Publicado em 23/09/2012, às 15h55 Pedro Tourinho*
Na última semana, aconteceu em São Paulo o VMB, Video Music Brasil, que é a premiação da MTV no país, que apesar de tudo, ainda é a maior emissora musical de TV que temos. Após um hiato de premiações com votos populares pela web, em que a qualidade ficou em segundo plano, este ano fizeram um esquema diferente, onde prevaleceu a música.
Na atual crise da Bahia, e em especial da música baiana, era de se esperar que não tivéssemos nenhum representante na premiação. Zero. Afinal, se está difícil segurar as pontas em casa, imagina numa emissora paulistana, cujos últimos clipes de axé-music foram exibidos apenas para virar piada de humoristas.
Pois bem. Preciso contar uma coisa para vocês. Dos cinco indicados para melhores álbuns do ano, três eram baianos. Um deles, inclusive, totalmente dedicado a falar da nossa cidade, com uma das músicas mais bonitas já escritas sobre Salvador, e um outro, no seu refrão mais conhecido de uma de suas músicas, diz que “eu só queria passar um tempo lá em casa, me deu saudade da Bahia.” São baianos, falando da Bahia em rede nacional, mas que não têm espaço na própria cidade.
Hoje, já com o leite derramado, está evidente como a indústria do Carnaval profissional acabou por dominar de tal forma o mainstream cultural da cidade, empurrando o que fosse diferente para guetos musicais como o Rio Vermelho e a madrugada dos circuitos carnavalescos, impedindo a maioria do povo de ao menos conhecer outro tipo de música também feita aqui. E com o fim da festa e a crise no axé, não teve outra: Salvador se enforcou no seu próprio abadá.
Cascadura, Agridoce e Vivendo do Ócio são alguns dos exemplos, que junto com Marcia Castro, Baiana System e Orquestra Rumpilezz acabam por muitas vezes encontrar maior reconhecimento no resto do mundo do que em sua própria casa. E, em casa, discutimos a proibição de baixaria nas letras de pagode, sem termos tentado ao menos colocar uma outra opção de prato à mesa.
Uma hora a onda deste lança-perfume vai passar, e talvez já não reste mais nada que preste na Praça Castro Alves. Por isso chame, chame, chame, chame gente. Vamos abrir os caminhos para que a magia aconteça, e para que o povo conheça sua própria obra. Uma cidade fundada na diferença, não pode se dar ao luxo de não conhecer os seus. Salvador não é um bloco, Salvador é muito mais do que o Carnaval.
*Pedro Tourinho é publicitário e especialista em mídia pela UCLA
Artigo publicado no jornal Correio* do dia 22 de setembro
Classificação Indicativa: Livre
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