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Desde 1998 eleição na Bahia é decidida no primeiro turno

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Publicado em 04/08/2022, às 10h17    Arquivo pessoal    Redação BNews

O ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (UB), oficializa sua candidatura ao governo estadual da Bahia na próxima sexta-feira (5). Antes disso, deve anunciar quem o acompanhará na garupa da chapa majoritária como postulante a vice-governador. Embora seja este o tema das especulações nas rodas que discutem a política baiana, muitas outras agendas estão no forno, aguardando o momento oportuno para serem servidas no banquete eleitoral.

Em entrevista concedida à Tribuna da Bahia, veiculada nesta segunda-feira (1), o ex-prefeito opina que a candidatura de seu ex-secretário e ex-aliado, João Roma (PL), deve desidratar devido a sua própria natureza, que é de pertencer a um nicho, uma fatia do eleitorado do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL). A declaração foi dada no sentido de que se tratará de uma eleição plebiscitária e provocou a revolta da vizinhança.

A despeito do disse-me-disse que preenche as páginas virtuais, redes sociais e grupos de whatsapp, o fato é que tanto Neto, quanto seu principal adversário, Jerônimo Rodrigues (PT), realizam constantemente pesquisas qualitativas, para consumo interno, que apresentam algo que paira no ar: a eleição na Bahia tende a ser resolvida no primeiro turno. Como, de fato, acontece desde o pleito de 1998.

Em 1994, última eleição com dois turnos, as características das candidaturas eram bem distintas das de agora. Paulo Souto, no então PFL, representava a continuidade do projeto liderado por ACM e enfrentou dois ex-governadores, João Durval (PMN) e Nilo Coelho (PMDB).

Além destes adversários, havia ainda a postulação de Jutahy Magalhães Júnior (PSDB), que contava com o apoio do PT na ocasião, e vinha adubada por um cenário nacional pujante com o lançamento do Plano Real e a candidatura, que acabara vitoriosa de Fernando Henrique Cardoso. Ainda assim, Paulo Souto teve 49,30% dos votos válidos, ou seja, bateu na trave para ser eleito no primeiro turno.

De lá para cá, César Borges derrotou Zezéu Ribeiro (PT) e João Durval (PDT), tendo 69,9% dos votos válidos. Paulo Souto retornou ao Palácio de Ondina, em 2002, com 53,7%. Derrotou Jaques Wagner naquela disputa. O petista teve por 38,5% dos eleitores baianos.

Já em 2006, catapultado pela gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Wagner venceu o pleito. Teve 50,89% dos votos, frente a 43% do então governador que buscava a reeleição. Em 2010, a vitória petista foi por 63,83%, Paulo Souto (DEM) e Geddel Vieira Lima (PMDB) tiveram 16,09% e 15,56%, respectivamente.

Rui Costa, um então secretário não muito conhecido do eleitorado, foi a escolha de 54,53% dos eleitores em 2014 e sucedeu Wagner. Em 2018, após a desistência de ACM Neto, o petista foi reeleito, jogando praticamente sozinho e teve a maior vitória eleitoral registrada neste período de redemocratização. Foram 75% dos válidos contabilizados para o atual governador. José Ronaldo, ex-prefeito de Feira de Santana, foi para o sacrifício e teve 22% dos votos.

No seu livro Emoções ocultas e estratégias eleitorais, Antônio Lavareda, traz um estudo a respeito da competitividade das candidaturas para o Poder Executivo e constata que “no âmbito das eleições majoritárias, principalmente as de governadores e presidente, após a fragmentação inicial entrou em marcha um processo de concentração das votações em torno de um número cada vez menor de candidatos. Até nominalmente, a quantidade de inscritos vem caindo. Enquanto em 1989, ano das primeiras eleições para a Presidência após a redemocratização, foram 21 os candidatos, esse número viu-se reduzido para sete postulantes em 2006”.

De modo que duas postulações tendem a “rivalizar” a peleja pelos votos. Neste ano, a última pesquisa divulgada na Bahia, Quaest, contratada pelo Banco Genial, ilustra esse cenário, embora ainda não capte o retrato projetado. Ela coloca ACM Neto com 61% das intenções de votos; Jerônimo Rodrigues (PT) foi apontado como candidato por 16% dos entrevistados; e João Roma (PL) quase que, ironicamente, por 13% dos ouvidos. Estes números, no entanto, são artificiais e não condizem com o que se sabe sobre o pleito no estado.

Na política baiana, é comum o entendimento de que 30% dos votos devem ser do candidato petista. São 16 anos na máquina e um governo trabalhando em alta voltagem pela campanha de Jerônimo. Além disso, a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva traz para este patamar o piso de votos de um candidato alinhado e do mesmo partido. Esta é a aposta 100 em cada 100 pessoas ouvidas com seriedade sobre o assunto.

Já ACM Neto, pelo recall eleitoral e pelo que vem construindo na precoce pré-campanha, como demonstram as pesquisas, não deve ver sua margem de votos abaixo dos 35%. Neste cenário, João Roma precisa manter seus percentuais acima dos 20% para que haja segundo turno. O que não é simples em um cenário no qual o grande trunfo do postulante é ter sido ministro de Bolsonaro.

Roma não é conhecido dos baianos. Não goza de apelo popular e tem, assim como Jerônimo, seu potencial atrelado a outros. A diferença é que o petista pode ser erguido por um grupo de caciques bem avaliados e com penetração nos rincões baianos, enquanto o liberal tem quase que um único farol para atrair a atenção. E por aqui, até o momento, este farol não iluminou caminhos.

As medidas aprovadas a toque de caixa no Congresso Nacional podem surtir efeito positivo para Roma. É preciso ver o impacto, no campo eleitoral, do Auxílio Brasil, preços de combustíveis e outros benefícios que chegam nesta hora decisiva. Nos últimos cem metros desta corrida, é que o povo tende a decidir o voto e, até lá, vamos assistir a um show de especulações e contorcionismos narrativos.

O perverso neste contexto é a falta total de zelo com o bom senso e a ausência de compromisso com a moral. Nesta campanha, que ainda nem começou, já está claro que a Justiça Eleitoral está emparedada e que, “do pescoço para baixo, tudo é canela”. Infelizmente.

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