Cidades
por Leonardo Oliveira
Publicado em 25/03/2026, às 10h37
Pescadores e marisqueiras da comunidade de Nagé, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, voltaram a denunciar nesta terça-feira (24) os impactos da usina hidrelétrica de Pedra do Cavalo sobre a pesca artesanal na foz do rio Paraguaçu.
Em vídeo, representantes da Colônia Z7 afirmam que a liberação de água doce no estuário tem afetado diretamente a chamada “Santa Maré”, principal fonte de renda da região. Segundo eles, o fenômeno estaria matando mariscos e inviabilizando a atividade, deixando famílias inteiras sem sustento.
Enquanto a usina segue operando e gerando energia, os trabalhadores dizem enfrentar prejuízos diários. “O pescador sai para trabalhar e volta sem nada. E aí, quem paga os boletos?”, questiona um dos líderes do movimento, que também cobra uma resposta da Justiça sobre uma ação coletiva que, segundo a comunidade, já se arrasta há cerca de sete a oito anos.
Outro ponto de revolta é o atraso no pagamento do seguro-defeso — benefício pago a quem depende da pesca artesanal durante o período de proibição da atividade, conhecido como piracema. Para muitos, o valor funciona como uma espécie de “13º salário”.
A situação, segundo os relatos, tem se agravado. Em plena Sexta-feira Santa, período de maior demanda por pescado, a liberação de água teria intensificado os danos. “A fome dói. Tem pai e mãe que não conseguem levar nem o pão pra casa”, desabafa um morador.
Os depoimentos mostram o tamanho da crise. Uma das moradoras relata que tem quatro filhos e não consegue garantir o básico. Já a marisqueira Ana Lúcia Gomes Pereira diz que antes sustentava a família com o trabalho na maré, mas hoje encontra o cenário devastado.
“Não tem mais nada: sururu, ostra, tudo acabou. A gente vai pra maré e volta de mãos vazias”, afirma.
Outra trabalhadora, Maria Isidora Pereira, conta que saiu para catar marisco e voltou com apenas meio balde de ostra, insuficiente para alimentar a família.
Sem resposta concreta até agora, a comunidade cobra medidas urgentes e diz viver uma realidade cada vez mais dura, marcada pela falta de renda e insegurança alimentar.
A reportagem tenta contato com a administração da Usina Hidrelétrica da Pedra do Cavalo, que pertence à Votorantim Cimentos; com o Governo da Bahia e órgãos ambientais responsáveis pela área, incluindo Inema e ICMBio; e com o Governo Federal, por meio do Ministério da Pesca e Aquicultura, devido ao atraso no pagamento do seguro-defeso.
O que diz a Votorantim Cimentos
Em nota enviada ao BNews, a Votorantim Cimentos, responsável pela operação da Usina Hidrelétrica de Pedra do Cavalo afirmou que a barragem de Pedra do Cavalo foi construída pelo Governo do Estado da Bahia em 1985 com o objetivo de regularizar a vazão do Rio Paraguaçu e assegurar o abastecimento de água para a Região Metropolitana de Salvador, Feira de Santana e áreas da microrregião.
“A função prioritária da barragem, estabelecida pelo governo, é atuar no controle de cheias nos municípios localizados abaixo da barragem (“a jusante”), historicamente afetados por enchentes severas”, diz em nota.
Segundo a empresa, a operação do reservatório da Usina Hidrelétrica (UHE) Pedra do Cavalo é conduzida em conformidade com as regras e legislações específicas estabelecidas pelos órgãos reguladores, variando conforme os períodos de estiagem ou de precipitação intensa.
“Em razão do elevado volume de chuvas registrado na região e visando adequar a capacidade de espera do reservatório para o período úmido, foi realizada a abertura das comportas no dia 9 de março de 2026, conforme previamente comunicado por diversos meios de comunicação, inclusive carro de som. Durante os dias de chuva mais intensas, a operação da UHE Pedra do Cavalo atuou para manter a segurança da barragem, realizando o gerenciamento das comportas de forma gradual e controlada, liberando volumes compatíveis com as normas operativas”, explicou.
Além disso, segundo a Votorantim Cimentos, a ausência de enchentes ou transbordamentos, mesmo sob condições climáticas adversas, evidencia que a operação da UHE Pedra do Cavalo cumpriu a sua função prioritária, garantindo a segurança das comunidades.
“A abertura e o fechamento das comportas ocorre não por decisão interna da UHE Pedra do Cavalo, mas seguindo rigorosamente as regras definidas pelos órgãos reguladores”, finalizou.
Assim que obtivermos resposta dos demais citados, a publicação será atualizada.
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