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O Diabo Veste Prada 2: Valeu a pena esperar?

Divulgação/20th Century Fox
Sequência revisita os personagens do longa que marcou uma geração há 20 anos  |   Bnews - Divulgação Divulgação/20th Century Fox
Antonio Dilson Neto

por Antonio Dilson Neto

Publicado em 28/04/2026, às 18h20 - Atualizado às 18h28



No distante ano de 2006, uma geração inteira se apaixonou pelo jornalismo e pela moda ao assistir O Diabo Veste Prada. Muitos levaram o encanto a sério: cursaram faculdade, enfrentaram redações e até conseguiram encontrar um lugar nos grandes publishers.

Passadas duas décadas, a vida real dessa mesma geração guarda pouco — ou quase nada — do glamour da Runway. É esse cenário pouco otimista que serve como plano de fundo para O Diabo Veste Prada 2, que estreia nesta quinta-feira (30). 

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O BNews já assistiu à sequência e traz a crítica em primeira mão.

A trama também avança vinte anos. A poderosa Miranda Priestly e seu cargo vitalício viraram itens de museu, e a urgência do clique atropela as perspectivas ensinadas nas faculdades de jornalismo mundo afora.

Andy, agora uma jornalista respeitada, enfrenta o desmantelamento do departamento onde trabalhava, com uma demissão em massa via mensagem de texto. Após viralizar nas redes sociais com um discurso sobre o valor dos profissionais de comunicação, ela é contratada por Irv Ravitz (Tibor Feldman), presidente do grupo Elias-Clarke para uma posição estratégica na Runway.

O desafio? Trabalhar novamente com Miranda e salvá-la de um escândalo que ameaça a reputação da revista e a carreira de ambas.

Sequências costumam ser terreno pantanoso no cinema. Muitas vezes, perde-se a magia original em prol de um ritmo estranho ou, pior, o roteiro se amarra tanto ao passado que entrega apenas uma reprise desgastada. Felizmente, O Diabo Veste Prada 2 foge ao estigma. É uma continuação que toma seu próprio rumo sem perder os acenos e “easter eggs” ao primeiro filme, como o creme de milho de Andy, o suéter azul-celeste e o temido segundo andar da casa de Miranda.

O filme aposta e ganha na nostalgia, superando a barreira de vinte anos de expectativa ao trazer de volta o elenco lendário composto por Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci.

Crepúsculo dos Deuses

Diferente do primeiro filme, aqui vemos como até figuras mais ilustres e poderosas podem ter as vidas sacudidas por crises de mercado e humores dos empresários que comandam o mundo.

Há quem possa dizer que segundo filme frustra por estar muito mais próximo da vida comum do que o primeiro, quando observamos a vida dos que habitam muitos andares acima. Na sequência, o que vemos é uma radiografia do que atravessa muitas profissões e, especialmente, o jornalismo: demissões, desvalorização profissional e a repetição do argumento "a IA consegue fazer isso melhor", esvaziando todo esforço e repertório artístico necessários a qualquer experiência humana que preze pelo mínimo de qualidade.

Um dos principais exemplos do crepúsculo que também chegou ao topo da Runway é o momento em que Miranda é informada sobre um corte de gastos na Elias-Clarke e descobre que não terá mais carros particulares e precisará passar a pegar Uber e viajar de classe econômica — sem direito a champagne.

Mas não espere ver uma Miranda cabisbaixa e derrotada. A personalidade ácida e contundente da executiva permanece e Meryl dá (como sempre) um show de atuação ao mostrar a ex-toda-poderosa forçando-se a “engolir sapos” para não cair ainda mais nas mãos dos haters.

O Diabo veste Prada, Dior e Louis Vuitton

Em 20 anos, o mundo mudou várias vezes. Entre essas mudanças, está o olhar que as grandes Maisons direcionaram ao filme. Há 20 anos, as grifes temiam a ira de Anna Wintour (diretora da Vogue em quem Miranda é inspirada) e fugiam do set, cedendo pouquíssimas peças.

A figurinista do primeiro filme, Patricia Field, chegou a mencionar que usou itens comprados na 25 de março para compor os looks de Miranda; e a Prada, marca que dá nome ao filme, cedeu apenas uma bolsa de seu acervo - a que vemos no braço de Miranda, em sua primeira aparição.

Agora, o cenário é outro: Molly Rogers, figurinista do segundo filme, contou que recebeu uma série de ligações das marcas disponibilizando catálogos inteiros para o elenco.

Se em 2006 fomos apresentados ao lado sombrio do mundo editorial, em 2026 a crítica se aprofunda e ganha novas nuances, mais corpo e uma contundência necessária ao analisar a crise que assola o jornalismo contemporâneo.

Com um roteiro mais maduro que o primeiro, o longa preserva o timing de comédia que fez o original funcionar. E nada está anacrônico ou desatualizado: até as falas "canceláveis" de Miranda são perfeitamente reconhecíveis para qualquer pessoa viva e que tenha redes sociais em 2026.

O Diabo Veste Prada 2 não é apenas um presente para fãs nostálgicos ou um passeio nos bastidores da moda; é um olhar (chiquérrimo) sobre a sobrevivência do talento em um mundo dominado por algoritmos.

Classificação Indicativa: Livre

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