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O avanço silencioso do câncer de mama entre mulheres jovens

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Publicado em 13/09/2025, às 07h26 - Atualizado às 07h31   Marília Sampaio, médica oncologista



O câncer de mama continua sendo o tipo de câncer mais comum entre mulheres no mundo. De acordo com os dados mais recentes, foram registrados 2,3 milhões de novos casos globalmente. No Brasil, a estimativa é de 73,6 mil casos anuais, sendo que, somente na Bahia, mais de 4.200 mulheres recebem o diagnóstico todos os anos.

O que mais me preocupa como oncologista, no entanto, é a mudança no perfil etário. Cada vez mais mulheres com menos de 50 anos estão sendo diagnosticadas com a doença. No Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, por exemplo, a proporção de casos em mulheres abaixo dos 40 anos saltou de 7,9% para 21,8%, acompanhada também pelo aumento da mortalidade nessa faixa etária.

Por que isso está acontecendo?

Essa é uma pergunta que ainda não tem uma resposta única. O que sabemos é que o fenômeno também vem sendo observado em outros países e parece ter causas múltiplas.

Entre os fatores de risco, destaco os hábitos de vida atuais, como dietas ricas em gorduras saturadas, ultraprocessados e açúcar, além do consumo de álcool, tabagismo e sedentarismo. Os aspectos reprodutivos e hormonais também têm peso importante: menstruação precoce, gravidez após os 30 anos, ausência de filhos e menor tempo de amamentação aumentam a vulnerabilidade ao câncer de mama.

Outro ponto relevante é a predisposição genética. Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 elevam significativamente o risco de desenvolver a doença em idade precoce. Infelizmente, no Brasil, ainda não temos acesso amplo a testes genéticos, o que dificulta a identificação de mulheres que necessitariam de acompanhamento mais rigoroso.

O desafio do diagnóstico e do tratamento

O câncer de mama em mulheres jovens tende a ter um prognóstico mais desafiador. E isso ocorre por dois motivos principais:

  • Diagnóstico tardio: em muitos casos, os sintomas iniciais não são valorizados, sendo atribuídos a outras condições benignas. A situação é agravada pelo fato de que a mamografia só é recomendada de forma rotineira a partir dos 40 anos na rede privada e dos 50 anos no SUS.
  • Tumores mais agressivos: em mulheres jovens, os subtipos biológicos tendem ser mais agressivos, com crescimento mais rápido e  maior risco de recidiva.

O que podemos fazer?

Apesar de todos esses desafios, é importante reforçar que parte do risco pode ser reduzida. Manter o peso corporal adequado, adotar uma alimentação rica em frutas, verduras e grãos, praticar atividade física regular, evitar o consumo de álcool e não fumar são medidas que fazem diferença.

Mulheres com histórico familiar da doença precisam conversar com seus médicos sobre estratégias de prevenção e rastreamento precoce. Esse acompanhamento individualizado pode salvar vidas.

Uma questão global

O aumento do câncer de mama em mulheres jovens é um fenômeno global, reflexo das mudanças sociais, ambientais e comportamentais das últimas décadas. A ciência ainda busca compreender com profundidade os mecanismos que explicam essa tendência, mas uma certeza já temos: informação, prevenção e diagnóstico precoce são nossas principais armas contra a doença.

Como médica oncologista, acredito que a conscientização é parte essencial dessa luta. O câncer de mama, quando descoberto em estágio inicial, a chance de cura é elevada. Precisamos falar mais sobre o câncer de mama em mulheres jovens para que possamos enfrentá-lo de forma cada vez mais antecipada e eficaz.

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