Cidades
O Hospital de Brotas, em Salvador, recebeu autorização para atuar no processo de doação de órgãos e tecidos para transplantes. A unidade passou a contar com uma equipe multiprofissional habilitada para identificar potenciais doadores, acompanhar casos de morte encefálica e orientar familiares. A medida amplia a rede de doação na Bahia, onde um único doador, quando atende aos critérios médicos, pode ajudar a salvar até oito vidas.
A habilitação da Equipe de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (e-DOT) ocorreu em setembro deste ano, após um processo acompanhado pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), por meio da Coordenação do Sistema Estadual de Transplantes (Coset).
O Hospital de Brotas é o primeiro hospital privado a atender exclusivamente beneficiários do Sistema de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos Estaduais (Planserv), que reúne mais de 500 mil usuários. A unidade é administrada pelo Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS).
A equipe habilitada é formada por médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. Os profissionais acompanham desde a identificação de possíveis doadores até o contato com as centrais de transplantes e o acolhimento das famílias.
O trabalho também envolve o acompanhamento do diagnóstico de morte encefálica e a orientação dos familiares sobre as etapas necessárias para autorizar a doação.
O coordenador da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Brotas, Leonardo Azevedo, que integra a equipe, destacou a importância da habilitação.
“Para mim, é uma imensa satisfação fazer parte da equipe de doação de órgãos e tecidos do hospital. Acredito que o transplante envolve um ato de generosidade e é fundamental que a gente incorpore, na cultura do nosso hospital, essa prática, para que ela se torne cada vez mais difundida no nosso Estado”, afirma.
A enfermeira Gilca Cirne, também integrante da equipe, explicou como os profissionais de enfermagem participam do processo.
“O enfermeiro pode participar de todas as etapas do processo de doação de órgãos e tecidos. Entre suas atribuições estão a identificação de potenciais doadores, a realização das notificações aos órgãos responsáveis pela regulação de transplantes, o acompanhamento do processo de diagnóstico de morte encefálica e o acolhimento à família”, explica ela.
A profissional ressaltou que o contato com os familiares exige sensibilidade diante da perda.
“O apoio emocional precisa respeitar o sofrimento do momento, as crenças, os valores e o tempo de cada família”, afirma.
O Brasil registrou 31.745 transplantes de órgãos, córneas e tecidos em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde. O número representa um recorde histórico.
No mesmo período, foram contabilizados 4.335 doadores efetivos, conforme o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O rim foi o órgão sólido mais transplantado, com 6.697 procedimentos.
Apesar do recorde, a recusa das famílias ainda representa um obstáculo. Em 2025, 45% das entrevistas realizadas com familiares de potenciais doadores terminaram sem autorização para a doação.
A enfermeira-coordenadora de Educação Permanente da Coset/Sesab, Carolina Sodré, destacou a importância da habilitação de unidades hospitalares para ampliar as oportunidades de doação.
“Podemos assegurar que o Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo. É um programa ético, seguro e transparente, que realiza transplantes de coração, fígado, rim, medula, córnea, ossos e pele. Porém, para que haja transplante, precisa haver doação. Por isso, as unidades hospitalares devem estar habilitadas para oferecer às famílias a oportunidade de doar e salvar vidas”, afirma a enfermeira Carolina Sodré.
No Brasil, a doação de órgãos e tecidos após a morte depende da autorização dos familiares, mesmo quando a pessoa manifestou em vida o desejo de ser doadora.
Uma das maneiras de registrar essa vontade é por meio da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), disponibilizada gratuitamente pelo Colégio Notarial do Brasil, em parceria com o Sistema Nacional de Transplantes.
O documento pode ser solicitado pela plataforma AEDO ou pelo sistema e-Notariado, mediante identificação e assinatura digital.
O registro formaliza o desejo de doar, mas não substitui a autorização da família.
Também é necessário passar por uma avaliação médica para determinar se a doação é possível. O procedimento considera o histórico clínico, as condições dos órgãos e tecidos e a existência de possíveis contraindicações.
Quando atende aos critérios médicos, um único paciente com diagnóstico de morte encefálica pode salvar ou ajudar até oito pessoas por meio da doação de órgãos e tecidos.
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