Artigo
Publicado em 23/12/2025, às 13h44 - Atualizado às 19h31 André Gordilho*
Vivemos a era das soluções rápidas. Para cada dor, cansaço ou desconforto emocional, parece existir uma pílula pronta para resolver. O problema é que, na prática, toda medicação carrega riscos, inclusive aquelas prescritas corretamente. Quando esse uso acontece sem critério, sem acompanhamento especializado ou baseado em promessas milagrosas, o que deveria tratar passa a adoecer.
É importante dizer com clareza: não existe medicamento isento de efeitos colaterais. Qualquer substância que interfira no funcionamento do organismo exige metabolização pelo fígado, excreção pelos rins e adaptação de sistemas delicados como o cardiovascular, o gastrointestinal e o neurológico. O corpo não funciona em compartimentos isolados. Cada comprimido ingerido gera uma reação em cadeia.
O problema se agrava quando há medicalização excessiva ou indiscriminada. Pessoas que utilizam remédios indicados por profissionais que não são especialistas na área, ou que seguem fórmulas “personalizadas” vendidas como soluções universais, muitas vezes desconhecem o impacto cumulativo dessas substâncias. Interações medicamentosas, sobrecarga hepática, alterações hormonais, dependência química e efeitos neuropsiquiátricos são riscos reais e frequentes.
A promessa de “fórmulas maravilhosas”, especialmente aquelas que prometem energia, emagrecimento, foco ou felicidade imediata, merece atenção crítica. Não existe tratamento sério baseado em atalhos. A medicina responsável se constrói com diagnóstico adequado, avaliação individual e acompanhamento contínuo. Fora disso, o risco deixa de ser exceção e passa a ser regra.
Na psiquiatria, esse cuidado é ainda mais essencial. O cérebro é um órgão sensível, complexo, e intervenções mal conduzidas podem gerar efeitos opostos aos desejados: piora dos sintomas, instabilidade emocional e perda de qualidade de vida. Tratar sem compreender o quadro completo é como ajustar um relógio delicado com ferramentas inadequadas.
Medicação não é vilã. Mas o uso sem critério, sem especialidade e sem ciência é.
Cuidar da saúde exige responsabilidade, não promessas fáceis, porque o preço do improviso quase sempre é pago pelo próprio corpo.
**André Gordilho é médico psiquiatra
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do BNEWS. O conteúdo é de inteira responsabilidade do autor.
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