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O cinema pode ser político? Em 2026, ano de eleições presidenciais no Brasil, marcado por disputas ideológicas, circulação de desinformação e conflitos em torno da memória e dos valores democráticos, a pergunta é pertinente. Contudo, a resposta ultrapassa a presença de partidos, candidatos ou discursos eleitorais nas telas. Um filme carrega a politização por meio das histórias que escolhe contar e das pessoas que coloca no centro da narrativa.
Cinema é social por natureza, e ato político como consequência. A emoção é maior que o discurso, a poesia é maior que a tese, e a humanidade é maior que o posicionamento" — Daniell Abrew.
A sétima arte participa da vida coletiva porque transforma experiências individuais em questões de interesse público. O cineasta baiano Glauber Rocha sintetizou parte dessa compreensão em seu manifesto “Eztetyka da Fome”, de 1965, ao escrever que “a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência”. A frase, dentro do contexto da década de 1960, explicita a recusa de um cinema indiferente às contradições sociais e evidencia a necessidade de representar as estruturas que produzem a miséria.
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A dimensão crítica permanece necessária em uma sociedade na qual acontecimentos complexos são frequentemente reduzidos a vídeos curtos, frases descontextualizadas e disputas nas redes sociais. Em um ano eleitoral, o audiovisual pode contribuir para a reflexão sobre a história, as desigualdades e as consequências das escolhas políticas, sem determinar como o público deve votar. Afinal, se a política brasileira já oferece reviravoltas suficientes para uma trilogia, o cinema ainda tem a vantagem de poder chamar o roteiro de ficção quando a realidade fica absurda demais.
Em “Serras da Desordem”, Andrea Tonacci mistura documentário e ficção para reconstruir a trajetória de um indígena sobrevivente de um massacre, confrontando a violência colonial e o apagamento histórico; “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós, combina ficção científica e memória para discutir racismo e violência policial na periferia de Brasília; “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, investiga as tensões de classe e a herança escravocrata nas relações cotidianas; “A Vizinhança do Tigre”, de Affonso Uchoa, acompanha jovens da periferia de Contagem sem recorrer a retratos simplistas da marginalidade.
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Distantes das fórmulas mais convencionais da indústria, essas produções demonstram como a linguagem cinematográfica pode confrontar estruturas de poder e revelar realidades frequentemente ausentes das narrativas dominantes.
Como escreveu Glauber Rocha em seu manifesto citado anteriormente, “onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade e a enfrentar os padrões hipócritas e policialesco da censura, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo”. A reflexão permanece atual ao defender um cinema que não se limite a reproduzir o mundo, mas encontre formas de questioná-lo.
A discussão também ajuda a compreender o papel de “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro que se insere no atual embate político brasileiro. Sob uma perspectiva crítica, o filme pode ser tratado como uma constrangedora peça de exaltação política, na qual a construção de uma imagem favorável ao bolsonarismo corre o risco de se sobrepor à análise de suas contradições.
O problema discutido está centrado em tratar a figura política de forma reducionista, como apenas um instrumento de promoção ideológica. Consequentemente, a ideia que fica é que a complexidade de um personagem público pode ser substituído por uma narrativa de glorificação. Uma obra politicamente relevante não tem de ser neutra, muito pelo contrário, mas estar aberta ao confronto de ideias e à interpretação crítica pode transformar a produção de forma positiva e acarretar em uma obra com mais nuances.
O princípio vale tanto para filmes alinhados à direita quanto para aquelas identificadas com a esquerda. A arte perde força quando abandona o questionamento e se transforma em publicidade para líderes e projetos de poder. Neste cenário, se o cinema brasileiro estiver interessado em narrativas sobre as relações entre capital, influência e poder, o caso Vorcaro parece oferecer material para um thriller político.
Criada em 1991 pela Lei nº 8.313, a chamada Lei Rouanet é oficialmente a Lei Federal de Incentivo à Cultura. A regalia permite que empresas e pessoas físicas destinem parte do seu Imposto de Renda para patrocinar projetos culturais previamente aprovados pelo Ministério da Cultura. Em vez de o governo distribuir diretamente verbas, os apoiadores privados pagam menos tributos ao destinar recursos a esses projetos, um mecanismo de renúncia fiscal que estimula a iniciativa privada a apoiar a cultura.
Ao longo de mais de três décadas, milhares de projetos em áreas como artes visuais, música, teatro, literatura e audiovisual receberam apoio por meio desse mecanismo, e muitos equipamentos culturais foram diretamente beneficiados em sua criação ou fortalecimento.
A renúncia fiscal não representa uma transferência direta de verba pública para projetos culturais; significa que parte do imposto que seria recolhido ao Estado é destinado pelo patrocinador ao projeto aprovado. É por isso que falar em “gastar dinheiro do povo com artistas” é uma simplificação que ignora a natureza técnica e legal do dispositivo.
No Brasil, a ideia de que o poder público não deveria financiar filmes ignora a concentração dos recursos privados e as dificuldades enfrentadas por realizadores independentes, especialmente aqueles que trabalham fora dos grandes centros. Políticas públicas transparentes podem ampliar o acesso ao financiamento e, consequentemente, permitindo que diferentes grupos contem suas próprias histórias.
Os incentivos culturais precisam de continuidade, critérios públicos e mecanismos que impeçam o uso dos recursos como recompensa a aliados ou instrumento de perseguição a adversários.
A experiência da Embrafilme, criada durante a ditadura militar, e as perseguições ideológicas do macarthismo nos Estados Unidos demonstram, por caminhos diferentes, que a relação entre cultura e poder exige atenção permanente à autonomia dos artistas. Festivais e mostras comunitárias também são essenciais para que o acesso ao cinema não fique restrito às obras com maior potencial comercial.
Defender o cinema político significa reconhecer que a democracia exige mais do que eleições periódicas. A compreensão do ideal depende, na maioria das vezes, da preservação da memória, respeito aos direitos fundamentais e capacidade de questionar versões convenientes do passado.
A sétima arte não substitui a educação, o jornalismo ou a participação política ativa, tampouco resolve sozinho as desigualdades brasileiras. Sua contribuição está em tornar visíveis experiências negligenciadas e provocar perguntas que o debate cotidiano nem sempre consegue aprofundar. Em outras palavras, tentar confrontar certezas estabelecidas pelo senso comum.
Os governos mudam e as disputas eleitorais se renovam, enquanto os filmes continuam a dialogar com outras gerações. A questão não é apenas se o cinema pode ser político, mas por qual motivo uma sociedade democrática deve garantir que a construção imagética nas telonas tenha liberdade para questionar o poder, representar suas contradições e, a depender do cineasta, imaginar outros futuros possíveis.
Para mim, o cinema combina tudo. É por isso que fiz do cinema o trabalho da minha vida. No cinema, a pintura e a literatura, o teatro e a música se unem." – Akira Kurosawa
*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews.
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