Cultura
Publicado em 26/03/2025, às 06h00 - Atualizado às 06h00 Aina Soledad
Cria da comunidade do Coroado, em São Marcos, em Salvador, a cantora Ludmillah Anjos sabe bem o que é superar adversidades para alcançar seus objetivos. “Cultura é sociedade e educação. E, além de tudo, somos gestoras da família, mães, empresárias, escritoras… Criamos um leque de possibilidades e nos tornamos referência para outras mulheres. Eu, que sou da Bahia, do Coroado, bairro de São Marcos, não sou diferente: levo para o mundo a musicalidade e a cultura que minha mãe e a Bahia me deram. A mulher é um patrimônio único e indispensável para o fortalecimento da cultura sempre!”, afirma.
Entre as principais inspirações de Ludmillah estão grandes nomes da música baiana, como Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Gal Costa, Maria Bethânia e Margareth Menezes.
E por falar na intérprete de Faraó, que há mais de 30 anos pavimenta caminhos na arte, nos últimos dois anos Margareth Menezes também tem conciliado a carreira artística com o mais alto cargo vinculado ao setor no país: o Ministério da Cultura (Minc). Além de cantora, compositora, atriz, gestora cultural e empresária, a ministra busca imprimir sua marca na gestão pública.
À frente da pasta, Margareth, que celebrou os 40 anos do Axé Music no Carnaval de Salvador em 2025, foca sua atuação na diversidade, justiça social, representatividade, democratização do acesso às políticas públicas e na nacionalização dos investimentos.
“Sendo mulher, negra e artista, entendo que, historicamente, represento grupos que enfrentam desafios estruturais para chegar a cargos políticos, salários justos e acesso a direitos básicos e fundamentais. Acredito que vir desse lugar contribui positivamente para o trabalho que estamos fazendo no Ministério, refletindo para o povo baiano e brasileiro como um todo”, diz a ministra.
Margareth reforça que sua gestão está empenhada em ampliar o apoio às minorias e às regiões historicamente menos prestigiadas.
“Temos um olhar especial para o público feminino, negro, LGBTQIA+, indígenas, quilombolas, entre outros, que historicamente são menos favorecidos. Nossos editais são afirmativos, acessíveis e buscam contemplar esses segmentos sociais, ampliando o alcance das políticas públicas culturais. Para além disso, nossa gestão tem feito o maior investimento direto em cultura da história, com um olhar especial para regiões menos contempladas, mas sem deixar nenhum estado sem investimento”, destaca.
A atual ministra da cultura iniciou sua carreira ainda na adolescência. O mesmo aconteceu com a percussionista Viviam Caroline, que teve seu primeiro contato com o universo artístico aos 16 anos, ao participar do projeto Neguinho do Samba. Foi lá que despertou sua paixão pela bateria e pela cultura afro-brasileira. Desde então, há mais de 30 anos, Viviam constrói uma trajetória de dedicação à percussão, sendo fundadora de grupos como Águas de Sambas e Yayá Muxima, que mistura samba-reggae com música eletrônica.
“Nós, mulheres, quando abraçamos uma causa, mergulhamos por inteiro. Isso não quer dizer que nosso envolvimento seja melhor ou pior do que o dos homens, mas ele é diferente. Nossa forma de pensar contempla mais janelas, mais possibilidades. E esse é um diferencial importantíssimo na liderança e no protagonismo feminino na arte”, afirma.
Mesmo diante de desafios impostos por uma sociedade machista, Viviam segue firme.
“Estou numa cidade que respira arte, onde as mulheres estão sempre se movimentando artisticamente – seja na dança, na percussão, no canto. São mulheres de força impressionante, porque ser mulher, especialmente uma mulher negra, significa enfrentar misoginia, racismo, etarismo… Enfim, uma série de preconceitos que nossa sociedade insiste em praticar. E isso torna tudo ainda mais desafiador”, desabafa.
Outra artista que leva a cultura da Bahia para o mundo é a atriz Edvana Carvalho, formada no Bando de Teatro Olodum, em Salvador. Com talento reconhecido nacionalmente, já participou de Malhação, da série Ó Paí Ó e de novelas como Pega Pega e Renascer. Em breve, brilhará na tela da Globo na nova versão de Vale Tudo. Também atuou como repórter do programa Minha Receita, da Band.
Professora graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Edvana tem forte atuação no movimento negro e em ações em prol dos direitos das mulheres. Entre suas inspirações estão talentos baianos como Negra Jô, as mulheres do Bando de Teatro Olodum, do Balé Folclórico da Bahia e a ministra Margareth Menezes.
“Além de minhas amigas e da minha filha, Luana, minha mãe me inspira muito. Ela me criou sozinha, com a ajuda das minhas tias. Venho de uma linhagem matriarcal de mulheres poderosas, independentes e fundamentais para a nossa cultura. Sou forjada por essas mulheres, e isso me impulsiona a buscar meu lugar no mundo e a contribuir com minha comunidade. Quando nosso feminino está curado, somos capazes de agregar, de desmistificar crenças, quebrar tabus e ajudar umas às outras”, ressalta.
Criada nos bairros da Liberdade e São Caetano, Edvana recorda que a cultura da sororidade sempre esteve presente em sua comunidade, aliviando a bagagem das múltiplas responsabilidades femininas. Ao longo de sua trajetória, encontrou diversas mulheres que a ajudaram a trilhar seu caminho na arte, como a professora Terezinha, fundadora do grupo de teatro no Colégio Educacional Luiz Pinto de Carvalho, e Sônia de Brito, que comandava o teatro do Sesc Senac.
Com forte ligação com a educação, a atriz utiliza seu conhecimento acadêmico para construir uma sociedade mais justa e igualitária.
“É muito político poder devolver à escola pública tudo o que recebi dela. Depois que fizemos Ó Paí, Ó, que virou filme, fomos descobertos nacionalmente pela televisão e pelo cinema. Muitos de nós seguimos fazendo cinema e novelas, mas nunca deixamos o teatro, que é nossa principal fonte de energia, de luta e de batalha. Sempre entendemos que a educação é fundamental para que as pessoas interajam com seu tempo e seu meio. Para todos nós, foi a educação que nos salvou. Por isso, seguimos levando adiante esse legado com muito esmero. O que pudermos fazer para contribuir, faremos”, conclui.
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