Colunas / Na Sombra do Poder
O Tribunal do Baby Beef
Nos anos 80 e 90, o almoço de domingo no Baby Beef era o verdadeiro termômetro político da Bahia. Localizado na região do Iguatemi, o restaurante fundado por Mamede Paes Mendonça reunia a alta sociedade, empresários, prefeitos do interior e deputados. Mas o clima mudava completamente quando Antônio Carlos Magalhães entrava no salão. Muitos se levantavam. Uns para ceder o lugar. Outros para a bajulação pura e simples. Empresários e políticos disputavam a atenção do “Toninho Malvadeza” como quem disputa um favor real. Havia quem ficasse de pé ao lado da mesa por minutos, às vezes até horas, esperando apenas um aceno de cabeça que autorizasse a falar. Havia quem competisse com o garçom para puxar a cadeira ou acender o charuto do ex-governador. O Baby Beef funcionava quase como um Diário Oficial informal. ACM ditava ordens ali mesmo, na frente de todos. Secretários e diretores de órgãos públicos descobriam que seriam demitidos ao verem o próprio substituto sentado e rindo na mesa principal, enquanto eles recebiam “o gelado”. Era o tribunal do Carlismo. Quem tinha poder, sentava. Quem não tinha, esperava de pé.
As Noites da Le Zodiaque
A Le Zodiaque era o templo da noite soteropolitana. Localizada na Barra, era o reduto da juventude rica, dos descolados e dos artistas. A pista rodava o auge da Disco Music — Donna Summer, Bee Gees, Earth, Wind & Fire — sob globos espelhados, luzes de baixo e muita fumaça artificial. Entrar não era para qualquer um. A peça mais importante da noite não era o DJ, mas o chefe da portaria. Ele conhecia de cabeça os rostos e sobrenomes da Vitória, da Graça e da Barra. Corda de veludo na porta, aceno de cabeça para os da casa e barra seca para quem não tinha o sobrenome certo. O ritual era quase sagrado: esquenta no Porto da Barra ou na sorveteria A Cubana, a noite na pista e, de madrugada, o cachorro-quente dos carrinhos estacionados na avenida. Qualquer artista, modelo ou ator que passasse por Salvador acabava esticando a madrugada nos camarotes da Le Zodiaque. Quem viveu aquelas noites hoje em dia reclama que, na Bahia, dinheiro que trocou de mão e sobrenome não tem mais a mesma valia.
Penha de Calígula
A Praia da Penha, na Ilha de Itaparica, era o ápice do refúgio de veraneio da altíssima sociedade baiana. Ter casa ali não era apenas status. Era declaração de poder. Empresários da construção, grandes médicos e as famílias tradicionais da Vitória e do Corredor da Vitória disputavam terreno naquela faixa de areia isolada do turismo de massa. As mansões tinham projetos imponentes, helipontos privados e píeres onde as lanchas de luxo ficavam ancoradas o ano inteiro. A Penha funcionava como a extensão litorânea do Baby Beef. O mesmo poder que se reunia no almoço de domingo em Salvador se isolava ali em janeiro. As noites eram de festas privadas que reuniam artistas, nomes em ascensão do Axé e celebridades nacionais trazidas por políticos e donos de bloco. Famílias como a Odebrecht e a OAS faziam parte do cenário. Magistrados, desembargadores e cirurgiões renomados completavam o condomínio invisível que frequentava a charmosa Igreja de Nossa Senhora da Penha. E, como em todo paraíso controlado, havia os encontros reservados. Histórias de casos extraconjugais que, décadas depois, originaram algumas personalidades de extremo engajamento nas redes sociais, pessoas que cresceram sem saber exatamente de onde vinha o sobrenome e o conforto. Algumas areias da Penha ainda guardam o eco de lanchas que chegavam de madrugada e de portas que se fechavam com discrição.
A Juíza e o Empreiteiro Granfino
Nos bastidores da elite baiana dos anos dourados, algumas histórias começavam no fórum e terminavam nas redes elitistas soteropolitanas. Um empreiteiro granfino, dos que frequentavam as mansões de veraneio e os almoços de poder, encontrou pela primeira vez uma juíza como parte processual. Evoluiu para encontros casuais nos bailes carnavalescos do Preto e Branco, no elitizado Clube Bahiano de Tênis. O que era disputa judicial virou, com o tempo, aproximação. Depois, relacionamento, com encontros constantes na casa da Penha. E, por fim, união conjugal. A transição de posições processuais para casal não passou despercebida nos círculos da época. Em uma sociedade onde os mesmos nomes se cruzavam nas salas de audiência, nas festas da ilha e nas mesas de domingo, a fronteira entre o jurídico e o pessoal costumava ser mais fina do que se admitia em público. Anos depois, a história ainda circula em voz baixa entre quem viveu aquele período: a juíza e o empreiteiro acabaram misturando os papeis do processo e no final a pizza foi servida ao gosto da casa.

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