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Após 30 anos consecutivos, Ricardo Chaves está fora do Carnaval de Salvador

Imagem Após 30 anos consecutivos, Ricardo Chaves está fora do Carnaval de Salvador

Artista está indignado com a forma que a festa é produzida

Publicado em 15/01/2013, às 08h23        Adelia Felix (Twitter: @adelia_felix)


Um dos ícones do carnaval de Salvador, o cantor e compositor Ricardo Chaves, dono de grandes sucessos como "É o bicho" e "Balanço Do Trem", vai ficar de fora da festa depois de marcar por pelo menos 30 anos a maior festa de rua do mundo e o motivo seria a falta de agremiação para desfilar.

"Esse modelo que é feito o carnaval de Salvador está errado. Em 30 anos ininterruptamente é o primeiro que fico de fora. Vi toda essa festa crescer e o rumo que tomou não condiz. Tenho esperança que com a troca de prefeitura, algo seja feito para resgatar a festa", desabafou o cantor ao Bocão News.

De acordo com o cantor, que desfilava com o bloco Bicho, no Circuito Dodô (Barra/Ondina)
, o modelo que a folita soteropolitana é feita dá privilégios para uns e menospreza outros, "é um modelo que dar privilégios par quem aluga vagas". Ao Bocão News, Chaves disse que pelos tradicionais critérios, os blocos mais antigos devem desfilar primeiro.

"Política pública é fundamental. Eu não posso desfilar no carnaval de Salvador porque a vaga que eu alugava era de um "proprietário" que faleceu. É um absurdo. Se hoje eu ganhasse na loteria e quisesse colocar um trio desligado na avenida em qualquer horário para desfilar eu poderia. Esse ano eu não pude desfilar porque colocaram para muito tarde e há dificuldade para conseguir apoio, patrocínio", disse.

Apesar de ficar fora da festa soteropolitana, Ricardo Chaves prometeu agitar em outros lugares do Brasil. "Não estarei no carnaval de Salvador, mas vou tocar em outras cidades do Nordeste, em cima do trio, difundindo o carnaval com muito orgulho".


Sem medo de expressar seu ponto de vista, em janeiro do ano passado, Ricardo Chaves, escreveu uma espécie de carta/desabafo sobre a situação atual do carnaval de Salvador. Confira o relato na íntegra.


O Foco

Salvador já começa a se transformar para abrigar mais um Carnaval. Está se aproximando a tão propagada “maior festa popular do planeta”. A partir de agora, o soteropolitano sente sua proximidade, quando percebe que já surgem na paisagem as estruturas que abrigarão os camarotes. Nesta época, também, a mídia abre espaço para as notícias relacionadas ao evento. Nem todas elas são favoráveis. Nos últimos anos, o número de matérias ressaltando algum ponto negativo é cada vez maior. A abordagem das críticas, ultimamente, tem sido quase sempre a mesma: o lucro de alguns grupos em uma festa que deveria ser popular – como se esse fosse o único motivo que faz com que, aos olhos de alguns, a nossa festa perca cada vez mais o apelo popular.

Se a coisa fosse tão simples assim, seria fácil reverter o quadro em que se encontra hoje o Carnaval de Salvador. Em um sistema capitalista, a obtenção de lucro é o resultado de competência. Não é de hoje que pessoas e grupos lucram com a festa. Isso é normal e saudável. No meu entender, o maior problema que enfrentamos é o foco.

Mais uma vez, matérias com críticas ao nosso Carnaval devem começar a ser veiculadas. Quero convidar as pessoas envolvidas com a festa, principalmente os artistas, a repensarem o nosso foco. Alguns poderão me chamar de saudosista, mas acho que o maior problema de hoje é que uma grande parcela de nós vem direcionando o seu foco para a mídia. Tudo hoje é pensado visando atrair a atenção das tvs, dos sites, revistas e jornais, sem se importar com quem, em um passado recente, era o maior objeto da nossa conquista: o folião que sai na rua, seja em bloco ou na pipoca. Houve um tempo onde o nosso sucesso era medido pelo grau de satisfação proporcionado às pessoas que acompanhavam o nosso trio. Nos dias de hoje, o mais importante é o tempo de exposição na mídia. E tome-lhe invenção de parafernálias cenográficas nos trios, figurinos cada vez mais chamativos, músicas de efeito imediato. Coisas que, sem dúvida, geram conteúdo midiático, mas não necessariamente atingem quem deveria ser o foco. Essa é uma visão bem pessoal, fruto de longos anos participando da festa e observando seus movimentos.

Claro que a mídia é fundamental na carreira de um artista, mas sua busca não pode ditar as regras de uma festa que nasceu e cresceu sendo de rua. Que os patrocinadores buscam retorno em tempo de exposição é um fato, mas é também um fato que cada ano está mais difícil atraí-los. Quem está envolvido no evento sabe muito bem que nem sempre foi assim. Muito se fala da falta de renovação musical dos artistas. Como é possível renovar, se não existe espaço para isso? É cada vez mais difícil um artista novo conseguir firmar uma carreira. O que vem surgindo, na maioria das vezes, são criações de empresários, que lançam produtos que aparecem e somem, antes mesmo do público poder saber se são bons ou não. É a indústria das “revelações do Carnaval”.

