Justiça

Como um escândalo de R$ 350 milhões investigado pela PF virou pedido de indenização bilionária de empresário baiano

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Empresário peça central da Operação Navalha move ação na Justiça e pede indenização bilionária após investigações da PF sobre fraudes em obras pública  |   Bnews - Divulgação Alan Marques/Folhapress
Adelia Felix

por Adelia Felix

adeliafelix@bnews.com.br

Publicado em 28/05/2026, às 04h00 - Atualizado às 05h45



Na manhã de 17 de maio de 2007, moradores do luxuoso condomínio Encontro das Águas, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, foram despertados pelo movimento de viaturas da Polícia Federal (PF). O alvo era a casa do empresário baiano Zuleido Soares de Veras, então com 62 anos, fundador da construtora Gautama e um dos nomes no centro da Operação Navalha.

À época, a PF apontou Veras, hoje com 81 anos, como peça central de um esquema de fraudes em obras públicas que, segundo as investigações, envolvia contratos inflados e pagamento de propina. O prejuízo calculado era de cerca de R$ 350 milhões aos cofres públicos. A operação se espalhou por nove estados, incluindo a Bahia.

De investigado a indenizado?
Contra Zuleido havia escutas telefônicas, relatórios de vigilância da PF e planilhas apreendidas mostrando que ele comandava pessoalmente o direcionamento de licitações federais no Nordeste. Além disso, os investigadores apontaram que ele autorizava o fluxo de dinheiro vivo para o pagamento de propinas.

Em 19 anos, o empresário respondeu cerca de 40 processos ligados ao caso. Todos foram arquivados. Hoje, aos 81 anos, Veras assiste à sua empresa travar uma disputa judicial contra a União, em busca de uma indenização bilionária desde 2022.

Segundo apurado pelo BNEWS, de um lado, a Construtora Gautama entrou com uma ação em São Paulo. Do outro, Zuleido Veras levou um processo próprio à Justiça Federal em Brasília. As duas iniciativas corriam em paralelo, com pedidos semelhantes e o mesmo pano de fundo: o impacto da Operação Navalha sobre a empresa.

A duplicidade, no entanto, durou pouco. Documentos da Justiça Federal acessados pela reportagem indicam que o Judiciário decidiu concentrar tudo em São Paulo, onde a ação da Gautama havia sido protocolada primeiro. O processo aberto em Brasília acabou absorvido.

Ueslei Marcelino/Folhapress

Só a título de dano moral, Veras pediu cerca de R$ 50 milhões. Somados os prejuízos atribuídos à empresa, os valores apresentados pela defesa, na época, ultrapassavam a casa dos R$ 10 bilhões.

Conforme apurado pelo BNEWS, em 28 de abril de 2026, a juíza Cristiane Farias Rodrigues dos Santos fixou em R$ 90 mil o valor da perícia contábil que deve dimensionar o prejuízo alegado pela empreiteira. A definição veio depois de um embate entre o perito judicial, nomeado pelo juízo, e as partes. Inicialmente, o perito estimou o trabalho em R$ 116 mil.

A União e a construtora consideraram o valor elevado. Intimado a rever os cálculos, o perito elevou a proposta para quase R$ 150 mil, alegando aumento no valor da hora técnica e custos operacionais. A juíza entendeu que era desproporcional e arbitrou o valor.

A partir da decisão da magistrada e após o pagamento, o perito terá prazo de 60 dias para revisitar 16 contratos de obras públicas. Ele vai reconstituir a capacidade operacional da Gautama ao longo de mais de uma década e estimar lucros e danos decorrentes do bloqueio de ativos e da proibição de contratar com o poder público.

Rápido esvaziamento da carceragem
O que começou com prisões em massa e promessa de responsabilização acabou marcado por decisões que, na prática, desmontaram a operação. O empreiteiro e os outros 46 presos não ficaram muito tempo na carceragem.

A operação tratada como uma das maiores ofensivas contra corrupção em obras públicas no Brasil foi perdendo força nos tribunais. Decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) foram derrubando as prisões uma a uma, conforme os depoimentos avançavam.

Em menos de duas semanas, todo mundo já estava solto. A maioria ficou presa entre quatro e 13 dias. Consultas feitas nos sistemas da Justiça Federal pelo BNEWS comprovam que a maioria dos processos já foi arquivada.

Os recursos vinham de programas federais como o Luz para Todos e Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Eles eram destinados a obras de infraestrutura como adutoras, barragens e sistemas de saneamento.

A polícia traçou um circuito de repasses que incluía dinheiro em espécie, passagens aéreas e hospedagens em hotéis de luxo. O destino, segundo os investigadores, eram agentes públicos de diferentes níveis, de servidores locais a autoridades políticas, em troca de apoio a contratos, liberação de verbas e emendas parlamentares.

O desmonte da Navalha
Em 2015, o STJ decidiu desmontar a Ação Penal 536. Os casos ligados a verbas federais seguiram para varas da Justiça Federal. Já as suspeitas envolvendo recursos estaduais e municipais foram remetidas às cortes locais, como o Tribunal de Justiça da Bahia, onde parte dos desdobramentos tramitou de forma independente.

