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Mercado financeiro: Especialista comenta sobre alteração da nota de crédito do Brasil

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Especialista também fala sobre expectativas para os próximos meses  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Pixabay
Verônica Macedo

por Verônica Macedo

veronica.macedo@bnews.com.br

Publicado em 03/10/2024, às 15h49 - Atualizado às 15h53



A agência de classificação de risco Moody’s elevou nesta quarta-feira (2) a nota de crédito de empresas brasileiras. Antes de exolicar o que isso significa, para que se possa entendr melhor, vale salientar que a Moody's Corporation, muitas vezes referida como Moody's, é uma empresa americana de serviços financeiros e de negócios. É a holding da Moody's Investors Service (MIS), uma agência de classificação de crédito americana, e da Moody's Analytics (MA), uma fornecedora americana de software e serviços de análise financeira.

Em entrevista para o BNews, Thiago Zanetoni, especialista em investimentos da WIT Invest explica, através de um bate bola, o porquê e as consequências dessa alteração.

Pergunta (P) - Quais são os principais fatores que levaram a Moody's a alterar a perspectiva da nota de crédito do Brasil de "estável" para "positiva”? Como essa mudança de perspectiva pode impactar a confiança dos investidores internacionais no Brasil?

Resposta (R) - Sobre essa melhora que teve na perspectiva da Moody’s, que aumentou a nota, é positivo para o Brasil, porque estamos muito próximos de alcançar o grau de investidor. Quando um país consegue ter grau de investidor, ele consegue que certos fundos que não poderiam investir nele, devido ao seu "rating" ser baixo, passem a investir. Então isso atrairia capital estrangeiro, principalmente. É uma notícia pouco relevante para o local, mas muito relevante para o estrangeiro.

P - Moody's elevou a nota de crédito para Brasil. Por que você acredita que houve esse fato, apesar de o receio da questão fiscal? 

R - Essa é a questão, por quê? Eu penso que na visão dessa agência, o Brasil vai conseguir ter um crescimento x e que a trajetória nessa relação dívida-PIB, onde existe esse receio fiscal, cresça ou que pelo menos se equilibre. Apesar de não ser essa a visão da maioria dos gestores e economistas do Brasil, não é tão positiva. 

P - Comente o relatório ADP tbm, o Jolts report, com empregos nos EUA melhores do que o esperado e como este cenário pode favorecer ainda mais o corte de 0,25 dos juros ou ainda tem espaço para apostar em 0,50? 

R - Com relação ao corte de juros nos Estados Unidos, já está começando a entrar no preço que vão ser três cortes de 0,50. O primeiro foi 0,50, e podendo ter mais dois de 0,50. E já que a inflação é uma página virada nos Estados Unidos, devem ser a partir de agora realizados todos os esforços para se conseguir reequilibrar o mercado de trabalho. Isso impede que eles tenham uma recessão. Então, muito provavelmente, vai ser na sexta-feira (4) a principal informação sobre como está o mercado de trabalho por lá. Mas deve indicar que o próximo corte de juros pode ser na mesma magnitude que foi o último, de 0,5%.

P - Como as taxas de juros americanas podem afetar o Ibovespa?

R - Quando você tem juros americanos caindo, o custo de oportunidade do estrangeiro de ficar com dinheiro investido em tesouro americano ou em renda fixa americana é menos interessante, então eles passam a tomar risco. Vão procurar tomar risco em locais onde eles consigam encontrar preços descontados, com ambiente macroeconômico. Não precisa estar nem às mil maravilhas, mas tem que estar ok. E o Brasil pode capturar, junto com a melhora na nota de crédito, dois pontos positivos. 

Entretanto, o Brasil não pode estragar isso, não pode tornar o nosso mercado investível. Toda vez que teve corte de juros lá nos Estados Unidos, a bolsa brasileira andou muito bem.

P - Como o cenário político no Brasil está afetando a confiança dos investidores e o comportamento do mercado financeiro?

R - É complexo, é bastante denso, mas, em todo caso, o governo tem indicado pouco compromisso com relação ao lado de despesas. Nós tivemos, inclusive, semana passada, no relatório, que não só não houve contingenciamento, ou seja, o governo, sabendo que tem um déficit para ser entregue este ano, ele não entregou com prisão de contingenciamento, como também descontingenciou, ele aumentou a despesa. 

