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Quando a infância é roubada: do alerta de Felca às pequenas misses e casos que chocaram o mundo

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Da denúncia que explodiu na internet aos casos que revelam como a adultização infantil atravessa décadas e como o ambiente digital acelerou o problema  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa/Freepik
Juliana Barbosa

por Juliana Barbosa

juliana.barbosa@bnews.com.br

Publicado em 13/08/2025, às 06h00



O vídeo começou como mais um upload no YouTube, mas virou combustível para um debate que o Brasil insiste em empurrar para depois. Na última quarta-feira (6), o youtuber e influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca, publicou quase 50 minutos de denúncia sobre um fenômeno tão comum quanto perigoso: a adultização, quando crianças e adolescentes são expostos a comportamentos, estéticas e contextos próprios da vida adulta antes do tempo.

O conteúdo, que já acumula milhões de visualizações, não poupou nomes. Felca apontou influenciadores e questionou a omissão das plataformas digitais. “Eu não estou falando de uma ou outra postagem isolada. Estou falando de um padrão de comportamento que acontece há anos, diante de milhões de seguidores, e que envolve crianças e adolescentes”, disse.

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Entre os exemplos, citou Hytalo Santos, que grava vídeos com adolescentes em formatos semelhantes a reality shows, chamando meninas de “filhas” e meninos de “genros,  em meio a beijos, “conchinha” e festas com álcool. Mencionou também Kamyla Santos, que apareceu nos vídeos aos 12 anos e, aos 17, já publicava conteúdo sensual. “Ela se tornou mais produto do que humano”, resumiu.

Outro nome foi o de Caroliny Dreher, exposta a danças eróticas desde os 11 anos e, mais tarde, à comercialização de conteúdo em plataformas +18 — parte do qual, segundo Felca, teria circulado em fóruns ligados à pedofilia.

O impacto foi grande e imediato: dois dias depois, os perfis de Hytalo e Kamyla saíram do ar no Instagram no Brasil. O Ministério Público da Paraíba confirmou que já investigava Hytalo desde 2024 por suspeita de exploração de menores. Felca revelou ter processado mais de 200 pessoas por difamação e propôs encerrar as ações mediante doação a instituições que apoiam crianças.

Adultização: o que é e por que preocupa

O termo não é novo. A adultização infantil se dá quando meninas e meninos são incentivados ou condicionados a adotar comportamentos, responsabilidades ou imagens que pertencem ao universo adulto, seja pelo uso de roupas e maquiagem, pela sexualização precoce, por pressões estéticas ou pela participação em contextos voltados a um público que não é o deles.

Para a psicóloga Ariane Felício, doutora e mestre em Educação pela UFBA, “a infância é uma das etapas mais importantes para a estruturação psíquica, pois é a base das nossas percepções e construções pessoais, emocionais e sociais”.

 Crianças não são, como ela reforça, “mini adultos”. Exigir delas reações e posturas típicas da vida adulta é impor uma pressão que pode gerar desde distorções morais até a naturalização de violências — incluindo a exploração sexual — além de problemas de autopercepção e de relação com o outro.

Quando a exposição virtual vira risco real

JonBenét Ramsey, seis anos, era uma estrela dos concursos de beleza infantil nos Estados Unidos quando foi encontrada morta no porão de casa, no Colorado, em 1996. A autópsia apontou asfixia e traumatismo craniano e identificou lesões compatíveis com possível abuso sexual. O crime nunca foi solucionado, mas se tornou símbolo da vulnerabilidade de crianças expostas a ambientes que reforçam padrões adultos desde cedo.

No Brasil, a trajetória da cantora Melody também alimenta esse debate. Aos oito anos, ela viralizou imitando artistas famosas. Logo vieram clipes com figurinos justos, maquiagem pesada e coreografias sensuais.

Em 2015, o Ministério Público de São Paulo começou a acompanhar o caso após denúncias de que o conteúdo não era adequado à idade. A família defendeu a liberdade artística, mas a polêmica cresceu, e, anos depois, a estética adulta continuava marcando sua imagem, acumulando críticas e milhões de seguidores. “Essas vivências acabam sendo naturalizadas; é a realidade que elas conhecem”, alerta Ariane.

Fora dos palcos e passarelas, o fenômeno também atingiu a indústria do entretenimento. Em 2020, o filme francês “Cuties” (Netflix) tentou criticar a sexualização precoce, mas acabou acusado de reforçar o problema. Em Hollywood, atrizes como Brooke Shields, Natalie Portman e, mais recentemente, Millie Bobby Brown, enfrentaram olhares e comentários sexualizados ainda na infância.

O peso dos números

As estatísticas deixam claro que, independentemente da causa, crianças e adolescentes são o grupo mais vulnerável a diversos tipos de violência, inclusive a sexual. Segundo o Ministério da Saúde, só em 2022 foram 62.091 notificações de violência sexual no Brasil, sendo que 73,8% das vítimas eram crianças ou adolescentes, e, destas, 87,7% eram meninas.

Entre 2021 e 2023, foram 164.199 casos de estupro ou estupro de vulnerável contra menores de 19 anos. Mais da metade ocorreram dentro de casa, cometidos por familiares ou pessoas próximas.

A adultização não é a origem exclusiva desses crimes, mas especialistas alertam que ela pode ampliar a exposição e fragilidade das vítimas, criando um ambiente mais propício para a exploração, sobretudo quando somada à falta de supervisão e proteção.

No meio digital, o chamado sharenting (quando pais publicam excessivamente fotos e vídeos dos filhos), expõe ainda mais: 83% das crianças brasileiras têm contato com dispositivos eletrônicos antes dos 2 anos, e 13% já possuem perfis próprios nas redes.

 Digital: o acelerador de um problema antigo

As redes sociais ampliam e aceleram o alcance da adultização. “Quando os próprios responsáveis criam e publicam o conteúdo, a violação de privacidade fica mais naturalizada e mais difícil de combater”, afirma Ariane.

 Ela defende que a orientação mais eficaz é clara: evitar a exposição pública de crianças. Quando não for possível, impor limites: não compartilhar momentos íntimos ou constrangedores, restringir o acesso e supervisionar todo o uso de telas. E vai além: “Precisamos de regulamentação das plataformas, sobretudo para restringir a monetização de conteúdos com crianças e adolescentes, independentemente do teor”.

Um problema estrutural

O vídeo de Felca não é apenas uma denúncia viral, é o retrato de uma questão estrutural, que atravessa décadas, ganha novas formas no ambiente digital e encontra terreno fértil em uma cultura que, ao mesmo tempo, explora e consome a infância. Casos como JonBenét, Melody e tantos outros mostram que a linha entre talento e exploração é mais tênue do que muitos querem admitir.

 E, enquanto o debate se restringir às redes, sem desdobramentos concretos, a infância continuará sendo negociada — curtida a curtida, clique a clique.

Classificação Indicativa: Livre

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