democrática. Um apagão local de informação confiável, plural e útil para a vida das pessoas. Mas é preciso ir além. Deserto informacional não é só ausência. É exclusão ativa.
Desde 2017, o Atlas da Notícia, iniciativa do Projor, mapeia esse fenômeno. A definição é direta: município sem nenhum veículo jornalístico ativo. Hoje, cerca de 50 milhões de brasileiros vivem em desertos ou semidesertos de notícias.
Em Alagoas, o cenário é ainda mais desafiador. São 49 municípios classificados como desertos, o equivalente a 48% do estado. Houve avanço recente, com 13 cidades saindo dessa condição graças ao crescimento do jornalismo digital e das rádios. Ainda assim, o problema persiste.
Não se trata apenas de geografia. É estrutura. Falar em “falta de informação” sugere um vazio casual. Não é o caso. O que existe é concentração de poder informacional.
A capacidade de produzir, validar e distribuir informação está concentrada em poucos centros e em poucas vozes. Enquanto isso, territórios inteiros permanecem à margem, dependentes de veículos de cidades vizinhas ou de conteúdos fragmentados nas redes sociais, produzindo pouca ou nenhuma narrativa sobre si mesmos.
Isso é desigualdade. E também exclusão histórica.
Por isso, não basta olhar apenas o mapa territorial. Existem desertos mesmo onde há veículos. Desertos de pauta, de representação e de voz. Uma cidade pode ter um site de notícias e, ainda assim, permanecer em silêncio sobre mulheres, população negra, comunidades tradicionais, periferias ou população LGBTQIA+. Pode haver cobertura sem pluralidade.
Quando determinados grupos não aparecem, não narram e não disputam sentido na esfera pública, o que há não é ausência de mídia, mas ausência de poder. Quem controla a narrativa controla o que é visto como realidade.
É nesse contexto que surge, em Alagoas, o programa Plural. Mais do que uma iniciativa de apoio, trata-se de uma política pública voltada a enfrentar desigualdades estruturais na comunicação. Atua em três dimensões: acesso, produção e circulação de informações com pluralidade, transparência e compromisso com a verdade.
A proposta é ampliar quem pode produzir conteúdo, contar histórias e disputar espaço no debate público. Isso inclui, de forma intencional, mídias negras, periféricas, religiosas, de comunidades tradicionais, de diversidade sexual, etária e independentes. Aqui, representatividade não é estética. É participação política.
Há também um problema concreto. Em muitas cidades, a comunicação local não se sustenta por falta de qualificação técnica, educação financeira e conhecimento de modelos de negócio. Em outros casos, os veículos existentes se limitam ao sensacionalismo, à disputa política ou ao entretenimento, sem compromisso consistente com a informação pública.
Nas lacunas deixadas por esse cenário, proliferam perfis em redes sociais com origem e propósito pouco claros. Plataformas como Instagram, TikTok, Facebook e X cumprem parte do papel de informar, mas de forma fragmentada, desorganizada e, muitas vezes, sem responsabilidade editorial.
Informar não é apenas publicar. É organizar, verificar, contextualizar e assumir compromisso com a comunidade.
É justamente aí que o Plural se posiciona. Como incubadora, o programa oferece formação em educação financeira, técnicas de venda, legislação, responsabilidade no combate à desinformação e uso de tecnologias. Também disponibiliza infraestrutura, como estúdios e laboratórios, para comunicadores que não têm acesso a recursos básicos.
O objetivo é claro: transformar presença em consistência, voz em estrutura, iniciativa em sistema.
Desertos informacionais não nascem apenas da ausência de veículos. Nascem de um modelo que concentra a capacidade de comunicar em quem já tem recursos para contar a própria versão dos fatos.
Por isso, diferentes países tratam o tema como política pública. Dinamarca, Suécia e Finlândia estruturaram sistemas de apoio ao jornalismo local e independente. Nos Estados Unidos, discutem-se subsídios e incentivos fiscais. A União Europeia financia redes de mídia comunitária.
No Brasil, o tema começa a ganhar forma. A Bahia avançou ao desenvolver iniciativas voltadas ao fortalecimento de mídias locais e comunitárias, em diálogo com o esforço nacional de reconstrução de políticas públicas de comunicação.
Os desertos de notícias têm uma característica perigosa: são invisíveis. Onde não há jornal, não há quem denuncie sua ausência. O problema se esconde dentro de si mesmo. Por isso, precisa sair do debate técnico e entrar na agenda pública.
No fim, a pergunta é simples: quem conta a história da sua cidade — e a serviço de quem?
Wendel Palhares é secretário de Comunicação de Alagoas e vice-presidente do Conselho Nacional de Secretarias de Estado da Comunicação.
As informações apresentadas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do veículo.
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