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Obesidade: uma pandemia

Arquivo pessoal

A obesidade é uma pandemia por representar uma ameaça à saúde pública em escala global

Publicado em 03/08/2022, às 10h00    Arquivo pessoal    Sérgio Braga*

Desde 2020, quando se fala em pandemia, certamente a associação mais óbvia é com o novo coronavírus. No entanto, existem outras pandemias acontecendo ao mesmo tempo, e uma delas é ignorada por muita gente: a obesidade.

Embora possa parecer estranho à primeira vista, a obesidade é uma pandemia por representar uma ameaça à saúde pública em escala global, num problema que se torna mais desafiador ano após ano.

Neste texto, vamos entender por que a obesidade é considerada uma pandemia por autoridades de saúde de todo o globo e o que isso representa para a saúde pública.

A obesidade como doença

Em primeiro lugar, pode surgir estranheza ao considerar a obesidade como uma pandemia devido ao fato de que pandemias têm a ver com doenças (ou, mais precisamente, doenças amplamente disseminadas em escala global).

Aqui vem a primeira constatação importante: a obesidade é uma doença. É considerada uma doença crônica não transmissível (DCNT) e tende a acarretar outras condições, sejam respiratórias, articulares, cardiovasculares, diabetes, hipertensão e até mesmo chances maiores de desenvolver câncer.

A obesidade é considerada doença pela Associação Médica Americana desde 2013 e posteriormente também pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e autoridades de saúde de todo o mundo.

Não é para menos: a enorme quantidade de riscos associados à obesidade a tornam um problema gravíssimo para a saúde do paciente. Mesmo que a obesidade não tenha efeitos agudos e sintomas perceptíveis no começo, a piora na qualidade de vida e a redução da expectativa de vida são inevitáveis a médio e longo prazo.

Uma pandemia contínua

A gravidade da obesidade, associada ao seu crescimento em grande escala em todo o planeta nas últimas décadas, levou a situação ao status de pandemia, forma como muitas autoridades de saúde internacionais já consideram o problema.

Os números da obesidade em todo o mundo ajudam a confirmar essa classificação. Segundo a OMS, o percentual de pessoas com obesidade quase triplicou entre 1975 e 2016, chegando a 13% dos adultos, além de outros 39% que têm sobrepeso. Entre as crianças e adolescentes, são 380 milhões obesos ou com sobrepeso em todo o mundo.

No Brasil, os números também preocupam. Em treze anos, segundo a pesquisa Vigitel, o percentual de pessoas com obesidade saiu de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019, um aumento de impressionantes 72%. A obesidade infantil também preocupa no Brasil, com quase 13% das crianças entre 5 e 9 anos sendo obesas.

O crescimento alarmante da obesidade em escala global se deve, em grande parte, ao enorme e contínuo aumento no consumo de alimentos ultraprocessados que ocorre desde os anos 80 em todo o mundo.

Alimentos ultraprocessados são aqueles em que se encontra nenhuma ou quase nenhuma quantidade de alimento integral, como salgadinhos, embutidos, refrigerantes e macarrão instantâneo, por exemplo. São alimentos normalmente pobres em nutrientes e ricos em açúcares, gorduras e sódio.

Naturalmente, como a obesidade é uma doença multifatorial, relacionada a questões biológicas, culturais, psicossociais, socioeconômicas, entre muitas outras, há outras causas contribuintes para o agravamento da pandemia em questão.

Um bom exemplo de outra causa contribuinte é o crescimento global da ansiedade e da depressão, consideradas por muitos como “males do século” e características do mundo moderno. Depressão e ansiedade podem ser fatores contribuintes para a obesidade, dificultando a adoção de hábitos saudáveis e piorando a qualidade de vida.

Para a Organização Mundial de Gastroenterologia, que é uma das vozes internacionais mais ativas na consideração da obesidade como pandemia, o impacto da obesidade no desenvolvimento de comorbidades e redução da expectativa de vida é tão devastador quanto qualquer pandemia de doença infecciosa.

Não se trata de uma brincadeira: a pandemia de obesidade é marcada pela mortalidade. Novamente segundo a OMS, por ano, pelo menos 2,8 milhões de pessoas morrem em consequência da obesidade ou sobrepeso, através de uma das inúmeras comorbidades e complicações que o excesso de gordura corporal pode trazer.

Combatendo a obesidade

Para combater a pandemia de obesidade, são fundamentais ações direcionadas tanto do poder público quanto das instituições de saúde e dos próprios pacientes.

Como qualquer doença, o combate à obesidade passa pelo entendimento de suas causas. Considerando que a obesidade é uma doença multifatorial, cada caso pode estar ligado a diferentes causas, o que exige uma atenção especial no entendimento individual de cada situação.

O tratamento da obesidade deve, em qualquer situação, buscar as causas do problema em cada paciente e tratá-lo a partir daí, numa abordagem multidisciplinar contínua que consiga, realmente, trazer resultados duradouros.

O tratamento multidisciplinar, contínuo e individualizado de cada caso de obesidade, aliado à conscientização sobre as causas e perigos da doença, é a chave para que o mundo consiga, enfim, combater essa pandemia.

Obesity: another ongoing pandemic - The Lancet Gastroenterology & Hepatology

Alimentos ultraprocessados são apontados como causa da epidemia de obesidade - Notícia - UNA-SUS (unasus.gov.br)

*Dr. Sérgio Braga é diretor médico da Clínica da Obesidade

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