Cultura

Adversário do Brasil na Copa, Japão também disputa protagonismo fora de campo com cinema que inspira Hollywood

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Descubra como a tradição cinematográfica do Japão se entrelaça com sua cultura, especialmente durante a Copa do Mundo  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Redes Sociais / Instagram / @japanfootballassociation
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 29/06/2026, às 07h00



Quando entrar em campo contra a Seleção Brasileira nos 16 avos de final da Copa do Mundo, nesta segunda-feira (29), o Japão carregará consigo muito mais do que sua tradição esportiva. Fora das quatro linhas, além das famosas animações para TV, o país do leste asiático possui um legado reconhecido mundialmente no cinema ou, de forma mais abstrata, na sétima arte.

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Para críticos e cineastas, como o diretor renomado e ganhador do Oscar, Quentin Tarantino, a "Terra do Sol Nascente" está entre as maiores potências cinematográficas da história. A indústria audiovisual do país criou linguagem própria, revolucionou técnicas de filmagem e influenciou diretamente produções dos Estados Unidos e do restante do mundo.

A história do cinema japonês começou praticamente de forma paralela com o nascimento da própria sétima arte no globo. Em 1895, os irmãos franceses Auguste e Louis Lumière desenvolveram o cinematógrafo, equipamento capaz de registrar e projetar imagens em movimento. 

Pouco tempo depois, o Japão passou a produzir seus próprios filmes, conhecidos inicialmente como katsudō shashin, ou “fotografias em movimento”. Mas, diferente do que aconteceu em muitos países ocidentais, o cinema japonês não nasceu de forma isolada, mas incorporou imediatamente elementos culturais que já faziam parte do cotidiano do arquipélago.

O teatro moldou a identidade do cinema japonês

Grande parte das primeiras produções japonesas teve participação direta de artistas do teatro kabuki, uma das expressões artísticas mais tradicionais do país. Essa influência ajudou a consolidar o jidai geki, gênero ambientado no Japão anterior ao período Meiji (1868–1912), normalmente marcado por histórias de samurais, conflitos políticos e dramas históricos.

Mais do que apenas temas, o kabuki influenciou praticamente toda a construção visual do cinema, como os nomes artísticos dos atores, maquiagem, figurinos, postura corporal, gestos e formas de expressão. Outro elemento que tornou o Japão único foi a presença dos “katsudō benshi", os narradores de cinema do país da era do cinema mudo.

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Durante o período do cinema mudo, esses narradores ficavam ao lado da tela, explicando a história, reproduzindo diálogos e interpretando emoções dos personagens. Em muitos casos, os espectadores escolhiam sessões pelo narrador que estaria presente, e não necessariamente pelo filme exibido.

A tradição dialogava diretamente com o ningyō jōruri, teatro de bonecos japonês surgido séculos antes, em que narradores e músicos conduziam a experiência do público. Na década de 1920, havia milhares de benshi em atividade, com mulheres incluídas. O formato começou a desaparecer apenas com a chegada do cinema sonoro.

Auge criativo que influenciou Hollywood

Nos anos 1930, o cinema japonês entrou em uma fase de explosão criativa e expansão estética. O país chegou a produzir quase 500 filmes por ano, número superado apenas pelos Estados Unidos. Nesse período surgiram nomes que transformariam a história do audiovisual e que, de forma intrínseca, permanecem nas veias artísticas de diversos cineastas até os dias atuais.

O diretor e roteirista Kenji Mizoguchi (1898-1956), conhecido por filmes como “Contos da Lua Vaga” (1953), “Intendente Sansho” (1954) e “Oharu - A Vida de Uma Cortesã” (1952), desenvolveu um estilo visual inspirado na pintura japonesa tradicional, ao utilizar enquadramentos amplos e cenas que permitiam ao espectador explorar diferentes pontos de atenção dentro da imagem.

Já Yasujirō Ozu (1903-1963), celebrado por suas comédias e dramas familiares em obras como “Era uma Vez em Tóquio” (1953), “Pai e Filha” (1949) e “A Rotina Tem Seu Encanto” (1962), ficou conhecido por sua capacidade de retratar relações parentais e mudanças sociais por meio de uma narrativa silenciosa e contemplativa.

Entretanto, foi o cineasta Akira Kurosawa (1910-1998) que alcançou um impacto global sem precedentes. Seus títulos, como “Os Sete Samurais" (1954), “Ran” (1985) e “Viver” (1952), ajudaram a redefinir conceitos de direção, ritmo e linguagem visual. Técnicas criadas por Kurosawa seriam posteriormente absorvidas por Hollywood e adaptadas em diferentes gêneros.

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Cineastas Kenji Mizoguchi, Yasujirō Ozu e Akira Kurosawa - Fotos: MUBI

No clássico “Rashōmon” (1950), por exemplo, o diretor enfrentou uma dificuldade técnica aparentemente simples, quando tentou filmar uma chuva intensa em preto e branco. A solução foi misturar tinta preta à água para tornar as gotas visíveis em câmera, um detalhe que acabou se tornando uma das imagens mais famosas da história do cinema. Em “Ran", Kurosawa incorporou referências ao teatro nō, principalmente na movimentação dos atores e na construção visual das cenas.

Até hoje, diretores estadunidenses reconhecem a influência do cinema japonês em suas produções, especialmente na narrativa visual e na composição dos enquadramentos. O ganhador do Desinibido de Ouro, Martin Scorsese, além de apontar Kurosawa como um dos seus cineastas favoritos, já interpretou o famoso pintor Van Gogh no filme “Sonhos” (1990), dirigido por Akira.

Obviamente, o cinema do Japão não se resume apenas aos nomes citados acima. No entanto, os diretores citados contribuíram para a implementação do impacto japonês no olhar cinematográfico e, contemporaneamente, ‘produzem’ longa-metragens que são inspirados nessa linha de pensamento. 

Diretores exemplares como: Hirokazu Kore-eda, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes com “Assunto de Família" (2018), além de produções aclamadas internacionalmente como “Ninguém Pode Saber” (2004) e “Broker - Uma Nova Chance” (2022); Ryusuke Hamaguchi, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional com “Drive My Car (2021)” e do Grande Prêmio do Júri em Veneza com “O Mal Não Existe” (2023). 

No entanto, o cineasta japonês favorito da coluna é nada mais, nada menos que Kiyoshi Kurosawa. Ativo desde os anos 80, Kiyoshi é um mestre do suspense e terror psicológico, frequentemente misturando o cotidiano com o sobrenatural. Ficou mundialmente conhecido por “Cura” (1997) e “Pulse” (2001), e continuou a lançar obras aclamadas como “Sonata de Tóquio” (2008) e "O Espião e a Mulher" (2020). 

Confira os filmes japoneses favoritos da coluna:

Tampopo - Os Brutos Também Comem Spaghetti (1985) - Dir. Jūzō Itami

April Story (1998) - Dir. Shunji Iwai 

House (1977) - Dir. Nobuhiko Obayashi 


Swing Girls (2004) - Dir. Shinobu Yaguchi 

Forget Me Not (2015) - Dir. Kei Horie

A Bride for Rip Van Winkle (2016) - Dir. Shunji Iwai 

A Cura (1997) - Dir. Kiyoshi Kurosawa 

Classificação Indicativa: Livre

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