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Mente e Corpo: A Sabotagem Silenciosa e a Busca pela “Desrepressão Selvagem”

Arquivo pessoal
A mente é um vasto arquivo de convenções sociais, traumas e expectativas alheias  |   Bnews - Divulgação Arquivo pessoal

Publicado em 14/12/2025, às 10h48   Marcelo Cerqueira



Em uma de minhas viagens à Europa, na Itália fazia um sol incrível e um céu de brigadeiro. Luiz adorava fazer refeições ao ar livre, assim saímos de carro para procurar onde fazer o nosso piquenique. Viajando de automóvel pela região entre a Suíça e a Itália, paramos em um lago belíssimo e azulíssimo. Com o sol quente e aquele calor, não imaginei que a água era geladíssima e, ao tirar toda a roupa e pular, por pouco não tive uma hipotermia, devido à queda brusca da temperatura corporal.
Essa longa introdução serve para exemplificar que a experiência humana é marcada por uma dualidade intrínseca entre mente e corpo. Ao escrever, pode-se ter a impressão de que são entidades distintas, mas não o são. Frequentemente, essa relação se torna uma batalha, onde a mente, carregada de imperativos sociais, medos e "vozes" inconscientes, sabota a plena vivência do corpo. A mente age como um sabotador, jogando "cascas de banana" nas experiências. O portal Bnews divulgou um vídeo de uma turista que "detestou" Porto Seguro; aparentemente, o corpo estava na cidade, mas a mente em outro lugar. Essa tensão desencadeia um profundo anseio por desrepressão, uma liberdade que, em suas manifestações mais intensas, beira o radical.


A mente é um vasto arquivo de convenções sociais, traumas e expectativas alheias. Essas "vozes" internas – imperativos da educação, da cultura, da moral – ecoam no inconsciente, impondo o que "devemos" sentir e fazer. Elas criam barreiras invisíveis que impedem a entrega total às sensações do corpo e ao momento presente.
A sabotagem mental manifesta-se como autocensura, reprimindo, sobretudo, os desejos por medo do julgamento. Pode ser vista como anestesia emocional, criando muros contra sentimentos intensos, ou como fuga da realidade, desqualificando experiências vividas. O corpo está presente, mas a mente, distante, impede a conexão. Esse conflito é particularmente agudo em domínios de alta vulnerabilidade, como a vivência sexual ou a busca por adrenalina. A mente só baixa a guarda com muita adrenalina, permitindo que o corpo possa atuar.

A busca por esportes radicais, como saltos de paraquedas, mergulhos profundos, escaladas, supostamente é uma forma visceral de silenciar a mente controladora. Em situações de risco extremo, não há espaço para as "vozes" internas ou a análise crítica. O corpo assume o comando, operando por instinto em um estado de fluxo intenso.


Nesses momentos, a mente se rende à urgência do corpo, à sua inteligência instintiva. É uma “desrepressão selvagem” forçada, onde o indivíduo se sente intensamente vivo, livre das amarras do pensamento constante. Essa experiência-limite reconecta o ser à sua essência física e à sua carne de forma crua e autêntica.
De modo similar aos esportes radicais, a sexualidade oferece um terreno fértil para a “desrepressão selvagem” e a entrega total ao corpo. O desejo sexual, uma força primal, é frequentemente contido por camadas de pudor, culpa e expectativas culturais. A mente, com suas projeções e proibições, pode transformar o prazer em ansiedade.


A busca por "desrepressão selvagem" na sexualidade não significa ausência de limites, mas a superação das barreiras mentais autoimpostas. Ela se manifesta na exploração de fantasias, na quebra de tabus pessoais ou na busca por uma intensidade que exige total entrega, silenciando a mente para que o corpo domine. É um caminho para a autenticidade e a vulnerabilidade, onde as defesas mentais são abaixadas.


Essa busca por liberdade na vivência sexual e corporal é um impulso humano universal, não restrito a nenhum grupo específico. Cada indivíduo encontra suas próprias formas de desafiar as "vozes" internas e de se permitir sentir plenamente.
A "guerra" entre mente e corpo é, na verdade, um anseio por integração. Acredito que a verdadeira liberdade não reside em anular a mente, mas em harmonizá-la com o corpo. Por exemplo, há pessoas que conversam com partes do seu corpo. Ao reconhecer e negociar com as "vozes" do inconsciente, transformamos a mente de sabotadora em aliada e, melhor ainda, em ferramenta de cura. Isso permite uma vivência corporal rica, autêntica e profundamente satisfatória, onde mente e corpo dançam em sincronia, celebrando a existência sem amarras.

Classificação Indicativa: Livre

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