Economia & Mercado
por Verônica Macedo
Publicado em 17/04/2025, às 15h12 - Atualizado às 15h19
O diretor da Rosatom América Latina, Ivan Dybov, empresa estatal russa que atua na geração de tecnologia nuclear, produção de urânio e isótopos para atuação no campo da medicina, esteve em Salvador, onde participou do International Brazil Energy Meeting (iBEM 2025), um dos maiores eventos do setor energético na América Latina.
O executivo da gigante empresarial que já atua no Brasil desde 2015 e possui escritório no Rio de Janeiro, deseja expandir os negócios da companhia na América Latina e o foco agora é a Bahia. Como a cooperação entre Rússia e Brasil na área de tecnologia nuclear começou já nos anos de 1970 e está faltando apenas oito meses para a realização da COP30 – 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes), o tema é mais do que pertinente, uma vez que Dybov discute com as esferas governamentais do estado a possibilidade de usar pequenos reatores nucleares para fornecer energia limpa e sustentável para data centers, em resposta à crise climática que o planeta Terra vive.
Em entrevista concedida ao site BNews, Ivan Dybov respondeu importantes questionamentos relacionados a investimentos, empregabilidade, segurança, sustentabilidade e ao interesse pela instalação de uma unidade da empresa na Amazônia. Confira a matéria, em formato ping pong, a seguir:
Site BNews (SBN) – No Ibem, o senhor, representando a estatal russa, apresentou seus pequenos reatores nucleares, denominados os SMR, para cerca de 3.000 participantes de mais de 25 países. O que estes dispositivos tecnológicos são especificamente e como funcionam?
Ivan Dybov (ID) – Os pequenos reatores modulares (SMRs) estão se consolidando como uma solução estratégica capaz de ajudar na crise dos data centers. Esses reatores oferecem fornecimento contínuo, seguro e sustentável de energia, com previsibilidade de custos, alta confiabilidade e estabilidade no suprimento elétrico. Além disso, os SMRs representam uma alternativa eficiente para regiões remotas e com infraestrutura limitada, como áreas isoladas da Amazônia. O sistema modular e a instalação compacta permitem o abastecimento de indústrias de alta demanda e comunidades distantes, apoiando o desenvolvimento regional e a redução de emissões. A tecnologia está pronta para atender à demanda crescente por energia confiável em ambientes críticos, como data centers, onde estabilidade e segurança são essenciais.
(SBN) – De que forma essa tecnologia pode auxiliar no combate à crise climática mundial?
ID – A Rosatom tem vasta experiência no desenvolvimento de soluções flutuantes baseadas em SMRs, ideais para operações offshore de petróleo e gás, além do fornecimento de energia para comunidades ribeirinhas e áreas de difícil acesso. Essas tecnologias ampliam as possibilidades de geração limpa e confiável, contribuindo para a segurança energética e o desenvolvimento sustentável. A presença da Rosatom no iBEM 2025 reforça seu papel como líder global em energia nuclear e parceira estratégica para o futuro energético do Brasil e da América Latina.
(SBN) – Existe demanda e infraestrutura no Brasil para instalação e expansão desse mercado?
ID – Nos últimos meses, os data centers – infraestruturas críticas que armazenam, processam e distribuem dados para serviços essenciais como inteligência artificial, streaming e comércio digital – ganharam destaque ao expor um desafio urgente para o Brasil: o alto consumo de energia. O setor de data centers no país já consome o equivalente ao gasto energético de todo o Estado de Tocantins. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo global de energia em data centers pode ultrapassar 1.050 TWh até 2026, comparável ao consumo anual do Brasil.
O aumento exponencial dessa demanda específica por energia pode levar a um colapso na infraestrutura elétrica. Mas como enfrentar esse cenário, sem afetar o desenvolvimento de tecnologias de ponta, como inteligência artificial e big data, que exigem infraestrutura robustas e operantes 24 horas por dia. Nós somos uma dessas soluções.
