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Jovens: amigo é família?

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Uma crítica à superficialidade das relações modernas e o que isso significa para o conceito de família  |   Bnews - Divulgação Foto: Arquivo pessoal / Ruy João

Publicado em 19/01/2026, às 21h44   Ruy João



A sociedade atravessa um período de metamorfose conceitual: valores outrora sólidos agora se moldam a realidades completamente distintas do passado. Nesse cenário de mudanças, inúmeros jovens, nas redes sociais, vivem proclamando que seus amigos são sua “família” – um fenômeno linguístico que suscita uma pergunta inquietante: no que se transforma a família quando os laços de sangue cedem lugar a conexões escolhidas a dedo? Não se trata de mero capricho vocabular; é sintoma de uma erosão profunda, um eco distante de estruturas que outrora definiram a própria tessitura social.

Historicamente, a família não era apenas um agrupamento afetivo, mas uma instituição quase sagrada. Nas tradições judaico-cristãs, por exemplo, vemos no Antigo Testamento a família como microcosmo da ordem divina – Abraão figura como patriarca, Sara como guardiã do lar, e os filhos como herdeiros de uma linhagem destinada a perpetuar-se além do indivíduo. Avançando para a Idade Média ocidental, sob influência da Igreja, a família se assemelhava a uma pirâmide de autoridade: o pai ocupava o topo como provedor e juiz moral, a mãe era a educadora e elo de coesão, e os filhos, aprendizes submissos dentro de um pacto hierárquico claro.

Pequenos rituais cotidianos ilustravam essa ordem: não se admitia que crianças se sentassem à mesa sem vestir uma camisa decente, pois até o ato de compartilhar a refeição exigia respeito ao espaço familiar; dirigir-se aos pais ou avós sem o tratamento “senhor” ou “senhora” era inadmissível, uma afronta à deferência devida aos mais velhos. Tais formalidades não eram arbitrárias – eram fios tecendo uma tapeçaria de estabilidade social, na qual o respeito pelos anciãos assegurava a transmissão de valores, histórias e sabedoria acumulada de geração em geração. Em suma, a família constituía um escudo contra as incertezas do mundo, um contrato vitalício de lealdade mútua em que o “eu” se dissolvia no “nós” coletivo.

Contudo, observe-se o progressivo esvaziamento dessa essência familiar nos dias atuais. Em lares modernos, o eco de risadas infantis e conversas ao pé da mesa foi abafado pelo zumbido onipresente de notificações e telas luminosas. Qual dos leitores nunca viu uma mesa de jantar onde jovens - e até adultos - sequer conversam e o centro das atenções são as telas?!!! Pilares antes inabaláveis agora desmoronam como castelos de areia diante da maré digital. Jovens, moldados por uma cultura de imediatismo e autoexpressão, passaram a descartar a antiga hierarquia doméstica como uma relíquia opressora que não cabe mais em seu mundo. O pronome de tratamento “senhor” virou peça de museu linguístico; o respeito quase reverencial pelos mais velhos foi substituído por memes irônicos sobre “boomers”, numa inversão em que os antigos detentores de autoridade se tornam alvo de escárnio bem-humorado.

Nas escolas e ruas, desenha-se uma geração que valoriza mais a igualdade horizontal – todos amigos, todos “parças” – do que a verticalidade tradicional. Essa mudança traz, por um lado, ares de liberdade e espontaneidade às relações, mas, por outro, deixa um vácuo difícil de ignorar. Por quê? Talvez porque a família, outrora centro gravitacional da vida social, foi relegada à periferia numa sociedade que cultua o ter em detrimento do ser. Ao priorizarmos conquistas materiais e individuais sobre vínculos comunitários, desmontamos o altar onde a família se colocava como base de tudo.

A resposta pode estar também no estilo de vida que os pais têm levado nas últimas décadas. Homens e mulheres, hoje, imersos em carreiras vorazes, transformaram-se em verdadeiros malabaristas entre trabalho e família. Em busca de realização profissional e financeira – muitas vezes por necessidade e não mera ambição – pais e mães dedicam suas melhores horas ao emprego, competindo em um teatro corporativo onde sucesso é medido em promoções, “likes” virtuais e saldo bancário.

