Justiça
por Bruna Rocha
Publicado em 21/08/2025, às 06h00
Ialorixá, liderança quilombola e ativista, mas, acima de tudo, mãe. Bernadete Pacífico foi morta aos 72 anos, dentro de sua própria casa, no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador. O crime, que completou dois anos, deixou marcas profundas nos moradores. Em entrevista ao BNews, o filho de Mãe Bernadete, Wellington Pacífico, 44 anos, relatou que a comunidade ainda vive sob o medo. Desde a morte, a família criou o Instituto Mãe Bernadete, um espaço dedicado a garantir direitos para a população local e a preservar a memória da líder religiosa.
Mãe Bernadete, faleceu no dia 17 de agosto de 2023 após ser baleada brutalmente com 25 tiros. Na ocasião, homens entraram na residência dela e efetuaram os disparos. A líder quilombola fazia parte do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) do Governo Federal. Além de escolta armada, a sede do quilombo Pitanga dos Palmares, onde ela vivia, era monitorada por câmeras de segurança.
Ao BNews, Wellington Pacífico conta que o clima no quilombo ainda é de medo e insegurança.
A perda dela [Mãe Bernadete] enfraqueceu o movimento, muitos quilombolas têm medo de lutar pelos seus direitos, têm medo de morrer. O recado de quem cometeu esse crime foi claro, tentar silenciar a luta. Mas eu não vou desistir”, diz.
De acordo com levantamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 2020 o Quilombo Pitanga dos Palmares reunia 351 famílias. Já o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 registrou apenas 162. Segundo o filho de Mãe Bernadete, a saída de moradores se intensificou após o assassinato da líder religiosa.
“Houve pessoas que deixaram o quilombo por medo de se tornarem as próximas vítimas. O clima ainda é de insegurança, revolta e indignação. Desde a morte de minha mãe, esses sentimentos se tornaram constantes”, desabafa Pacífico.
Carrego o DNA de Mãe Bernadete e sigo firme pelo legado dela. Ainda assim, a verdade é que o medo e a insegurança permanecem entre nós”, afirma o ativista ao BNews.
O assassinato também deixou marcas na memória das crianças quilombolas. Uma das netas da ialorixá, que esteve com a avó nos últimos momentos de vida e presenciou o crime, hoje enfrenta problemas psicológicos. “Minha sobrinha, que estava no local no dia, até hoje tem pesadelos. Com apenas 13 anos, já pensou em tirar a própria vida. Ela não é mais a mesma criança desde que viu a avó ser assassinada diante dela. Quando conseguimos, levamos ela a consultas com psicólogos, mas ainda assim a dor é muito forte”, lamenta o tio da criança.
A vida dela mudou completamente, assim como a nossa, depois do assassinato de minha mãe. Desde então, vivemos inseguros. Não podemos andar em qualquer lugar, e sei que, se não fosse a segurança que hoje me protege, eu provavelmente já teria sido morto”.
Pacífico ressalta que precisou abandonar a vida acadêmica, o esporte que praticava e até os amigos. Ele afirma que não pode circular sozinho e que, mesmo sob escolta, já foi alvo de ameaças. “Não posso nem fazer uma caminhada sem escolta. Infelizmente, essa é a nossa realidade. Mas sigo firme, porque prefiro viver sob essas restrições a ter o mesmo destino de minha mãe”, conta o herdeiro de Bernadete.
Em novembro de 2023, Wellington criou um braço da associação que Bernadete Pacífico comandava, o Instituto Mãe Bernadete (IMB). Com sede no Quilombo Pitanga dos Palmares, o Instituto é dedicado a garantir direitos básicos à comunidade quilombola local e aos quilombos vizinhos.
“O Instituto tem como objetivo buscar políticas públicas não apenas para os quilombos de Pitanga de Palmares, pelos quais Mãe Bernadete sempre batalhou, mas também para todos os quilombos da Bahia e do Brasil”, enfatiza o líder quilombola.
Para Pacífico, a luta de Mãe Bernadete sempre foi coletiva e é “nesse espírito, que a missão central do Instituto é manter viva a memória e o legado de nossa mãe, garantindo que novas gerações de quilombolas e defensores de direitos humanos tenham instrumentos de resistência, formação e empoderamento para que essa luta siga adiante”, conta ao BNews.
Com duas sedes, uma em Salvador e outra no quilombo, o IMB realiza feiras de saúde, levando dentistas, pediatras e médicos clínicos para a comunidade. O instituto também promove feiras sociais, oferecendo serviços como emissão de identidade, CPF e certidões.
“O Instituto realiza diversas ações, incluindo saúde, serviços sociais, educação escolar quilombola e apoio à agricultura familiar. Há cerca de 15 dias, firmamos uma parceria com a Defensoria Pública do Estado (DPE) e realizamos uma feira social no quilombo, com emissão de documentos como identidade e registro, além da CAF e da Estação do Agricultor Familiar”, lembra Pacífico.
Hoje, o IMB conduz um projeto de saúde quilombola que conta com cirurgiões-dentistas, médicos, psicólogos, advogados e outros profissionais disponíveis para a comunidade via Instituto.
O assassinato de Bernadete foi investigado pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) como homicídio qualificado a mando do tráfico de drogas. Segundo a “Operação Pacific”, conduzida pela Polícia Civil com apoio do Gaeco e da 7ª Promotoria de Simões Filho, a líder religiosa foi atingida pelos tiros dentro de casa, onde estavam três netos, de 12, 13 e 18 anos. O estudo do caso contou com apoio do Centro de Apoio Operacional de Direitos Humanos (CAODH) do MP.
As investigações indicaram que Mãe Bernadete foi executada por se posicionar contra a expansão do tráfico na região, em especial contra a construção da barraca “Point Pitanga City”, ponto de venda de drogas erguido ilegalmente em área de preservação ambiental. Além disso, a apuração constatou que as câmeras do local não estavam funcionando.
No segundo semestre de 2024, seis homens foram denunciados pelo MP-BA à Justiça da Bahia como executores do homicídio. A 1ª Vara Criminal de Simões Filho acolheu a denúncia e determinou que eles sejam julgados por júri popular. Cada um dos acusados responde por diferentes participações no crime, segundo a denúncia do MP-BA. Confira:
Dos foragidos, segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), estão na lista dos mais perigosos do estado. Os homens são procurados há cerca de oito meses.
Diante da ausência de desfecho do caso, Wellington Pacífico mantém viva a esperança de ver a justiça ser realizada pela mãe.
Não consigo perder a fé. Minha mãe era uma pessoa de santo, e Xangô não é padrasto, é pai. Sei que ele fará justiça, assim como Deus também ajudará”, diz Pacífico.
“Eles vão pagar, não sei como, mas a justiça vai chegar, especialmente para o mandante, que organiza tudo por trás, nas suas empresas e no poder que exerce. Não posso dizer exatamente como, mas lá de cima será determinado que eles pagarão pelo que fizeram”.
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