A integração de reatores modulares pequenos, os SMR, aos data centers, forneceria energia de forma ininterrupta, com previsibilidade de custos e possibilidade de expansão modular da capacidade de fornecimento. Um exemplo prático dessa integração é o Data Center de Kalinin, na Rússia, que recebe energia diretamente da usina nuclear local, para suprir a demanda computacional. “Reatores modulares pequenos, os SMRs, oferecem fornecimento estável e sustentável para acompanhar o crescimento acelerado do setor”, conclui.

Data Center de Kalinin, na Rússia, abastecido por energia nuclear
(SBN) – No contexto brasileiro, a energia nuclear é uma alternativa viável?
ID – Hoje, a Rosatom tem tecnologia para instalar plataformas de SMRs terrestres ou flutuantes, capazes de levar energia elétrica a locais remotos ou de difícil acesso. Gigantes da tecnologia, como Amazon e Microsoft, têm investido em parcerias com usinas nucleares nos Estados Unidos para garantir fontes de energia estáveis e sustentáveis para suas operações.
A Amazon assinou três acordos com usinas nucleares para sustentar o Amazon Web Services (AWS), com investimentos de mais de US$ 500 milhões em SMR. A Microsoft fez um acordo inédito de 20 anos com a Constellation Energy, proprietária da usina nuclear Three Mile Island, para utilizar toda a geração da usina para abastecer seus data centers.
No contexto brasileiro, a energia nuclear é uma alternativa viável para sustentar o crescimento exponencial dos data centers, garantindo eficiência energética e alinhamento com as metas de redução de emissões de carbono.
(SBN) – A Rosatom já está dialogando com as esferas governamentais (Prefeitura e Governo da Bahia) no sentido de trazer esta tecnologia nuclear para Salvador?
ID – Temos alguma cooperação com Salvador, não na área de energia nuclear, mas na de medicina nuclear. A Rosatom fornece isótopos há quase 10 anos para a medicina nuclear no Brasil. Uma parte muito significativa dos tratamentos de câncer com radiofármacos realizados no país é feita com material vindo da Rússia. Temos um contrato de longo prazo com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), que recebe esses isótopos semanalmente e os distribui para todo o Brasil, incluindo Salvador. Então, de certa forma, já estamos inseridos nesse mercado e contribuindo com o país.
Isótopos são átomos do mesmo elemento químico que têm diferentes números de nêutrons, resultando em massas atômicas diversas. São importantes em diversas áreas, como a medicina, a arqueologia, a ecologia e a química ambiental.
Falando especificamente sobre energia nuclear: nossa principal atividade é a construção de usinas nucleares. A Rosatom detém, atualmente, cerca de 90% do mercado mundial de exportação de usinas. Já construímos 33 grandes unidades e seis peqeunos reatores modulares pequenos — os chamados SMRs (Small Modular Reactors). Fomos os primeiros a construir uma planta nuclear flutuante, que já fornece energia há mais de dois anos para uma cidade localizada no norte da Rússia.
(SBN) – E a Bahia tem potencial para implantação e funcionamento desses SMRs?
ID – A Bahia possui reservas importantes de minerais, incluindo urânio. A Agência Nacional de Mineração (ANM) e o governo federal estão desenvolvendo programas para a exploração dessas reservas, e temos interesse em participar desse processo, através, inclusive, de licitações.
Embora ainda não haja uma proposta específica para a construção de usinas nucleares na Bahia — até porque essa é uma decisão que cabe ao governo federal, dentro de um programa estratégico de desenvolvimento energético —, estamos totalmente prontos para cooperar. Seja na construção de grandes usinas, seja na implantação de usinas nucleares de pequeno porte, que funcionam melhor em sistemas isolados ou em projetos de mineração localizados em áreas remotas.
