Artigo
Publicado em 15/11/2025, às 21h47 - Atualizado às 21h57 Marcelo Cerqueira*
Em um mundo onde a interação humana se dá, cada vez mais, em espaços mediados pela tecnologia, as plataformas de mobilidade urbana se tornam palcos para a manifestação de complexas dinâmicas sociais. Recentemente, um relato viral de um motorista de aplicativo, que descrevo como "o belo tatuado", trouxe à tona discussões profundas sobre beleza, objetificação, heteronormatividade e as regras não-escritas que regem o espaço compartilhado de um carro.
O motorista, claramente desconfortável, descreveu como um passageiro o olhou "como se ele fosse um prato de comida", culminando em um toque acidental no joelho que o passageiro interpretou como um "código". A experiência foi tão avassaladora que ele preferiu dirigir em marcha baixa, gastando mais gasolina, a arriscar um novo contato ou a dar qualquer sinal de encorajamento ao passageiro. Este incidente, embora aparentemente isolado, ecoa padrões de comportamento que atravessam milênios, como o próprio relato bíblico de Sodoma nos sugere.
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A beleza como fio condutor na passagem de Gênesis, onde anjos em forma de homens visitam Sodoma, oferece uma metáfora potente. A beleza dos visitantes, ainda que não explicitamente descrita, é implícita na reação possessiva e violenta dos homens da cidade, que exigiram a entrega dos anjos para que pudessem "abusar deles". Nesse contexto, a beleza se torna um catalisador para o desejo descontrolado, a invasão e, em última instância, a destruição – não apenas da cidade, mas da dignidade do outro.
Assim como os anjos em Sodoma, o motorista tatuado se viu na posição de objeto de um olhar que não respeitava sua autonomia. O "ser belo" pode, paradoxalmente, transformar-se em uma "maldição", gerando um poder que reside não em quem possui a beleza, mas em quem a percebe e a deseja. Esse poder, quando desrespeitoso, pode levar ao constrangimento, à vulnerabilidade e a uma sensação de "destruição" do espaço pessoal e emocional, como o próprio motorista descreve ao se sentir "desconfortável" e "oprimido".
A hegemonia heteronormativa e as contradições do discurso masculino são pontos cruciais para analisar o discurso do motorista sob a luz da hegemonia heteronormativa. Apesar de se sentir objetificado por um homem, sua reação imediata de autoproteção e desconforto esbarra em suas próprias declarações. Ele afirma categoricamente: "Eu não fico com homem, não gosto." Essa frase busca reestabelecer sua identidade heterossexual, possivelmente para se distanciar da "ameaça" percebida de ser desejado por outro homem.
No entanto, a complexidade surge quando ele acrescenta que, se fosse a "minha irmã, para minha mãe, para minha mulher", ele "ia fazer patê de cérebro desse cara". Essa agressividade direcionada à proteção de mulheres, embora possa ser lida como um reflexo de machismo protetor, também revela uma hierarquia de violência. O motorista valida a agressão em defesa de mulheres contra olhares desrespeitosos, mas não legitima a própria experiência de sentir-se violado por um olhar masculino, talvez por não se encaixar nos padrões de vulnerabilidade esperados de um homem dentro branquitude heteronormativa. Ele mesmo, em sua masculinidade de homem branco, se vê em uma situação de objetificação que geralmente é associada a corpos femininos ou a corpos LGBTQIA+. Essa tensão entre sua experiência pessoal e as normas sociais que regem o que é aceitável sentir ou expressar como homem é um ponto central de uma angústia descontrolada.
Outro ponto que merece atenção é a questão do assento do carona e as regras invisíveis. Muitas vezes, os motoristas de aplicativo criam suas próprias "regras" não oficiais, incentivando ou até forçando o passageiro a sentar no banco de trás. Colocam mochilas, bolsas, ou até mesmo alegam defeitos fictícios ("o banco tá com defeito", "a porta tá travada", "o cinto quebrou") para desencorajar o uso do assento dianteiro.
É fundamental esclarecer ao leitor que não há nenhuma proibição explícita para que o passageiro utilize o banco do carona em veículos de aplicativo no Brasil. Essa é, na maioria das vezes, uma decisão do condutor, motivada por segurança, conforto pessoal ou, como neste caso, para manter uma distância. Empresas de aplicativo geralmente possuem diretrizes que visam a segurança, mas não impõem essa restrição. Essa prática difere de locais como Nova York, onde barreiras físicas e uma cultura de "passageiro atrás" são consolidadas, ou Londres, onde o rigoroso exame "The Knowledge" para taxistas avalia não só o conhecimento geográfico, mas também postura, paciência e competência social, influenciando diretamente a qualidade e o formato da interação.
O relato do motorista sublinha a importância da postura inicial do condutor na dinâmica da viagem. Um motorista que, ao iniciar a corrida, cumprimenta com empatia, se apresenta, pergunta sobre o conforto do passageiro e oferece opções de trajeto, estabelece um tom formal e respeitoso. Ele assume a condução não apenas do veículo, mas da interação social, minimizando espaços para ambiguidades ou desconfortos.
Embora esse tipo de condutor exista, é inegável que ele é raro. A pressão do trabalho, a precarização das condições e a falta de treinamento em etiqueta social podem levar a interações menos empáticas, abrindo precedentes para mal-entendidos ou para a invasão de espaço, seja físico ou emocional.
A experiência complexa do motorista de aplicativo nos convida a uma reflexão mais ampla sobre respeito mútuo e a percepção do outro. A beleza, como o relato de Sodoma demonstra e o cotidiano reitera, é uma faca de dois gumes: pode inspirar admiração, mas também desejos que, quando descontrolados e desrespeitosos, levam ao constrangimento e à violação.
É imperativo que, como sociedade, questionemos as normas que nos levam a objetificar o próximo, independentemente de sua aparência, gênero ou sexualidade. O espaço do aplicativo de transporte, ainda que temporário, é um microcosmo onde a necessidade de empatia e o reconhecimento da humanidade do outro se tornam cruciais para uma convivência mais segura e respeitosa, longe das "regras" invisíveis que só amplificam preconceitos e desconfortos.
*Marcelo Cerqueira é coordenador Municipal de Políticas e Promoção da Cidadania LGBT+ de Salvador.
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