Cidades
O susto foi grande no Furdunço. No sábado (7), durante o desfile do Pagod’art no circuito Orlando Tapajós (Ondina-Barra), em Salvador, parte da frente do trio elétrico cedeu. A carroceria tombou para frente e deixou artistas, trabalhadores e foliões em risco. Imagens que circularam nas redes sociais mostram mais de 15 pessoas na parte frontal do veículo, abraçadas, tentando se equilibrar para não cair.
A apresentação foi encerrada antes do previsto. Segundo a assessoria da banda, uma avaliação técnica apontou que não havia condições de seguir até o Farol da Barra.
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur) autuou a produtora e o proprietário do trio ainda no sábado. Após vistoria conjunta da Sedur, Defesa Civil, Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador), Empresa Salvador Turismo (Saltur) e Corpo de Bombeiros Militar da Bahia, ficou constatado que o excesso de peso comprometeu a estabilidade do veículo.
De acordo com o relatório técnico, a superlotação fez com que a parte frontal tombasse, criando risco iminente para todos a bordo e também para o público no entorno. A prefeitura informou que a atuação teve caráter preventivo, com foco na segurança da festa.
O episódio reacende uma pergunta recorrente a cada verão: afinal, trio elétrico tem limite de pessoas? Ou virou camarote sobre rodas?
O que diz a norma dos Bombeiros
Em janeiro deste ano, o Ministério Público do Estado da Bahia discutiu com o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) as regras de segurança para camarotes e trios elétricos no Carnaval de Salvador. O encontro reforçou a aplicação da Instrução Técnica nº 46/2024, que trata de eventos programados.
No caso do público em solo, a referência é clara: o limite recomendado é de até três pessoas por metro quadrado de área útil, como forma de evitar superlotação e reduzir o risco de acidentes. Para trios elétricos, minitrios e carros de apoio, a regra é mais específica.
Lotação do trio não é “no olho”
A quantidade de pessoas permitida em cima do trio não segue a lógica simples de metro quadrado aplicada à pista. A capacidade máxima deve estar definida no Certificado de Inspeção do veículo e nas ARTs (Anotações de Responsabilidade Técnica) emitidas pelos engenheiros responsáveis.
Ou seja: o limite não é estimado no momento. Ele precisa estar previamente calculado e autorizado. Cabe aos responsáveis pelo veículo garantir que o número de ocupantes jamais ultrapasse o que foi aprovado tecnicamente.
Exigências estruturais
A instrução técnica também estabelece requisitos mínimos de segurança:
Não se trata apenas de conforto. É estrutura para evitar queda, choque elétrico e princípio de incêndio.
Prevenção contra incêndio
Trios e carros de apoio precisam ter extintores portáteis, geralmente do tipo ABC, distribuídos tanto na área de equipamentos (som e gerador) quanto na área de circulação de pessoas.
O grupo gerador deve ficar isolado e ventilado. O abastecimento é proibido com o veículo em movimento ou próximo ao público.
Documentação obrigatória
Para circular no Carnaval, o trio precisa apresentar:
Sem esses documentos, o veículo não deve ser liberado.
E nos camarotes?
Se o trio exige cálculo técnico, o camarote também. E com fiscalização pesada. A Instrução Técnica do Corpo de Bombeiros trata os camarotes como estruturas temporárias de alto risco. São montagens elevadas, com grande concentração de pessoas e, muitas vezes, com cozinha, bar e equipamentos elétricos. Por isso, as exigências são detalhadas.
Lotação não é estimativa, é cálculo.
Para áreas com público em pé, a referência é de até 2,5 pessoas por metro quadrado de área útil. Já em espaços com mesas e cadeiras, o limite é definido pelo número de assentos disponíveis, e o mobiliário não pode bloquear rotas de fuga. Cada camarote precisa exibir, em local visível, a placa com a capacidade máxima permitida.
Saídas dimensionadas para o público
Escadas e saídas de emergência devem ter largura proporcional ao número de ocupantes. O objetivo é evitar gargalos em caso de evacuação. As rotas de fuga precisam ter iluminação de emergência e sinalização fotoluminescente indicando claramente o caminho até a saída.
Estrutura reforçada
Como são áreas elevadas, o guarda-corpo é obrigatório, com altura mínima de 1,10 metro e resistência suficiente para suportar pressão do público. Materiais de decoração inflamáveis, como tecidos sem tratamento antichamas, são proibidos.
Responsável técnico e brigada própria
Cada camarote precisa de ART assinada por engenheiro civil, atestando a estabilidade da estrutura. Dependendo da capacidade e do risco, também é exigida equipe de brigadistas exclusiva para aquele espaço.
Cozinha e gás sob controle.
Se houver uso de GLP, os botijões devem ficar em área externa, ventilada e isolada do público por barreiras físicas.
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