(SBN) – Dentro do escopo desse projeto que vocês almejam trazer para a Bahia estão contempladas questões essenciais para se negociar com as prefeituras locais e o Governo do estado, como geração de emprego e renda, capacitação de mão de obra, treinamento, criação de uma nova profissão voltada para o setor de energia nuclear e o impacto ambiental nas regiões selecionadas para se implantar as infraestruturas para o funcionamento e suporte dessas unidades energéticas?
ID – Sim, exatamente. Porque projetos como a construção de usinas nucleares geram um efeito multiplicador muito grande. Por exemplo, se você investe um dólar na planta, isso pode gerar cerca de 10 dólares em áreas como serviços, construção civil etc. Porque construir uma usina nuclear não é apenas erguer a planta em si. Você também terá profissionais qualificados, com bons salários. Isso faz com que o nível de vida da região melhore. Melhora porque se desenvolvem áreas como saúde, construção civil e até mesmo restaurantes.
E posso citar um exemplo muito bom aqui na América Latina. Temos um projeto de construção de um reator de pesquisa, um centro de pesquisa nuclear, na Bolívia. Quando começamos a construir lá, era praticamente nada, uma área pouco desenvolvida, quase deserta. Agora, eles têm prédios, têm uma boa infraestrutura, têm restaurantes, têm estradas. Então, mesmo a população, que inicialmente tinha algumas preocupações sobre construir esse centro ali, hoje, em sua maioria, apoia, porque realmente trouxe oportunidades.
(SBN) – Isso remete a outra questão importante: o impacto para a área da pesquisa, que tem sido tão desprestigiada. Isso pode gerar investimento em ciência e parcerias com universidades?
ID – Sim, isso é fundamental. Já temos cooperação com universidades brasileiras na medicina nuclear e na área energética, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de São Paulo (USP). Nossa principal universidade na Rússia é o Moscow Engineering Physics Institute (MEPhI), responsável por formar profissionais da indústria nuclear. O MEPhI[Moscow Engineering Physics Institute] tem parceria com a USP, realiza palestras conjuntas e intercâmbio de professores e alunos. Isso é muito importante.
(SBN) – Vamos falar sobre os reatores: como eles funcionam e qual a relação com a energia limpa? Estamos em ano de COP30, que será realizada pela primeira vez no Brasil — e na Amazônia — em Belém, no Pará. Como esse tema se conecta com esse momento?
ID – Primeiramente, todo mundo está falando sobre o desenvolvimento da economia e sobre inteligência artificial, por exemplo. Mas, para realizar todos esses projetos, é preciso energia — e muita energia. Especialmente para inteligência artificial. Então, para escolher as fontes dessa energia, mais e mais países estão buscando opções que não emitam CO₂, e a energia nuclear é uma delas. Além disso, ela opera de forma muito estável e não depende tanto do preço dos combustíveis.
Em termos de segurança, houve muita evolução. Aprendemos com a experiência de Chernobyl. Hoje, usamos outro tipo de reator, com sistemas de segurança passivos e ativos, o que torna esse tipo de acidente impossível de ocorrer. O Brasil também tem uma boa experiência com energia nuclear — as usinas Angra 1 e Angra 2 já operam há muitos anos, nunca houve incidentes graves, e elas fornecem uma parte significativa do consumo de energia do estado do Rio de Janeiro.
Esses dois aspectos são muito importantes. E tem mais: os reatores nucleares também funcionam muito bem em conjunto com outras fontes, como a energia solar e a eólica, que são fontes instáveis. Por exemplo, quando há vento, você tem produção de energia; quando não há, não tem. Então, os reatores garantem o equilíbrio do sistema. A Rosatom, inclusive, não só constrói plantas nucleares na Rússia como também é a maior empresa de energia eólica do país.
(SBN) – Qual é o tipo de mecanismo que esses reatores utilizam?
