Justiça

Tortura na Mata Escura: Mais de 30 agentes são condenados por torturar detentos em presídio de Salvador

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Após 16 anos, Justiça condena agentes por tortura contra 260 detentos em operação na Cadeia Pública de Salvador, no Complexo da Mata Escura  |   Bnews - Divulgação Divulgação/MP-BA
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeirajornalismo@gmail.com

Publicado em 07/11/2026, às 13h30 - Atualizado às 13h35



Uma operação de revista realizada na Cadeia Pública de Salvador, no Complexo Penitenciário da Mata Escura, terminou com 260 detentos submetidos a agressões físicas e psicológicas durante um procedimento de inspeção nas celas da unidade. O caso ocorreu há 16 anos, no dia 23 de junho de 2010, véspera de São João.

Porém, no último dia 24 de outubro, a Justiça da Bahia condenou 31 dos 35 agentes penitenciários denunciados pelo incidente, com penas que variam de 11 anos e 8 meses a 13 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão, todas em regime inicial fechado (confira a lista completa ao final da reportagem).

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A sentença, obtida pelo BNews, foi assinada pelo juiz Bernardo Mario Dantas Lubambo, da 14ª Vara Criminal de Salvador. A decisão é de primeira instância e ainda cabe recursos. A sentença ainda determinou a perda dos cargos públicos e o pagamento de indenização mínima de R$ 5 mil para cada vítima.

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Imagem interna do Complexo da Mata Escura | Foto: Divulgação/MP-BA

Além da Cadeia Pública, o Complexo Penitenciário da Mata Escura reúne a Penitenciária Lemos Brito, o Presídio de Salvador, a Penitenciária Feminina, o Centro de Observação Penal e a Unidade Especial Disciplinar, além de estruturas de atendimento médico aos custodiados.

Inaugurada em 2010, a Cadeia Pública era, portanto, uma das unidades mais recentes do complexo quando ocorreu a revista que resultou nas agressões investigadas pela Justiça. Na época, a unidade — construída com capacidade para mais de 700 detentos provisórios — abrigava 412 presos.

De acordo com os relatos reunidos no processo, a operação começou com a abertura das celas e a retirada dos internos. Os presos eram obrigados a deixar os alojamentos, passar por revistas pessoais e retirar as roupas para inspeção.

Em seguida, eles eram conduzidos pelos corredores até os espaços conhecidos como solários, onde permaneciam enquanto os agentes realizavam buscas nas celas. A versão apresentada pelos detentos, porém, aponta que as agressões começavam ainda durante a saída dos alojamentos.

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A Cadeia Pública de Salvador, localizada dentro do Complexo da Mata Escura, foi inaugurada em 2010 | Foto: Divulgação/Seap

Corredor polonês

Os internos relataram diferentes tipos de tortura. Eram atingidos com socos, chutes, cassetetes, tonfas, bastões e pedaços de madeira. Também houve denúncias de aplicação de spray de pimenta dentro das celas e utilização de equipamentos de choque. Um dos principais pontos da dinâmica descrita na sentença foi a formação de um chamado "corredor polonês".

Nesse procedimento, os presos precisavam atravessar um corredor formado por agentes posicionados dos dois lados, que desferiam golpes contra os internos durante a passagem. O magistrado considerou que a organização da operação permitia compreender a dimensão coletiva das agressões.

Os relatos também apontaram para a utilização de cães durante a operação. Alguns presos afirmaram ter sido mordidos pelos animais, enquanto outros disseram ter presenciado agressões contra colegas que tentavam deixar as celas.

Enquanto alguns agentes abriam as celas e retiravam os presos, outros atuavam nos corredores e havia equipes responsáveis por manter os internos nos solários.

Depois, os internos do solário III começaram a reclamar de terem sido vítima de espancamento no dia de São João, por agentes penitenciários da Unidade e do GEOP, mostraram as marcas das agressões, plenamente visíveis, do lugar em que nos encontrávamos. No solário do raio IV, inclusive, havia um preso que mal conseguia andar, com a perna ferida, a orelha inflamada (segundo eles por mordida de cachorro). Em ambos os solários, os hematomas se faziam presentes indistintamente e eles relataram que foram retirados das celas e colocados em um 'corredor polonês', recebendo pancadas com 'porretes', murros, chutes e choques elétricos", afirma um trecho da decisão judicial.

