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Entenda o que é adultização, fenômeno denunciado por Felca que viralizou nas redes sociais

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Adultização é o processo que prejudica o desenvolvimento infantil, levando a consequências emocionais e psicológicas graves, segundo especialistas.  |   Bnews - Divulgação Reprodução/Shutterstock
Juliana Barbosa

por Juliana Barbosa

juliana.barbosa@bnews.com.br

Publicado em 10/08/2025, às 18h20



O youtuber e influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, viralizou nas redes sociais após publicar, na última quarta-feira (6), um vídeo de quase 50 minutos denunciando o fenômeno da adultização — a exposição precoce de crianças e adolescentes a comportamentos e conteúdos típicos do universo adulto.

O conteúdo, que já acumula milhões de visualizações, cita nomes de influenciadores famosos, e aponta a responsabilidade de plataformas digitais na propagação desse tipo de material. 

 No vídeo, embasado por dados e estatísticas, Felca dispara: “Eu não estou falando de uma ou outra postagem isolada. Estou falando de um padrão de comportamento que acontece há anos, diante de milhões de seguidores, e que envolve crianças e adolescentes.”

Ele acusa produtores de conteúdo de lucrar com a exposição de menores, destacando:

“É dinheiro feito às custas da exposição de menores, e isso não é entretenimento, é exploração.” 

Casos citados 

  Entre os exemplos, Felca cita o influenciador Hytalo Santos, que produz vídeos com adolescentes em um formato semelhante a reality shows, se referindo a meninas como “filhas” e meninos como “genros”, em contextos com beijos, conchinha e festas com álcool. O youtuber também menciona Kamyla Santos, que começou a aparecer nos vídeos aos 12 anos e, aos 17, já publicava conteúdos de cunho sensual. Sobre ela, Felca comentou: “Ela se tornou mais produto do que humano.” 

  Outro caso citado foi o de Caroliny Dreher, que teria sido exposta a situações sexualizadas desde os 11 anos, com danças eróticas e até comercialização de conteúdo em plataformas +18, parte do qual teria circulado em fóruns ligados à pedofilia. 

Repercussão e investigações 

  Dois dias após a publicação do vídeo, os perfis de Hytalo e Kamyla foram retirados do ar no Instagram no Brasil. O Ministério Público da Paraíba informou que já havia, desde 2024, um inquérito criminal em andamento contra Hytalo por suspeita de exploração de menores, conduzido por promotores de Bayeux e João Pessoa. O órgão não solicitou a retirada dos perfis, mas confirmou que as investigações seguem. 

 Felca também revelou ter processado mais de 200 pessoas por difamação. Ele propôs encerrar os processos mediante doação de R$ 250 a instituições indicadas e a publicação de pedidos públicos de desculpas. 

O que é adultização 

  Adultização é o processo pelo qual crianças e adolescentes são expostos, antes do tempo, a comportamentos, responsabilidades e expectativas típicas do mundo adulto, para os quais ainda não têm maturidade física, emocional ou psicológica.

A psicóloga Marina Lima explica o conceito e faz um alerta: "As crianças são expostas a situações e comportamentos que não condizem com as fases do desenvolvimento, gerando consequências psicológicas e emocionais negativas. Cada fase do desenvolvimento tem sua importância, colaborando na constituição do sujeito como um todo, em saúde física e emocional."

Isso pode acontecer de várias formas: 

  • Padrões de beleza e consumo: uso de maquiagem, salto alto ou apelo estético adulto, frequente em mídias e campanhas de moda infantil 
  • Responsabilidades inapropriadas: assumir cuidados familiares ou obrigações financeiras precocemente 
  • Exposição midiática e sexualização: presença em conteúdo online com linguagem e situações sugestivas, além da participação em dinâmicas como sharenting (expressão em inglês que consiste na junção das palavras share(compartilhar) e parenting(parentalidade), define o hábito de compartilhar, na internet, vídeos e fotos do dia a dia dos filhos, de forma exagerada), com fins de monetização. 

Caso JonBenét Ramsey

JonBenét Ramsey, de apenas seis anos, era uma participante ativa e premiada em concursos de beleza infantil — títulos como America’s Royale Miss, Little Miss Colorado e National Tiny Miss Beauty ilustravam seu envolvimento precoce no mundo dos “pequenos concursos de misses”. Em 1996, a norte-americana ficou conhecida mundialmente não apenas pelos títulos conquistados, mas pelo trágico desfecho de sua vida.

No dia 26 de dezembro, ela foi encontrada morta no porão de casa, no Colorado, um dia após seus pais denunciarem um suposto sequestro. A autópsia apontou asfixia e traumatismo craniano como causas da morte e registrou lesões compatíveis com possível abuso sexual. 

Por mais que não existissem evidências de um estupro no corpo da criança, a teoria não foi descartada, já que foram encontrados indícios de uma lesão vaginal. 

O crime, nunca solucionado, abre debate sobre a hiper exposição precoce de crianças nesses concursos e como a pressão estética e a sexualização, características da adultização, podem colocá-las em situações de risco.

Quais os impactos? 

  A psicóloga destaca  ainda que a adultização prejudica o desenvolvimento infantil, com riscos como ansiedade, depressão, baixa autoestima, distorção da autoimagem, dificuldade de relacionamento e perda da criatividade pela ausência do brincar. Exposições impróprias podem ainda aumentar a vulnerabilidade à exploração e ao abuso sexual.

Números alarmantes no país 

  A questão ganha ainda mais urgência diante dos dados oficiais. Em 2024, o Ministério dos Direitos Humanos recebeu mais de 657 mil denúncias de violências contra crianças e adolescentes — um aumento de 22,6% em relação a 2023. Isso equivale a, em média, 33 denúncias por hora somente pelo canal Disque 100. E dentre essas, as denúncias de abuso e exploração sexual infantil cresceram significativamente: o Brasil saltou do 27º para o 5º lugar entre 51 países, considerando esse tipo de crime online. 

Somente pelo Disque 100 em 2021, foram reportados mais de 102 mil casos, sabendo-se que apenas 10% dos casos chegam a ser denunciados — o que indica uma subnotificação massiva. Entre 2022 e 2024, foram quase 290 mil relatos só pelos canais oficiais, reafirmando o avanço dos registros criminais. 

O que está sendo feito? 

 O Ministério dos Direitos Humanos (MDHC) tem atuado junto à sociedade civil para fortalecer a proteção de menores, como na Semana Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual (realizada em maio), dedicada ao combate ao abuso e com ações intersetoriais e políticas públicas. 

Como denunciar casos de exploração infantil 

  • Disque 100 – Canal do Ministério dos Direitos Humanos para denúncias de violações contra crianças e adolescentes. Atende 24h por dia, ligação gratuita, sigilosa e pode ser anônima.
  • Aplicativo Proteja Brasil – Disponível para Android e iOS.
  • Delegacias e Conselhos Tutelares – É possível registrar boletim de ocorrência ou acionar o Conselho Tutelar local.

Classificação Indicativa: Livre

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