Espalhada pelo país, a investigação perdeu a unidade e o ritmo. Juízes tiveram de recomeçar praticamente do zero, revisitando milhares de páginas e retomando depoimentos já colhidos.

A derrocada das acusações se deu, sobretudo, pela combinação de falta de provas e uma sequência de decisões de absolvição ao longo dos anos. Em muitos casos, as escutas telefônicas que sustentavam parte das denúncias foram anuladas pela Justiça, consideradas ilegais, o que esvaziou a denúncia do Ministério Público Federal (MPF).

O tempo, nesse intervalo, trabalhou a favor dos réus. Com prazos vencendo em sequência, o que restou foi um efeito em cascata: processos arquivados, um após o outro, sob o peso da prescrição.

Sem condenações na Bahia
Na Bahia, no dia 28 de maio de 2010, o processo criminal embrião da Operação Navalha, conhecido como “Evento Camaçari”, foi encerrado pela Justiça. Em decisão monocrática, o juiz Abelardo Paulo da Matta Neto entendeu que todos os envolvidos, entre eles representantes da Prefeitura de Camaçari, que também exerciam funções no Executivo Municipal à época, não teriam que responder.

O magistrado afirmou que não foi comprovada a suspeita da PF de que houve licitação direcionada em contratos entre a prefeitura e a construtora Gautama para obras de saneamento e urbanização, nem pagamento por serviços superfaturados ou não executados.

O parecer que embasou a decisão foi da Procuradoria-Geral de Justiça, assinado pelo procurador Rômulo de Andrade Moreira.

“Nos documentos acostados aos autos, verifica-se que os procedimentos licitatórios, tidos por fraudulentos, não chegaram a ser formalizados, seja em face de impugnações administrativas formuladas, seja em face da concessão de liminar suspendendo a concorrência pública, a indicar a inexistência de materialidade do fato imputado, assim como do dolo enquanto elemento subjetivo informador da conduta”, entendeu o magistrado.

A própria decisão aponta que as licitações investigadas nem chegaram a se concretizar. Foram interrompidas ainda na fase inicial, seja por questionamentos administrativos ou por decisões judiciais que suspenderam os processos. Sem contrato, sem execução e sem desvio comprovado, o caso acabou arquivado.

A queda que fez barulho
A saída do então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, do Governo Lula, foi o primeiro abalo político de peso da operação em maio de 2007. No centro, o assessor especial Ivo Almeida Costa, descrito como elo entre a empreiteira e a cúpula da pasta.

Segundo a PF, foi nesse circuito que circulou um pagamento de R$ 100 mil em dinheiro vivo, entregue por Maria de Fátima Palmeira, diretora da Gautama e mulher de Zuleido Veras.

Rondeau negou envolvimento desde o início. Ainda assim, deixou o cargo cinco dias depois da operação vir a público. A justificativa foi política: sair para não contaminar o governo enquanto se defendia.

Quem era quem e no que deu

Zuleido Soares de Veras, dono da Gautama
Investigado por: chefiar o esquema, direcionar licitações e autorizar pagamento de propinas
Desfecho: provas anuladas; processos acabaram esvaziados ao longo dos anos

Maria de Fátima Palmeira, diretora da Gautama
Investigada por: operar o caixa do esquema e distribuir dinheiro em espécie
Desfecho: atingida pela anulação das provas; não houve condenação definitiva

Rodolpho Veras, filho de Zuleido
Investigado por: montar consórcios fictícios para fraudar licitações
Desfecho: mesmas nulidades atingiram o caso

Silas Rondeau, ministro de Minas e Energia no Governo Lula
Investigado por: suposto recebimento indireto de propina via assessor
Desfecho: pediu demissão em 2007; anos depois, acusações foram arquivadas por falta de prova

José Reinaldo Tavares, ex-governador do Maranhão
Investigado por: recebimento de vantagens em troca de favorecer contratos
Desfecho: preso na operação; caso não resultou em condenação final

Flávio Conceição, conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe (TCE-SE)
Investigado por: facilitar aprovação de obras superfaturadas
Desfecho: acusações perderam força com o tempo e decisões judiciais

Paulo Magalhães, deputado federal pelo PSD-BA
Investigado por: tráfico de influência para liberar recursos
Desfecho: escutas anuladas pelo STF; caso esvaziado

Ivo Almeida Costa, assessor do ministério
Investigado por: intermediar repasses de propina em Brasília
Desfecho: provas comprometidas; não houve desfecho penal robusto

Luiz Caetano, prefeito de Camaçari em 2007
Investigado por: Alvo do "Evento Camaçari". A Polícia Federal apurou o favorecimento da Gautama em contratos de macrodrenagem e saneamento básico na cidade da Região Metropolitana de Salvador.
Desfecho: Ele foi absolvido pelo Tribunal de Justiça da Bahia em 2010, que considerou que não houve prejuízo ao erário).

Alexandre de Maia Lacerda, ex-Codevasf
Investigado por: fraudar pareceres técnicos em obras públicas
Desfecho: atingido pelo efeito cascata das nulidades

Classificação Indicativa: Livre

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