Economia & Mercado
por Vagner Ferreira
Publicado em 20/09/2025, às 06h00 - Atualizado às 07h25
Ao se deparar com o termo “Comércio”, é comum imaginar ruas cheias, um centro comercial e administrativo movimentado e negócios de todos os tipos para todos os lados. Entretanto, no bairro de Salvador que leva esse título, a realidade é bem diferente: sobram fachadas antigas, imóveis abandonados e um fluxo cada vez menor de pessoas. O nome, de fato, resiste, mas a rotina já não condiz tanto com o significado.
“De dia o bairro do Comércio já passa muita insegurança, mesmo com gente transitando. De noite, a situação é ainda pior porque têm as ruas internas que dão nas praças e aos prédios ao redor, que têm muita iluminação e fica tudo muito escuro. Lá tem também muitos moradores em situação de rua, muitas pessoas que a gente não conhece. Temos que atravessar duas a três pistas para ir para casa e ainda ficar esperando nos pontos de ônibus, que é muito tenso. Dá muito medo, a sensação de insegurança é bem forte”, contou ao BNews a operadora de telemarketing Cleiziélem Santos.
“Nas proximidades dos Correios e da Praça da Mãozinha, é complicado. Essa região é sempre citada como perigosa, tanto de dia quanto de noite. Quem vai pegar ônibus lá, prefere ir em grupo”, continua ela. “Além das noites, os fins de semana também são tomados pelo silêncio, marcado pelo vazio e pela sensação de insegurança”, acrescentou.
A equipe do BNews entrou em contato com a Polícia Militar (PM) para saber como funciona o sistema de segurança no local. “O policiamento no bairro é realizado pela 16ª CIPM, que desenvolve ações diuturnas de patrulhamento em toda a região. A companhia recebe o apoio de equipes da CIPT/Rondesp BTS e de unidades convencionais e especializadas da Polícia Militar, como o Batalhão de Patrulhamento Turístico (BPTur). A corporação destaca a importância do acionamento pelo 190 sempre que o cidadão se deparar com algo que fuja à normalidade”, comunicou a corporação ao BNews, em nota.
“De igual modo, ressaltamos que as ações de combate a furtos e roubos perpassam a identificação e a responsabilização das pessoas que atuam em tais crimes ou receptam o material subtraído”, prosseguiu.
O contato também foi feito com a Defesa Civil (Codesal) para saber se há uma relação com os principais imóveis abandonados, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.
Imóveis abandonados
A arquiteta e urbanista, Nykacia Santos, por sua vez, ressaltou que esse abandono é mais evidente nas ruas internas do Comércio, onde há uma circulação significativamente menor de pessoas.
Entre os principais riscos urbanos citados por ela, estão a desvalorização do patrimônio histórico, o aumento da insegurança pública, a presença crescente de população em situação de rua sem o devido suporte, o risco de desabamento de estruturas antigas e a consequente perda do potencial turístico.
Frequentadora diária do Comércio, Cleiziélem destacou que o abandono dos prédios e dos casarões deixam reflexões em quem passa pelo local. “Quando a gente visualiza aqueles casarões vazios, fica pensando: ‘Poxa, será que mora a gente ali aqueles casarões tão abandonados, tão mal cuidados, e que não vê o cuidado e a preocupação de nenhum meio? É a nossa história. É a história de Salvador que está sendo destruída”, indaga.
Mudança de rota
Nykacia aponta que um dos motivos para o abandono do bairro foi a transferência gradual do centro de atividades para outras áreas da cidade, especialmente para a região do Iguatemi e, depois, para o Caminho das Árvores e o Centro Administrativo da Bahia - CAB.
“Esse deslocamento não aconteceu à toa: houve uma escolha política e urbana de concentrar investimentos, órgãos públicos e centros comerciais em regiões mais modernas e com maior facilidade de acesso viário, o que acabou enfraquecendo o Comércio. Além disso, a falta de manutenção e de políticas de preservação da área histórica contribuíram para a perda da vitalidade do bairro”, descreveu a urbanista.
A profissional afirmou que esse movimento levou a uma migração natural de pessoas e serviços. “Quando os órgãos públicos e as empresas saíram do Comércio, o fluxo diário de trabalhadores, consumidores e visitantes diminuiu drasticamente. Isso afetou não apenas a economia local, como lojas, restaurantes e demais serviços, mas também a dimensão social, porque menos circulação de pessoas gera insegurança, abandono e o aumento de imóveis vazios. Em resumo, quando a vida urbana se desloca, o bairro perde sua função de polo ativo da cidade”, descreveu.
O que deve ser feito?
A urbanista recomenda alguns caminhos para reverter esse déficit, como o reaproveitamento dos espaços abandonados para a utilização de moradias, ambientes corporativos, instituições culturais e órgãos públicos.
“É fundamental investir em atrativos que tragam movimento também no período noturno, como cinemas, teatros, centros culturais, praças ativas e até mesmo empreendimentos como um shopping de porte médio. O Comércio tem um potencial enorme porque reúne história, arquitetura e uma das vistas mais bonitas da Baía de Todos-os-Santos, e esse cenário pode ser explorado de forma integrada com a vida urbana, para que o bairro volte a ser um lugar vivido e não apenas de passagem”, sugere.
Ela ressalta também que a revitalização só será completa se considerar a população em situação de rua, que atualmente ocupa parte do território. Ainda, defende a criação de centros de acolhimento no próprio bairro, com oferta de moradia temporária, capacitação profissional e atendimento em saúde. Outra estratégia, segundo a urbanista, é a de inclusão dessas pessoas em programas de trabalho vinculados à própria revitalização, como serviços de manutenção urbana, jardinagem ou iniciativas ligadas à cultura local.
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