Artigo
A areia de Copacabana já não era mais chão; era um organismo vivo, pulsante e resiliente. Mesmo com o atraso de duas horas, que em qualquer outro contexto geraria impaciência, o que se viu foi uma entrega absoluta. Ninguém arredava o pé; ao contrário, um fluxo ininterrupto, um "rio de gente", brotava das transversais para desaguar no asfalto da Atlântica. Esse fenômeno culminou no maior público da trilogia de megaeventos gratuitos na orla, alcançando a marca de 2 milhões de espectadores, superando os recordes de Madonna em 2024 (1,6 milhão) e Lady Gaga em 2025 (1,8 milhão).
O termo "Eclipse Reverso" sugere que, no momento em que deveria haver sombra, houve uma explosão de visibilidade. Para a comunidade LGBTQIAPN+, esse "reverso" representa a ocupação do espaço público, convertendo a noite, historicamente um refúgio perigoso para corpos dissidentes, em um território de brilho e segurança. A exigência do público por essa estética é tamanha que o prefeito do Rio foi "advertido" carinhosamente por uma foliã que, segurando suas mãos, decretou: "Nada de homens, prefeito. Queremos divas pop! Risque o Coldplay e o Justin Bieber da lista. Se você conseguir a Britney Spears, vira o imperador do planeta".
No campo da engenharia do espetáculo, o show da "Loba" trouxe complexidades distintas. Embora tecnicamente mais bato que o de Lady Gaga (que trouxe uma estrutura fechada e sem convidados), o show de Shakira foi uma celebração de rede. Enquanto Gaga apostou no espetáculo "gringo" e Madonnna no marco histórico de sua trajetória, Shakira investiu na diplomacia cultural. Houve falhas que apenas o olhar apurado conseguia enxergar, uma delas, relativa é claro a música de abertura deveria ser “Estoy Aquí” 1995, eu ouvia essa canção em uma boate de Acapulco, ganhei de um admirador local o disco “Pies Descalzos” e vi como as gays adoravam. O palco de Copa é um desafio para qualquer ícone pop e principalmente se não houver longos ensaios com os convidados. Houve tropeços de sincronia vocais que até a energia de Ivete Sangalo e o suporte de Anitta tentaram equilibrar, evidenciando que dividir o palco com a grandiosidade brasileira exige um rigor que nem sempre a dinâmica de uma tour mundial permite.

Esteticamente, o público de 2026 marcou um distanciamento da cultura camp e extravagante de Lady Gaga. Houve um salto de maturidade, colando-se à aura de sofisticação política de Madonna. A presença massiva de fã-clubes da Rainha do Pop sinalizou uma ponte geracional: um público que valoriza a construção do ícone e a força da mulher que domina o tempo. Shakira foi cirúrgica nessa conexão; seu figurino nacionalista em verde e amarelo não foi apenas estética, foi um abraço na identidade do país, unindo desde a militância LGBT até famílias e crianças.
O legado de Shakira no Brasil reafirma a música latina e caribenha como nossa "língua franca". Ao dançar com influencers gays e validar corpos dissidentes no "santuário" de Copacabana, ela provou que a arte, aliada à tecnologia e ao respeito às raízes, é a ferramenta mais poderosa de diplomacia universal. Shakira não apenas cantou para dois milhões de vozes; ela revalidou um ciclo que redesenhou o uso do espaço público no Rio de (maravilha) Janeiro.
*Marcelo Cerqueira, gestor municipal, escritor e ativista da diversidade
Classificação Indicativa: Livre
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