O BNews obteve acesso aos depoimentos dos detentos. A reportagem optou por ocultar o nome das vítimas — uma vez que muitas delas já cumpriram pena e se encontram em liberdade atualmente.

Em um dos depoimentos reproduzidos na decisão, um dos prisioneiros descreveu que os agentes passavam de cela em cela aplicando spray de pimenta. Depois, os internos eram retirados, agredidos durante o deslocamento e encaminhados ao pátio, onde permaneciam nus, de joelhos e com as mãos para trás.

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Após 16 anos, Justiça condena agentes por agressões a detentos na Cadeia Pública de Salvador | Foto: Divulgação/MP-BA

Tortura e humilhações

A gravidade das denúncias chegou ao conhecimento da então juíza da Vara de Execuções Penais de Salvador, Andremara dos Santos. Após receber informações os casos de tortura, a magistrada esteve na unidade prisional no início de julho de 2010 para verificar a situação dos internos.

Durante a inspeção realizada pelo Instituto Médico Legal Nina Rodrigues foram registrados relatos de espancamentos, utilização de cães, choques elétricos e agressões com porretes. Dos 262 presos submetidos a exames periciais, 247 apresentavam lesões corporais.

A juíza também observou sinais de tortura nos presos, como hematomas e ferimentos aparentes. Um dos internos apresentava dificuldade para caminhar, uma perna ferida e uma lesão na orelha, que teria sido provocada por uma mordida de cachorro. Em 242 casos, os ferimentos foram associados à ação de instrumentos contundentes. 

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Cela dentro do Complexo da Mata Escura | Foto: Divulgação/MP-BA

De acordo com os documentos analisados pelo BNews, além dos casos de tortura e agressões físicas, os depoimentos reunidos no processo descrevem situações de humilhação durante a revista. Uma das vítimas relatou ter recebido golpes nas costas, no pescoço e na região anal, além de afirmar que sofreu uma fratura na coluna.

Segundo o relato, os agentes também faziam provocações enquanto batiam nos internos, com frases relacionadas às festas juninas, como "pula a fogueira agora!" e "faça zuada agora!".

Outro depoimento relacionou o episódio de tortura às reivindicações feitas pelos presos sobre as condições da unidade. A vítima afirmou que os internos enfrentavam problemas com o abastecimento de água e que as reclamações teriam sido seguidas pela utilização de spray de pimenta, cães e pedaços de madeira.

Os agentes penitenciários, por outro lado, negaram a prática de tortura. Em suas versões, afirmaram que utilizaram procedimentos habituais de contenção para retirar os presos que resistiam a deixar as celas.

Os acusados sustentaram que parte dos ferimentos poderia ter sido provocada por quedas dos internos em corredores molhados e escorregadios. A explicação, no entanto, foi rejeitada pelo magistrado. Ao analisar a dinâmica descrita pelas vítimas e os exames periciais, o juiz considerou que as lesões apresentavam características compatíveis com golpes de instrumentos contundentes.

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A operação de revista realizada em 2010 resultou em graves denúncias de tortura e humilhação | Foto: Divulgação/MP-BA

31 agentes foram condenados

Dos 35 agentes denunciados pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), 31 foram condenados por tortura. Outros três foram absolvidos por insuficiência de provas de participação nas agressões: Edna de Aquino Brito, Cláudio José Silva Cavalcanti e Alexssandro Andrade Mainart.

Já Paulo Sérgio de Sousa Silva teve sua punição extinta em razão de sua morte. Entre os condenados, seis ocupavam funções de direção ou coordenação na Cadeia Pública. Everaldo Jesus de Carvalho, Clésio Rômulo Atanásio Sobrinho, Crispim Borges, Gilberto José Santos, Jessé Alves Gomes e Luiz Carlos Souza Sacramento receberam penas de 13 anos, 7 meses e 10 dias de reclusão.

