Artigo
Publicado em 18/01/2026, às 12h59 Por Marcelo Cerqueira*
Eu costumo dizer que, se não fosse baiano, queria ser pernambucano. Amo aquele sotaque marcante e vocabulário único. Nasci na Bahia, em Salvador, a cidade "preta, preta, pretinha" do acarajé, de ritmos que embalam, de uma fala que é pura melodia e de um gingado da "disgraça". Muito além da musicalidade que parece ser inerente aos sotaques, existe um universo de expressões que se colam à língua, se transformam e, claro, desafiam a norma culta para criar sua própria lógica.
São as "palavras-chiclete" que, com uma fluidez incrível, saem da boca dos baianos, revelando a riqueza linguística e as nuances de uma cultura viva em constante transformação. Mergulhemos nesse mar de sons e significados, onde a língua é um organismo que pulsa ao ritmo do pagodão.
Imaginem a cena: final de tarde na Avenida Contorno, altura da Gamboa, um ponto de Salvador que respira história e, infelizmente, por vezes, onde a tensão urbana surge. Era dia da Festa do Bonfim, a cidade envolvida em celebração e fé. Um vídeo circulou nos grupos que mostrava um homem dirigindo em direção ao Comércio, falava com alguém no celular. De repente, o som seco e aterrorizante de um tiroteio irrompe, quebrando a serenidade festiva do entardecer. A reação? Enquanto engata a ré e acelera rápido para escapar da zona de perigo "soltando azeite nas canadas", ele repete, quase em um mantra de espanto e alerta, para o interlocutor do outro lado da linha, enquanto retorna em sentido contrário: "Viado, tiroteio, viado, viado...!"
Aqui, a palavra "viado" desfila linda por um tapete vermelho de (re)significação. Ela não surge como uma ofensa homofóbica, tampouco como a inocente designação do animal. Nesse contexto, "viado" se transforma em uma interjeição cultural, evocando o estado de choque, surpresa e a urgência urgentíssima. É um neologismo informal, um desvio semântico do "veado" original, que ganha novo status no léxico cotidiano. É como se a palavra se esvaziasse de seu veneno preconceituoso para se tornar um mero marcador de intensidade na comunicação urgente.
E é justamente essa apropriação, que arranca o termo de seu sentido negativo para um uso quase neutro de espanto ou familiaridade, que acende uma luz de esperança. Se a palavra pode ser desarmada no uso coloquial, perdendo sua carga ofensiva e se transformando em um simples "cara" ou "meu", quem sabe essa fluidez linguística não pavimenta o caminho para uma maior empatia e aceitação dos "viados raiz"? Aqueles que, infelizmente na vida real, ainda convivem com o preconceito e a violência por sua orientação sexual. A língua, ao se reinventar, talvez ofereça um modo para reinventarmos também nossas atitudes e nossa capacidade de empatia e acolhimento. É um lembrete de que as palavras têm o poder não apenas de ferir, mas também de curar e de abrir novas perspectivas de entendimento.
É realmente surpreendente essa nossa economia sonora de indignação. Caro leitor do Bnews, você já notou que, na Bahia, muitas vezes se ouve "disgraça" em vez de "desgraça"? Ou "misera" no lugar de "miséria"? Não se trata de um erro de português, mas sim de uma engenharia sonora, uma marca registrada do sotaque e da oralidade local. Essa supressão da vogal átona no início ou no meio da palavra não é um ato de preguiça, mas de pura expressividade. A substituição dessas vogais na pronúncia, além de permitir à língua tocar várias vezes o céu da boca e o ar sair livremente, confere um prazer especial à palavra.
Ela confere uma sonoridade mais ríspida, mais direta, quase um rugido que ecoa a indignação, a surpresa ou até mesmo a resignação de forma mais crua e autêntica. A palavra expelida, com menos formalidade fonética, recebe uma força gigante; uma diferença que as formas padrão, como "desgraça" ou "miséria", parecem não alcançar no contexto da fala rápida e apaixonada. É a gramática popular ditando suas próprias regras, onde a fonética e a expressividade se sobrepõem à norma culta, tornando a exclamação ainda mais visceral e imbuída de baianidade. É a língua se adaptando para se sentir mais, para soar mais verdadeiro.
Essas palavras-chiclete são muito mais do que meros desvios da curva culta. Elas são a alma do sotaque baiano, a prova irrefutável de que a língua é um organismo vivo, que se molda, se reinventa e se adapta às necessidades de comunicação, expressão e identidade de um povo. Elas carregam em si o humor, a indignação, o carinho, o espanto e a resiliência de uma Bahia que se expressa de um jeito único, muitas vezes subvertendo as regras para criar uma autenticidade singular.
*Ativista LGB+, gestor público, autor do trailer Ardilosa: a vida secreta de uma travesti serial killer, 2025, disponível nas plataformas virtuais
Classificação Indicativa: Livre
som poderoso
Som perfeito
Smartwatch top
Qualidade JBL
iPhone barato