A mãe, antes vista quase exclusivamente como guardiã do lar, agora equilibra planilhas, prazos e reuniões, sem abdicar da pressão social de ser também a “mãe perfeita” para os filhos e marido. O pai, tradicional provedor, reparte seus dias entre metas de desempenho e breves aparições no jantar em família, frequentemente com os olhos presos ao e-mail do trabalho. Não por escolha leviana, mas por imposição de uma cultura que glorifica produtividade e consumo acima de tudo, muitos lares se tornaram espaços de coabitação efêmera, onde cada membro está presente fisicamente por algumas horas, porém com a mente a mil quilômetros de distância. Nesse ritmo frenético, os valores se inverteram: possuir bens, ostentar viagens e sucesso passa a ter mais prestígio do que estar presente, dialogar e construir um legado de afetos.

E os filhos, como ficam nesse turbilhão? Muitos tornam-se órfãos emocionais de pais vivos – crianças e jovens cercados de aparelhos eletrônicos, mas carentes do convívio significativo com pai e mãe. Sem a orientação e atenção constantes que outrora vinham dos mais velhos, acabam crescendo sob a tutela de babás digitais: smartphones, redes sociais, streams infinitos de vídeos e influenciadores. Aprendem valores e comportamentos pelo feed, enquanto em casa a interação se reduz a breves saudações ou perguntas protocolares sobre tarefas escolares.

Falta o diálogo olho no olho, o aconchego de um conselho espontâneo ou mesmo a segurança de um limite imposto com amor. Dizer não aos filhos virou pecado capital!!! Com sede de pertencimento e conexão genuína, os jovens buscam em outro lugar aquilo que lhes falta no lar: uma família alternativa que os acolha sem julgamentos.

Eis, então, que surge o fenômeno contemporâneo: amigos elevados à categoria de “família”. Nas redes sociais, multiplicam-se as postagens com legendas do tipo “família”, “família escolhida”, “família sempre”, etc, acompanhadas de fotos de grupos de amigos sorridentes, geralmente em momentos de festas com bebidas alcoolicas ou até mesmo, mais recentemente, acompanhando o hype, nos momentos de atividades físicas, abraçados como se fossem clãs modernos.

À primeira vista, é tocante e legítimo – celebra-se alí a fraternidade voluntária, a ideia de que família pode ser também aquela que escolhemos por afinidade e não apenas a ditada pelo sangue. Afinal, quem nunca sentiu por um amigo tão próximo um carinho fraternal? Quem nunca foi acolhido por uma roda de amigos em momentos difíceis, sentindo-se em casa fora de casa? Há algo de belo e salutar nessa ampliação do conceito: rompe barreiras rígidas e diz que laços de afeto sincero podem ser tão fortes quanto os de parentesco.

Mas paremos para uma reflexão crítica, para não mitigarmos ainda mais o senso familiar: ser família difere radicalmente de ser amigo, por mais querido e íntimo que este seja. A família, no seu sentido clássico, é um laço (quase) inquebrantável, forjado no sangue, com compromissos de vida em comum e temperado pelo dever intrínseco de cuidado recíproco, assim como as famílias socioafetivas.

Pais sacrificam noites de sono junto a leitos de filhos doentes; mães abdicam de sonhos pessoais pelo bem dos rebentos; irmãos dividem não apenas sorrisos, mas também as responsabilidades de sustentar uns aos outros nas crises, e até heranças e fardos emocionais quando os progenitores se vão. Não por acaso, nosso ordenamento jurídico impõe deveres recíprocos entre familiares – a Constituição brasileira determina que os pais têm a obrigação de assistir, criar e educar os filhos menores, ao passo que os filhos maiores devem amparar os pais na velhice e na doença. Esses deveres legais nada mais são que o reflexo formal de um entendimento social milenar: família é um vínculo que obriga em sentido profundo, que demanda renúncia e persistência mesmo diante das tempestades da existência.

Amigos, por outro lado, são laços de escolha, alianças livres baseadas em afinidades que podem ser – admitamos – mutáveis. Um amigo nos acompanha porque quer, não porque uma estrutura familiar ou legal assim o exige. E essa liberdade, que é justamente a beleza da amizade, é também sua vulnerabilidade: afinidades podem esfriar, caminhos tomam rumos diferentes. Um amigo de infância pode se afastar num estalar de dedos com uma mudança de cidade, um novo relacionamento ou mesmo por causa de um desentendimento banal. Não há jugo legal ou obrigação social que o force a permanecer presente. Amizade genuína pode, sim, sobreviver a muita coisa – e muitos de nós temos amigos que são “da vida toda”. Ainda assim, em geral, a amizade carece da cola institucional e incondicional que a família tem. Enquanto a família (ainda que conflituosa) persiste como raiz profunda – você sempre será filho de seus pais, irmão de seus irmãos, goste ou não – a permanência do amigo ao seu lado depende fundamentalmente de uma continuidade de interesses, de afeto e de disponibilidade mútua no presente.