Bons tempos aqueles em que se vibrava pelo sucesso de alguém que despontava e conquistava espaço através de trabalho. Tempos onde as músicas eram executadas em rádios sem as tabelas de preço. Em que o que se tocava nas programações eram realmente as músicas preferidas do público.

Foi-se o tempo em que um grupo se reunia para sair nas ruas seguindo um artista que admirava. Como fazer isso nos dias de hoje, onde é preciso pagar caro por uma vaga para um bloco poder desfilar nas ruas? Atualmente parece que surgiu, em algumas pessoas, um tipo de prazer mórbido de decretar o fim da carreira de artistas, não importando se são novos ou antigos. Não sei em quê o Carnaval de Salvador ganha com a decretação da “morte” de artistas – alguns antes mesmo de terem a oportunidade de mostrar sua proposta musical. É uma sensação de que se torce contra. A quem interessa isso? Não seria melhor mudar o foco e apontar caminhos, ao invés de simplesmente “endemoniar” os que têm competência para lucrar com a festa? Por que não viabilizar meios para que novos artistas surjam e que os antigos sejam respeitados?

Sei que muitos logo irão dizer que estou me manifestando por não ter, no momento, o destaque na mídia que já tive em outros tempos. Antes de saírem atirando, peço que tenham pensamentos maiores do que a simples crítica a um artista que participa do Carnaval de Salvador há 30 anos ininterruptamente. O meu trabalho já está marcado na história da vida de muita gente que, ao longo desses anos – iniciados no Pinel, passando pelo Frenesi, Eva, Crocodilo, Coruja e, atualmente, no Bicho – viveram comigo as alegrias que um Carnaval pode proporcionar.

Fiz o meu primeiro Carnaval em 1982. Naquela época, as críticas eram focadas na violência. Os órgãos de segurança pública se especializaram e hoje sabem como ninguém atuar para garantir uma festa relativamente segura. Com o passar dos anos, o foco passou a ser a tensão gerada pela bagunça na organização da saída dos blocos. Surgiu a fila, baseada no critério – até agora imutável – segundo o qual antiguidade é posto. Depois as críticas se voltaram para o suposto sufocamento das entidades culturais pelos “inimigos capitalistas”, representados pelos blocos de trio que visavam somente o lucro; e, de lá pra cá, com o surgimento e crescimento dos camarotes, essa tem sido a tônica para justificar o tão falado declínio da indústria oriunda do Carnaval de Salvador.

Que o Carnaval está passando por um momento que exige reflexão, é inegável. Faço parte de uma geração de artistas que, trinta anos atrás, comandou a transformação da nossa festa e ajudou a torná-la mundialmente famosa. A música produzida pela minha geração, naquela época, mudou o foco (olha ele novamente) da indústria fonográfica brasileira e atraiu, para o nosso Carnaval, os olhos de patrocinadores que jamais imaginavam investir em uma festa com as características da produzida por nós.

Ao longo dessas três décadas, nunca deixei de dar a minha opinião sobre as coisas ligadas à nossa festa. Fosse elogiando ou criticando, sempre me manifestei visando a sua melhoria. Ao final do Carnaval passado, escrevi um texto intitulado “Silêncio Conveniente”, onde convidava meus colegas artistas a refletirem sobre o nosso papel na festa. Alí, eu me referi especificamente ao item “engarrafamento”, que foi, em 2011, um fator de transtornos muito grandes. Se esse meu convite serviu para alguma coisa, só saberemos a partir do momento em que o primeiro trio desfilar em fevereiro de 2012.

Minha intenção, com esse texto, é tentar fazer com que se pense o Carnaval de Salvador de uma maneira construtiva e que ele volte a ter o foco no folião, que não pode deixar de ser o maior beneficiado da festa. Como aceitar que todos corram atrás da mídia, em Ondina – e que não se permita que as “vagas” deixadas no Centro sejam ocupadas? Como ficar calado vendo alguns decretarem o declínio do circuito da avenida, sem que nada seja feito? Esse ano, algumas atrações tocarão em seus trios para a pipoca no circuito do Centro. Isso é muito bom e espero que novas vagas sejam disponibilizadas com esse objetivo. Nós, artistas, devemos retomar o comando da situação e reestabelecer a linha direta com quem está nas ruas. Foram eles que consagraram as nossas músicas, que nos tornaram artistas de massa. Graças a eles, fomos capazes de atrair para a nossa festa de rua os olhos da indústria fonográfica, da mídia nacional, das agências de propaganda e até das “celebridades” em busca de alguns minutos de fama.

Só conseguimos isso porque a nossa música tinha a nossa verdade. Conseguimos isso, porque íamos para as ruas tocar para o povo dançar, e não para buscar tempo de aparição em tv ou fotos em matérias de jornais. Isso era decorrência do que fazíamos nas ruas. Esse é o meu sentimento. Roubando um verso de Caetano, acho que “alguma coisa está fora da ordem”. Muita coisa no mundo está “de pernas para o ar”. A nossa festa também. Espero que Salvador volte a ter o Carnaval de rua que mereceu tanto destaque mundial.

No próximo, eu estarei lá, mais uma vez, participando e continuando a ser trilha sonora de momentos felizes na vida de pessoas.


Nota originalmente postada às 16h do dia 14

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