Além disso, muitas coisas têm sido tiradas do lado, por exemplo, de despesas. Nós temos os programas Vale Gás e Pé-de-Meia, que são mais recentes, e haviam sido tirados de despesa primária pelo governo, para dar um jeito de não pesar muito nessa conta. Apesar disso, falaram de voltar atrás. 

Vamos ver como será, mas afeta diretamente porque o Brasil pode ter economia sob controle. Vamos falar do ponto de vista da inflação, que não está descontrolada como estava em outros tempos, mas, dessa vez, aumentando o prêmio de risco. Com o país que, ano após ano, vai estourando cada vez mais os gastos que ele tem, eu vou tendo cada vez mais pedido de prêmio de risco. Isso significa que cada vez mais o juro do Brasil tem que ser maior por esse motivo.

P - Como os conflitos geopolíticos estão influenciando o mercado financeiro global? De que forma os investidores podem se proteger? Quais setores da economia estão mais promissores neste momento e por quê?

R - Depende muito da escala que for. Se, de repente, essa escala for mais regionalizada ali, fronteira de Israel, norte e sul, sul com Gaza e norte com Líbano, com Hezbollah e uma participação mais secundária do Irã, a gente deve ter um estresse muito pontual e particular com a comodidade do petróleo. Nas demais não tanto. 

O mercado não deve projetar nenhum choque relevante com relação à inflação global. Mas se começar a ter um envolvimento maior do Irã e dos Estados Unidos ou alguma coisa nesse sentido, pode ser que o humor mude. Em todo caso, o foco deve ficar em empresas de petróleo, dependendo da própria commodity. O conflito afeta a cadeia de produção, para afetar a cadeia de produção precisa existir uma menor oferta e se tem menor oferta o preço vai subir consequentemente.

P - Com as mudanças nas taxas de juros e a queda do dólar, como os investidores devem ajustar suas carteiras de investimentos?

R - Primeiro: maior juro real do mundo. Segundo: geralmente é um diferencial de juros que acaba atraindo capital estrangeiro. Dessa forma, o que ele quer conseguir ganhar com isso? Ele quer ter uma boa remuneração nesse juro mais alto que a gente vai oferecer e, com isso, maior entrada de moeda estrangeira. A gente vai ter o real se valorizando, ou seja, o dólar caindo frente ao real.

Isso influencia positivamente, porque, a longo prazo, é mais um motivo para controlar a inflação, onde eu vou ter dólar em baixa ou tendência de baixa. O governo e o fiscal brasileiro só não podem estragar demais ou piorar, para a gente conseguir surfar essa onda. Em outros momentos que o Brasil teve diferencial de juros maiores, foi positivo para a moeda. Sendo positivo para a moeda, acabou também sendo positivo, consequentemente, para a inflação e para juros longos, influenciando positivamente na Bolsa. 

P - Como você avalia o desempenho financeiro da Petrobras, considerando os resultados divulgados recentemente?

R - Com relação a commodities, a gente tem a China aumentando os incentivos, colocando mais dinheiro na economia. Existem várias maneiras deles fazerem esse movimento, mas, entre outras coisas, eles estão tirando algumas travas que as pessoas ou que as empresas tinham para investir em imóveis por lá e, com isso, vai refletir positivamente com novas construções e mais infraestrutura. A gente tem só que conseguir enxergar qual é o tamanho do conflito, quem vai estar envolvido, duração e tudo mais.

P - Qual a sua visão geral e expectativas para as commodities, tendo em vista a guerra no oriente e as queimadas no Brasil?

R - Não afetou muito a soja. Vamos pegar aqui a commodity relevante que a gente tem. Apesar de ser o etanol, não é uma commodity tão relevante para o resto do mundo. Então, sim, o interior de São Paulo é fortemente impactado. 

Com relação a essas queimadas, a tendência de soja veio sendo baixista o ano inteiro. Ela é muito mais dependente de como vai ser quebra de safra, muito mais global até do que num único país, porque como tem muito país na produção, quase sempre uma quebra de safra no Brasil pode ser suprida pela Argentina, Estados Unidos, etc. Então é difícil ter escassez dela em si. No entanto, uma China mais movimentada poderia puxar o preço da commodity por aumento de demanda.

É complexo falar, mas também não dá para dizer que queimada afetou muito commodity para a gente, porque digamos que as commodities que mais são relevantes para o Brasil, que são soja e petróleo, não necessariamente foram muito afetadas. 

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