Equacionar amigos a familiares pode não ser inofensivo – corre-se o risco de diluir responsabilidades e expectativas, seja de amigos, seja dos familiares. Se amigos viram “família” no discurso cotidiano, o que sobra para os laços efetivamente familiares? Corre-se o perigo de reduzir os vínculos de parentesco a um contrato rescindível, onde o afeto é quase totalmente condicional ao prazer e à conveniência do momento, como se pai, mãe, irmãos ou avós fossem substituíveis por “qualquer um que me trate bem agora”. Ora, família de verdade não é um simples grupo de afinidade temporária; é, por definição, um compromisso para além das conveniências imediatas.

É claro que esta transmutação do conceito de família não surgiu do vácuo. Podemos – e talvez devamos – atribuir parte da culpa ao modelo de sociedade em que vivemos, que sufoca os vínculos tradicionais lentamente. Uma sociedade que, como mencionado, transforma pais em máquinas de performance e filhos em coadjuvantes solitários. Mulheres lutaram (e ainda lutam) por igualdade de espaço no mercado de trabalho, vitória necessária por justiça, mas que trouxe consigo um plus: acumulam jornadas duplas ou triplas, tentando ser excelentes profissionais, mães, esposas, tudo ao mesmo tempo. Homens, por sua vez, ainda carregam o peso de um arquétipo do provedor, agora exacerbado pela cultura do consumismo – não basta sustentar a família, é preciso exibirsucesso. Ambos os gêneros se veem presos numa engrenagem que cobra caro: tempo que poderia ser dedicado aos filhos, aos almoços de domingo, às conversas longas sobre a vida, acaba sendo penhorado em prol de prazos, projetos e horas extras.

Assim, os alicerces do lar racham, não por falta de amor dos pais, mas por falta de horas no dia e energia no corpo. E a sociedade rasa, pautada no imediatismo, aplaude essa inversão de prioridades como se fosse progresso, enquanto sutilmente mina a base familiar.

Em meio a esse turbilhão, não surpreende que valores se deturpem e adaptem. Como dito, o ter sobrepôs-se ao ser. Valoriza-se mais as bolsas (Hermès, Chanel, Louis Vuitton, Dior, Prada, etc), os relógios (Patek Philippe, Audemars Piguet, Vacheron Constantin, Richard Mille, Hublot, Rolex, Jacob & Co., Chopard, etc), as bebidas, as viagens, os bens e serviços utilizados pelos multimilionários, em detrimento dos valores familiares. Conexões virtuais substituem reuniões de família; stories no Instagram tomam o lugar de álbuns de fotografia passados de geração em geração. Jovens que se sentem desamparados – mesmo inconscientemente – por pais ocupados unem-se a outros jovens igualmente sedentos de pertencimento, formando novas “famílias” afetivas onde compartilham memes, gírias, aventuras efêmeras, porém não necessariamente as raízes profundas de uma história comum. É uma espécie de pacto de sobrevivência emocional: “nossos pais não estão tão presentes, então sejamos família uns dos outros”.

Tudo isso nos provoca a questionar, por mais incômodo que seja: estamos enriquecendo o conceito de família ao expandi-lo indiscriminadamente, ou esvaziando-o ao ponto da irrelevância? Será que chamar um círculo de amigos de “família” é um ato de amor inclusivo – ou será um paliativo para a solidão gerada por uma cultura que coloca o indivíduo acima do coletivo? Que valoriza mais o “ter” do que o “ser”? É possível que estejamos confundindo laços sociais importantes, atribuindo rótulos familiares a relações que, embora valiosas, não carregam o mesmo peso histórico, jurídico e emocional.

Reflita, caro amigo e amiga, sobre a sua própria vida: quem é a sua família de verdade? Aqueles com quem você divide o DNA e a história, ou os que você escolhe diariamente no feed das redes sociais? Talvez a resposta resida em algum ponto de equilíbrio entre esses extremos – um lembrete de que amigos podem ser irmãos de alma, mas que os laços familiares genuínos ainda importam e muito. Esta inquietação não busca entregar respostas fáceis, e sim sacudir nossas convicções adormecidas. Pois, se amigo virou “família”, o que impede que, amanhã, a própria família se torne tão somente um instrumento para o “ter”.

Ruy João Ribeiro

Advogado.

Classificação Indicativa: Livre

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