Artigo
Este artigo surge da reflexão sobre a ação de um jovem preto registrada por um fotógrafo e amplamente discutida nas redes. A imagem revela a subjetividade da nossa existência e o desespero da juventude. Convido todos a refletirem sobre a juventude, instituições educativas democráticas e a criminalidade. Os jovens das periferias brasileiras chegam aos 18 anos com seus corpos em plena efervescência.
Os hormônios estão à flor da pele, redes sociais exibem corpos esculturais, tênis de grife, vidas de prazer e consumo. Ele sente o desejo, que não espera pelo salário mínimo. Ele deseja namorar, dar presentes, vestir-se bem, pertencer a algo. Porém, a estrutura social o aprisiona numa realidade fragilizada, sem educação formal, sem trabalho, sem perspectiva, restando-lhe apenas o abismo entre o querer e o poder.
Nesse abismo, o crime organizado aparece. Não precisa recrutar, apenas se apresenta. Oferece renda imediata, pertencimento, masculinidade, a única forma de realizar desejos que a sociedade proporciona a outros e lhe nega. O resultado é conhecido: cadeia ou cemitério. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, jovem, preta, periférica. Não é coincidência. É a biopolítica e a necropolítica em ação.
O território é a chave. As instituições educativas democráticas, com sua presença nacional, são capazes de ocupar esse vazio antes que o crime o faça. Não se trata de militarizar a periferia, mas de educar e capacitar os jovens republicanos. Oferecer-lhes o que o crime oferece: renda, pertencimento, status, um corpo ativo, prazeres e mais, a dignidade e o futuro que só uma educação abrangente pode proporcionar.
A população masculina entre 15 e 24 anos representa 17 milhões de brasileiros (IBGE), e o triste paradoxo é que jovens de classe média e alta têm mais acesso a educação, saúde e informação, em prejuízo justamente daqueles que mais precisam das instituições educativas para reconstruir suas vidas. O jovem vulnerável, sem escolaridade, muitas vezes é excluído do processo educacional formal, enquanto o crime o aceita de braços abertos. O Estado pune quem ele mesmo abandonou!
As instituições educativas oferecem cursos técnicos e profissionalizantes em eletricidade, mecânica, construção civil, carpintaria, pintura – profissões que a sociedade muitas vezes desvaloriza. Minhas memórias envolvem relatos de jovens que aprenderam profissões por meio de escolas técnicas. Falta alcance, falta vontade política, falta uma lei que transforme essa potência em política de Estado.
Caro leitor, voltamos ao início, ao fundo do fim! O jovem negro de Salvador da foto viral poderia ser um acrobata de renome, mas sua realidade é outra. "Riquinho", jovem preto, porte atlético, beleza, habilidade – sem formação, mas com um talento imenso. Capaz de sincronizar o passo de uma corrida, controlar respiração, movimentos precisos para subtrair um cordão de ouro sem que a vítima percebesse.
Que potencial! Que coordenação! Que inteligência cinestésica! Lamentavelmente, esse jovem não foi acolhido por instituições educativas. Foi recrutado pelo crime. O Estado perdeu um potencial cidadão de bem, e o sistema penal ganhou mais um corpo preto.
A salvação dos jovens brasileiros por meio de uma educação republicana não é utopia, é a única política de segurança pública que funciona a longo prazo. Cada jovem capacitado é um potencial que o crime não absorveu. Cada profissão aprendida é uma família que não será desintegrada pelo sistema penal. Cada cidadão educado é uma vida poupada.
Não é uma questão de favor, é uma questão de reparação histórica. O Estado que abandonou, negou educação e fechou os olhos para o abismo, tem o dever de estender a mão. As instituições democráticas de ensino são essa mão.
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