Artigo
Publicado em 29/06/2026, às 12h24 Jolivaldo Freitas*
O som potente que vinha do paredão de imensas caixas acústicas era ensurdecedor, chegava a bater na caixa dos peitos, mas vazio. Era um forró? Era! Daqueles eletrônicos, com batidas que pareciam disparos na Ucrânia ou nas comunidades tomadas pela bandidagem, e um sanfoneiro que, coitado, mais parecia estar disfarçado com a camisa xadrez. A multidão na praça não dançava. Balançava celulares como lanternas em um show de rock, gravando stories para o Instagram. O corpo não se movia em pares, não suava no abraço colado.
O rapaz da banda, com a barba por fazer e um boné virado para trás, gritava no microfone: "Essa é a minha nova, galera! É autoral! Vai estourar!". A letra falava de amor, de corno levado, de umas coisas que não combinavam nem com o chão de terra batida e o cheiro de milho assado que vinha das barracas. A multidão aplaudiu. Mas ninguém pediu bis. Ninguém sabia a letra. E, no fundo, ninguém se importava. O ritmo era batido, chupado de algum outro hit, pois todos se parecem.
Pode-se dizer que houve um São João de verdade. Não era tão longe assim. Na cidadezinha, o arraial era montado com bandeirolas de papel crepom que a gente local mesmo cortava. O som não vinha de caixas de milhares de watts, mas do bafo de um sanfoneiro chamado Seu Zé ou Jão. Ele chegava, sentava-se num banco de madeira, e a primeira nota de "Asa Branca" já fazia o chão tremer. Não por causa do grave, mas por causa da emoção.
Ali, todo mundo dançava. O velho e o moço, a criança e a avó. O xote era uma ciência exata de passos miúdos e braços que se enlaçavam. O arrasta-pé era uma poesia escrita com os pés no chão. Não havia plateia. Todos eram protagonistas.
Hoje, o que vejo é um desfile de vaidades. O novo grupo, que mal sabe segurar uma zabumba, quer lançar o "hino" que vai substituir Luiz Gonzaga. Seja cantor famoso, vindo de Goiás, São Paulo, Caruaru ou do distrito do Bravo na Bahia, canta sua música “chiclete”, de olhos fechados, como se estivesse numa arena de luxo, e o pessoal, em vez de dançar, ergue os braços e balança o corpo como num ritual de adoração a um ídolo distante. O forró deixou de ser a dança do casal, do encontro, da fogueira e do olho no olho. Virou um show de auditório ao ar livre.
O pior, no entanto, não é nem a música. O pior é o silêncio do esquecimento. Nas noites de São João, cadê a quadrilha? Cadê a Marujada, com seus chapéus enfeitados e sua coreografia que conta histórias de navios? Cadê o Bumba-meu-boi, que roncava e assustava as crianças? Cadê o xaxado, dança de guerra e de resistência? Sumiram. Foram engolidos pelos trios de forrós elétricos e pelos contratos de cachê. A prefeitura gasta uma fortuna para trazer a banda X ou Y, mas não sobra um tostão para o grupo folclórico da própria cidade.
Geralmente quando o show termina o cantor agradece, joga um boné para a plateia e vai embora em uma caminhonete preta. O povo se dispersa, ainda com os ouvidos zumbindo. Ninguém assobia a melodia. Ninguém repete o refrão. De repente um bêbado tenta lembrar como era a música do velho Luiz. Ele assobia desafinado, e por um segundo, a alma do São João ameaça voltar. Mas o vento leva a nota, e a praça fica vazia, apenas com os restos de copos descartáveis e o eco de um forró que não se dançou.
Na madrugada são poucas as fogueiras porque ninguém quer ter trabalho de buscar paus e acender. Ninguém mais acender um bom São João. E o licor que foi trocado pela cerveja!
Jolivaldo Freitas - Escritor e jornalista. Autor do livro A História dos Festejos Juninos - São João na Bahia (Amazon)
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