Artigo

Extermínio

Arquivo pessoal

O documentário traz a infeliz história das mulheres trans neste país

Publicado em 25/07/2022, às 10h28    Arquivo pessoal    José Medrado

Extermínio é o nome de um filme-documentário de Mirela Kruel, que sem qualquer trocadilho, mas já fazendo, com o sobrenome da diretora, retrata a crueldade de uma sociedade que se diz cristã, mas que está arraigada em valores de preconceito, segregação e morte, em grande parte. O documentário traz a infeliz história das mulheres trans neste país. O ódio que se nutre contra a vontade de se ressignificar identidade de quem é o/a proprietário/a da própria vida. Fala do assassinato da jovem Nicklolle Rocha, 19 anos, que foi brutalmente massacrada por dois adolescentes na cidade de Cachoeira do Sul, Rio Grande do Sul. O relato, em depoimento dos pais e das amigas de Nickolle, traz um misto de revolta e comiseração para almas que se colocam no lugar de pessoas que buscam a sua posição no mundo, entendendo a universalidade da individualidade humana. Destaque para as falas dos pais da assassinada, não tendo a menor ideia do que se tratava ter um filho que fazia a transição para filha.   É de cortar o coração ver um pai, um homem rude, de fala sem quase concordância verbal, reportar a aceitação de sua filha, ao reconhecimento do amor que em si é assexuado, porquanto não se ama sexo biológico, ama-se pessoa.

O pai de Nickolle  mostra a devastação que está a sua alma, pela perda de sua filha, que nasceu filho, mas que ele entendeu, mesmo com a dureza que a vida o submeteu, em sua condição de pobreza, mas a sua envergadura moral, espiritual evidencia um ser diferenciado. Exemplo para os pais que ainda insistem em se preocupar com o “que os outros vão falar”, mas pouco ligam para a real felicidade de seus filhos LGBTQIPA+.

Outros registros de destaque são de quatro amigas que relatam as suas dores e sonhos sufocados, esganados por uma sociedade que vive em padrões dissimulados e falsos, em sua grande maioria. Elas falam de sonhos naturais como terem família, de serem aceitas. Há um momento que uma dela fala que queria ter um emprego de carteira assinada, para deixar de fazer programa para sobreviver. Levanta este a falta de acesso a meios tidos como naturais de sobrevivência, guardando, assim, o único caminho para tanto: trabalho de venda de sexo. Reportam inclusive o que  sabemos,  que as que buscam, em geral, são homens casados, que têm seus anseios sexuais inconfessáveis.  

Sinto o documentário como um grito de alerta no que estamos fazendo para que a cidadania seja vivida na sua plenitude, onde os nossos conceitos servem para nós, não como imposição a outrem. O triste em tudo é que estes brasileiros, mulheres e homens trans, são tão brasileiros como qualquer um de nós, mas pelas estatísticas estão fadados a viverem apenas até os 35 anos, por força da violência e morte que muitos ditos cristãos de famílias perpetram contras esses seres humanos.

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