Economia & Mercado
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria bancado viagens internacionais, jantares e outros gastos de dois servidores do Banco Central acusados pela Polícia Federal (PF) de atuar em favor do Banco Master.
As informações constam em relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e tornados públicos na noite desta quinta-feira (10). O ministro André Mendonça acatou a determinação do presidente da Corte, Edson Fachin, e levantou o sigilo dos processos relacionados às investigações do caso Master.
Ao todo, são 15 processos: dois inquéritos, uma reclamação e 12 petições. Segundo a decisão de Fachin, apenas as diligências em que o sigilo for “imprescindível” permanecerão protegidas. Os documentos já começaram a ser disponibilizados.
Segundo a investigação, Vorcaro teria custeado parte de uma viagem do ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central Belline Santana e da esposa para Paris, além de despesas relacionadas a uma viagem do ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e da família para a Disney, nos Estados Unidos.
De acordo com a PF, Vorcaro teria organizado a viagem de Belline e da esposa para Paris. O ex-banqueiro teria tratado diretamente com prestadores de serviços no exterior sobre reservas em restaurantes, recepção e logística.
"Tratou diretamente com prestadores de serviços no exterior sobre reservas de restaurantes, recepção e logística, chegando inclusive a encaminhar o contato pessoal do servidor para que a programação fosse finalizada", diz a PF.
As mensagens analisadas pela investigação mostram Vorcaro orientando duas pessoas a organizar um jantar no restaurante Lapérouse e um almoço no restaurante Loulou.
"Uma indicação de que os eventos seriam pagos por Vorcaro é o fato de ele indicar que deveriam ser pedidos nos restaurantes bons vinhos e comida", afirma o relatório policial.
Belline e a esposa viajaram a Paris no período indicado pelas mensagens, mas o documento não aponta outras despesas que teriam sido pagas por Vorcaro nem informa valores.
A defesa de Belline foi procurada na madrugada desta sexta-feira (11), mas não respondeu até a publicação da reportagem.
No caso de Paulo Sérgio, a PF afirma ter identificado elementos que apontariam para o custeio de uma viagem internacional dele e da família para a Disney.
A defesa do servidor afirmou que Paulo Sérgio pagou integralmente as passagens, a hospedagem, os ingressos, a compra de moeda estrangeira e as despesas realizadas com cartões de crédito durante a viagem. Segundo os advogados, a origem dos recursos pode ser comprovada por documentos.
A defesa também afirmou que a viagem já estava programada para as férias escolares de janeiro e fevereiro de 2024 e que Vorcaro tomou conhecimento dela durante o agendamento de uma reunião entre o Banco Central e a instituição supervisionada.
Segundo os advogados, apenas no dia do embarque Vorcaro ofereceu a Paulo Sérgio uma vaga remanescente em um pacote de acesso prioritário aos parques da Disney e da Universal.
Paulo Sérgio teria aceitado a oferta mediante o pagamento de US$ 8.000 em espécie, nos Estados Unidos, a uma pessoa indicada por Vorcaro.
A defesa afirmou ainda que o servidor desconhecia eventual pagamento de US$ 38 mil feito pelo ex-banqueiro ao agente de viagens Leonardo Giunchetti e que não participou, autorizou ou presenciou essa transação.
A PF afirma ainda que Belline Santana receberia R$ 500 mil por mês do Banco Master. Documentos anexados ao processo mostram comprovantes de repasses que totalizam R$ 3,8 milhões.
Segundo a polícia, os pagamentos teriam como objetivo favorecer o Banco Master. O servidor e os responsáveis pelos repasses, porém, afirmaram que os valores eram destinados a um programa de treinamento financeiro de jovens.
Em manifestação anterior à Folha, o advogado de Belline, Leonardo Palazzi, afirmou que o depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, confirmou a atuação funcional e institucional do cliente, inclusive na interlocução com a Polícia Federal sobre possíveis ilícitos envolvendo o Master.
A defesa afirmou que Belline adotou as providências necessárias e negou que Vorcaro tivesse exercido influência sobre o servidor.
PF aponta atuação em favor do Master
No relatório, a Polícia Federal afirma que as informações obtidas indicam que os dois servidores do Banco Central "atuaram de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados" de Vorcaro, "extrapolando de maneira significativa, ao que tudo indica, os limites de suas atribuições funcionais no BCB".
"Ambos passaram a oferecer orientação técnica reiterada, revisar minutas de documentos destinados ao próprio BCB, repassar possíveis informações internas de caráter sensível (ou mesmo sigiloso) e participar de reuniões extraoficiais nas quais eram alinhadas estratégias privadas voltadas ao atendimento dos interesses do conglomerado Master", diz a PF no documento.
Sigilo foi levantado
Na quinta-feira (10), André Mendonça determinou o fim do sigilo de parte dos documentos relacionados ao Banco Master, seguindo determinação do presidente do STF, ministro Edson Fachin.
Segundo Fachin, a medida faz parte da organização da sessão prevista para terça-feira (15), quando o plenário deve analisar o relatório da PF que aponta o ministro Alexandre de Moraes como interlocutor de Daniel Vorcaro, além do pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para anular o documento.
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