Outros 25 agentes penitenciários foram condenados a 11 anos e 8 meses de prisão. Na fundamentação, o juiz considerou que a violência não poderia ser analisada apenas a partir da identificação de quem desferiu cada golpe. Para ele, as provas demonstraram uma atuação coletiva, organizada por meio da divisão de tarefas entre os envolvidos.

Mesmo que, antes do início propriamente dito dos "trabalhos", não se houvesse combinado que seria executada uma espécie de correção coletiva mediante agressões de todo tipo, mesmo assim, quando tais agressões tiveram início, toda a equipe aderiu ao mesmo propósito e se empenhou para que ele fosse atingido. Afinal, não há qualquer relato de que algum agente tenha desertado após perceber o que se passava. Todos continuaram agindo, seja emitindo, seja acatando ordens manifestamente ilegais", afirmou a decisão do juiz Bernardo Mario Dantas Lubambo.

O BNews questionou a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização da Bahia (Seap-BA) sobre as condenações dos agentes. No entanto, até o fechamento desta reportagem, nenhum posicionamento foi enviado. O espaço segue aberto e a matéria será atualizada diante de eventual manifestação futura.

Confira as sentenças proferidas pela Justiça:

  • Pena de 11 anos e 8 meses com regime inicial fechado
  1. Alexandre Menezes da Silva — Abertura e fechamento das celas
  2. Cândido Rosa Neto — Atuação nos corredores
  3. Carlos André de Jesus Pereira — Inspeção das celas
  4. Denilson Jesus de Medeiros — Abertura e fechamento das celas
  5. Edmundo dos Santos — Revista das celas
  6. Elias Fernandes de Jesus — Abertura e fechamento das celas
  7. Fábio da Silva dos Santos — Revista das celas
  8. Géssio Gonçalves Alves Costa — Contenção no solário
  9. Gildásio Moura Pereira — Abertura e fechamento das celas
  10. Humberto Rosa Moreira — Revista de roupas e celas
  11. Itael Alves Santos — Revista das celas
  12. Ivonildo da Silva Oliveira — Revista das celas
  13. Jessé Batista dos Santos — Contenção no solário
  14. João Gomes de Brito — Abertura e fechamento das celas
  15. Jorge José dos Santos — Abertura e fechamento das celas
  16. José Oliveira Soares — Abertura e fechamento das celas
  17. José Roberto Costa Santos — Retirada de internos e revista das celas
  18. Josimar Franco Barbosa Lima — Revista das celas
  19. Marcos Geraldo Barbosa dos Santos — Retirada de internos, revista e atuação no corredor
  20. Paulo Cesar Galderisi Santana — Abertura e fechamento das celas
  21. Pedro Suarez Calasans — Abertura e fechamento das celas
  22. Roberto Lyra Machado — Contenção no solário
  23. Sandoval Barbosa dos Santos — Retirada de internos
  24. Valdelio Nascimento França — Revista das celas
  25. Wellington Sento Sé Improta — Revista das celas
  • Pena de 13 anos, 7 meses e 10 dias com regime inicial fechado
  1. Gilberto José Santos — Coordenador de segurança; exercia liderança
  2. Jessé Alves Gomes — Coordenador de vigilância; exercia liderança
  3. Luiz Carlos Souza Sacramento — Coordenador de vigilância; exercia liderança
  4. Clésio Rômulo Atanásio Sobrinho — Diretor-adjunto da Cadeia Pública
  5. Crispim Borges — Diretor-adjunto da Cadeia Pública
  6. Everaldo Jesus de Carvalho — Diretor-geral da Cadeia Pública
  • Absolvidos por falta de provas 
  1. Edna de Aquino Brito — agente penitenciária. Não ingressou nas instalações prisionais por ser mulher e a unidade ser masculina.
  2. Cláudio José Silva Cavalcanti — agente penitenciário. Foi escalado para permanecer na portaria, na área externa da cadeia, de onde não saiu.
  3. Alexssandro Andrade Mainart — agente penitenciário. Atuou como motorista, transportando pessoas feridas, mas permaneceu na área externa do presídio.
  • Punibilidade extinta em razão de falecimento
  1. Paulo Sérgio de Sousa Silva — agente penitenciário denunciado no processo.

Classificação Indicativa: Livre

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