Cidades

Samba baiano e o DNA do terreiro: Raízes afro-religiosas resistem entre expansão, apagamento e renovação musical

Acervo Iphan
Entenda como o samba baiano se transformou e se expandiu, incorporando novas influências ao longo do tempo  |   Bnews - Divulgação Acervo Iphan
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeira@bnews.com.br

Publicado em 02/12/2025, às 06h00



O samba guarda na sua origem uma herança viva das religiões de matriz africana. A forma original — o Samba de Roda — nasceu no Recôncavo Baiano, por volta de 1860, resultado da fusão das tradições musicais e religiosas trazidas pelos africanos escravizados — especialmente os povos do tronco banto.

E, mesmo diante das transformações culturais e da mercantilização do ritmo que espalhou o ritmo Brasil afora, muitos defendem que essas raízes estão longe de se apagar. Na verdade, a cada dia se afirmam com mais vigor. Para a produtora cultural, Renata Rodrigues, o samba não é apenas herança distante, mas sim memória da infância.

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Eu sempre ouvia samba desde pequena, desde muito nova, de criança mesmo, porque era um som predominante na minha casa, que através de meu pai, que é diretor do Ilê Aiyê, eu sempre ia para esses movimentos de samba. Nas praias, finais de semana, principalmente aos domingos, que em Salvador tinha uma cultura que hoje, inclusive, não se vê mais, os sambas que tinha nas barracas de praias de Salvador", lembrou a produtora.

Em 2004, o Samba de Roda do Recôncavo Baiano foi inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão do Iphan; em 2005, ganhou o título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco — legitimando sua importância para a cultura baiana, brasileira e mundial. 

Esse patrimônio é um legado vivo da diáspora africana: culto aos orixás e caboclos, rezas e festas nos terreiros. Renata resgata as rodas de samba nas praias, os encontros de domingo, os batuques, a música viva de comunidade — memórias que falam de resistência, ancestralidade e pertencimento. 

Não diria que houve um apagamento. Na verdade houve uma expansão do movimento. […] O samba hoje tem uma bandeira muito forte em todo o país e, mais especial, aqui em Salvador. O samba é parte da nossa cultura, da nossa ancestralidade. E precisamos preservar, resistir e manter. Com punhos fechados", frisou.
Samba
O samba é memória, espiritualidade, ancestralidade | Foto: Reprodução / Agência Brasil

O samba não é apenas ritmo

O samba é memória, espiritualidade, ancestralidade. De roda, terreiro e Recôncavo para Salvador: expansão, transição e registro Com o tempo, a cultura do samba se espalhou. Migrantes baianos levaram os sons, as danças e a fé para Salvador, para outras regiões do país, e o samba foi se transformando — incorporando novas influências, novas sonoridades, novos públicos. 

No percurso histórico, surgiram vertentes derivadas, que buscaram adaptar a tradição ao contexto urbano ou às festas populares. Entre elas está o Samba Junino, estilo que surgiu na década de 1970 em Salvador, estreitamente ligado às festas juninas, aos terreiros de candomblé e ao universo do samba de caboclo. 

Foto: Leto Carvalho / GovBA

O ritmo característico do Samba Junino — o Samba Duro — tem percussão acelerada, marcada por timbal, tamborim, surdo ou instrumentos típicos da música de terreiro, e uma cadência diferente da roda rural, mas mantendo a essência afro-brasileira. 

Em 2018, o Samba Junino foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Imaterial da capital baiana, com o decreto que o inscreveu no Livro de Registro Especial das Expressões Lúdicas e Artísticas de Salvador. 

Hoje, o samba baiano — na sua forma tradicional de roda, no samba duro/junino — segue vivo, praticado, reinventado, e transmitido para novas gerações por meio de festas, blocos, festivais e grupos culturais.

Para o músico, pesquisador e professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), Fabrício Mota, o samba continua como um fenômeno cultural marcado pela persistência da matriz africana. Ele destaca que o samba baiano — herdeiro direto do Recôncavo — passou por um processo de expansão.

A matriz sonora, a matriz filosófica da expressão do samba é sim o universo cultural das civilizações africanas […]. São essas células que formam a raiz principal da sonoridade que a gente conhece como samba. [...] A gente tem visto hoje que essa raiz virou uma árvore imensa com galhos enormes e esses frutos se espalharam. Então a gente tem um reflorescimento. O samba tem se reflorestado na Bahia e em vários lugares do Brasil", afirmou o professor.

No entanto, Fabrício também alerta que esse processo de visibilidade e o crescimento convivem com o histórico de racismo, silenciamento cultural e invisibilidade da ancestralidade. Para ele, o crescimento do que hoje se chama "samba de caboclo" — muitas vezes nascido nas giras, nas rodas de terreiro — e seu trânsito para o palco, para a vida urbana, demonstra a força de uma tradição que nunca morreu.

Isso não tem impedido o samba de seguir sofrendo processos de silenciamento, de apagamento e sofrer uma violência racial absurda. Na Bahia, a gente percebe, sobretudo, o surgimento desses muitos grupos de samba de caboclo. A continuidade de experiências que acontecem no universo do religioso", destacou.


Já para a filha de santo Alexsandra, o samba baiano carrega em suas batidas, canto e dança "a história viva dos nossos ancestrais". Para ela, o samba não pode ser entendido apenas como festa ou ritmo — ele é reverência, memória, espiritualidade.

O samba baiano carrega o DNA do Candomblé e da Umbanda. As batidas, o canto e a dança são a história viva dos nossos ancestrais. No entanto, infelizmente a intolerância religiosa teve o crescimento no país e representa uma ameaça direta às expressões culturais ligadas às religiões de matriz africana", contou.

Classificação Indicativa: Livre

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