Justiça

Se Governe: Ser íntegro é ser inteiro

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Confira o texto desta semana sobre governança corporativa  |   Bnews - Divulgação Foto: Divulgação

Publicado em 10/11/2025, às 12h00   Thiago Dória



É difícil conceituar cientificamente o que é a Ética, essa é uma discussão filosófica de mais de dois mil anos. Para o nosso objetivo, é mais fácil resumir a ética como um conjunto de valores que guia o comportamento humano em uma sociedade, permitindo a convivência entre as pessoas. É a ética que nos orienta a não pegar o que é dos outros, mesmo que ninguém esteja olhando.

No seu Código de Melhores Práticas, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa propõe a Ética como fundamento da Governança Corporativa, pois se uma empresa não respeita sequer a convivência com as partes interessadas no negócio, e com a sociedade e o ambiente que lhe cercam, jamais conseguirá avançar adequadamente para a adoção dos Princípios da Governança Corporativa (Integridade, Transparência, Equidade, Responsabilização e Sustentabilidade).

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Em especial, trataremos hoje do Princípio da Integridade, que tem tudo a ver com a Ética, mas vai um pouco além dela. Mais do que conhecer e respeitar valores éticos, uma pessoa íntegra é aquela os concretiza, e cujo cotidiano manifesta, a todo tempo, o respeito ética de uma sociedade, tornando-a digna de servir de paradigma, de exemplo. Voltando ao Código do IBGC, o princípio da Integridade consiste em praticar e promover o contínuo aprimoramento da cultura ética na organização, em especial através de três iniciativas básicas.

A primeira é a prevenção contra conflitos de interesses e sua influência nas decisões da gestão. Quando uma empresa prevê que não se pode contratar parentes como fornecedores, ela não está dizendo que essa contratação, por si só, é um problema ético – mas admitindo que pode vir a ser, e prevenindo esse risco. Desta maneira, num eventual desacordo com este fornecedor, o gestor poderá trabalhar para defender os interesses da empresa sem se preocupar com quaisquer relações pessoais (seja de quem for), e poderá tomar decisões sem ter que lidar com problemas éticos dessa natureza.

A segunda é a preocupação com a coerência entre discurso e prática da empresa, muito por conta do que já comentamos em outras colunas: o exemplo vem de cima. Mais que isso, a coerência também exige que a organização não tenha “duas caras”, e fale uma coisa para o mercado, outra para os empregados, e outra para os sócios. Ser íntegro é ser inteiro, estar por completo em tudo o que se que faz. Para cultivar uma cultura ética, é necessário adotá-la também por inteiro, o que deve conduzir a empresa a tomar atitudes sempre em conformidade com os valores que prega.

Por fim, o princípio da Integridade propõe ainda que a organização seja cuidadosa com todos ao seu redor: as chamadas partes interessadas (o que inclui sócios, clientes, fornecedores, concorrentes, etc.), a sociedade e o meio ambiente. Para mim, aliás, esse é o coração da ética: agir de maneira justa, correta e cuidadosa e correta com todos à sua volta, em prol da convivência. Sem este olhar amplo e atento, é difícil falar em Integridade.

É a partir deste princípio, e a fim de valorizá-lo e atendê-lo, que as empresas desenvolvem os chamados sistemas de integridade, que na sua forma mais complexa também recebem o nome de compliance. A maioria das empresas nunca vai ter um setor específico de compliance, e talvez isso nem necessário para muitas delas. Todas as organizações, entretanto, precisam entender de que maneira devem pautar as suas inciativas pela ética, ensinar (e exigir) que as pessoas ajam com honestidade e integridade, e prevenir os riscos decorrentes das eventuais falhas de terceiros, tratando esse assunto de maneira franca e direta – sob pena de sofrer graves prejuízos.


Thiago Dória

Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas 

Classificação Indicativa: Livre

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