ID – Reatores nucleares são uma fonte de energia muito estável. Eles funcionam com a mesma capacidade, 24 horas por dia, sete dias por semana. Diferente de outras fontes, como a eólica, que têm picos e quedas de produção. Para o sistema nacional de energia, é fundamental ter uma base estável, porque isso facilita o desenvolvimento de outras fontes, como a solar e a eólica, mesmo que elas sejam instáveis.
SAB – Entendi. Então, eles garantem esse equilíbrio no sistema. Você também mencionou dois pontos muito sensíveis: segurança — que é sempre a primeira pergunta das pessoas — e também a questão do custo. A energia nuclear chega a ser mais barata do que outros tipos de energia, como a térmica? Se fosse possível estimar, ela seria, por exemplo, 30% mais barata, já que não depende da oscilação do preço do petróleo?
ID – Na verdade, tudo depende. No caso das usinas nucleares, é preciso investir bastante no início — é um investimento de capital intensivo. Você precisa construir a planta nuclear e, depois disso, ela opera por até 80 anos, produzindo energia. O único custo recorrente é a troca do combustível. Ou seja, você não depende tanto do preço do urânio ou de outras variações de mercado. Depois que a usina está pronta, os custos se tornam baixos e estáveis.
(SBN) – E ela poderia chegar a áreas remotas, ribeirinhas, como, por exemplo, as regiões da Amazônia? Vamos falar da Amazônia em período de Conferência do Clima. Isso também é um diferencial, é um benefício que outras tecnologias, de repente, não têm?
ID – Sim, eu acho que, realmente, isso pode ser uma opção de fornecimento de energia que pode ser discutida durante a COP. Se você acompanhar o que está acontecendo em outros países recentemente, a energia nuclear tem sido muito discutida. E a energia nuclear pode ajudar a atingir essas metas climáticas que muitos países já estabeleceram.
E se falamos sobre a Amazônia, sim — por exemplo, nós já temos uma planta nuclear flutuante que está funcionando em uma área remota da Rússia, fornecendo energia para uma cidade e para uma operação de mineração. Inclusive, já fizemos um estudo preliminar sobre a possibilidade de usar uma planta nuclear flutuante na Amazônia. Com certeza, precisamos trabalhar mais com pesquisadores brasileiros, mas achamos que pode ser uma boa opção para essa região. Porque você pode simplesmente levar essa planta, produzir energia ali, e, se for necessário fazer alguma manutenção ou troca de combustível, não precisa fazer isso lá. Você pode levar essa planta para outro lugar, para a fábrica, ou para algum outro local no país onde isso possa ser feito. E o impacto ambiental, nesse sentido, será mínimo… Sim, porque você não precisa cortar muitas árvores, só precisa de uma estrutura para conectar a planta e transmitir a energia.
(SBN) – Ou seja, não precisaria cortar árvores, a energia seria extraída da planta flutuante, sem extrativismo, sem grandes impactos.
ID – Sim, sim, exatamente. Você não precisa preparar uma área grande para construção, nem fazer todas as obras civis de um reator em terra. Mas, por exemplo, na região de Roraima, pode ser construída uma planta nuclear pequena, em terra, porque lá também consideramos que é uma área isolada. E esse tipo de projeto pode funcionar bem lá.
(SBN) – Então é possível?
ID – Sim, é possível, sim.
(SBN) – Vocês vão estar presentes na Conferência do Clima - COP30, levando todas essas sugestões? Vão participar representando a Rosatom?
ID – Sim. A Rosatom, com certeza, participa de todas as COPs. E já estamos nos preparando para participar da COP30. Eu acho que, com certeza, nossos especialistas vão estar presentes nas discussões. Normalmente, a Rosatom envia uma quantidade grande de pessoas que participam tanto do programa oficial quanto dos fóruns paralelos e das decisões. Então, sim, estaremos lá, apresentando nossas soluções e experiências para contribuir com os debates sobre a transição energética e o papel da energia nuclear nesse contexto.
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