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‘Seita’ na Cacau Show: Ex-franqueado de Salvador revela clima de medo e perseguição contra quem discordar da empresa e de CEO

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Franqueados da Cacau Show relatam perseguição e "seita"  |   Bnews - Divulgação Foto / Divulgação
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 31/05/2025, às 17h03 - Atualizado às 17h13



Franqueados da Cacau Show, a maior rede de franquias de chocolates do Brasil com mais de 4 mil unidades, resolveram procurar vários veículos de imprensa na última semana para relatar um ambiente interno comparado a uma "seita", com eventos motivacionais intensos e pouca abertura para discussão de contratos e políticas da empresa.

As denúncias incluem retaliações àqueles que questionam as normas, comandadas em grande parte pelo fundador e CEO, Alexandre Tadeu da Costa, conhecido como Alê Costa. O BNews ouviu pelo menos dois franqueados, que confirmam as alegações, e um deles decidiu falar.

Denúncias e retaliações

De acordo com relatos dos franqueados, ao contrário da imagem positiva divulgada por Alê Costa, a realidade de muitos é marcada por perseguições após reclamações sobre cobranças ou alterações nos preços dos produtos.

Alê Costa é fundador e CEO da Cacau Show. (Foto: Divulgação)

Entre as formas de retaliação estariam o envio de chocolates próximos da data de validade e produtos de baixa saída, dificultando a operação das franquias e levando ao fechamento de lojas.

Ex-franqueado de Salvador também faz denúncia

Um ex-franqueado da Cacau Show em Salvador relatou ao BNews, em condição de anonimato, uma série de práticas consideradas abusivas por parte da franqueadora. Ele destaca a falta de autonomia, pressão financeira e ausência de diálogo com os parceiros da marca.

Segundo o relato, os franqueados eram obrigados a receber produtos determinados pela própria Cacau Show, mesmo quando não havia demanda nas lojas. “Recebíamos mercadorias sem saída, muitas vezes com prazo de validade de apenas 30 dias, e não podíamos recusar”, afirmou.

Além disso, decisões importantes eram comunicadas em transmissões ao vivo, sem espaço para questionamentos ou participação dos franqueados.

Durante os três anos de contrato obrigatório — período em que a rescisão implicaria multa —, o ex-franqueado afirma que não obteve lucro. “A margem é muito pequena e a todo momento surgem novos custos, como a obrigação de pagar bônus às vendedoras, mesmo sem lucro, e taxas extras - como a chamada ‘taxa de cacau’ devido ao aumento do preço da fruta”, explicou.

Funcionários também reclamam

Além dos franqueados, funcionários da sede da Cacau Show também denunciaram práticas abusivas, como a participação obrigatória em rituais conduzidos pelo CEO, que incluiriam vestir-se de branco, entrar em salas escuras iluminadas por velas e entoar cânticos. De acordo com o jornal Folha de São Paulo, aqueles que questionam ou não demonstram entusiasmo com essas práticas correriam o risco de perseguição profissional. 

Fábrica da Cacau Show fica às margens da Rodovia Castelo Branco, sentido interior, em São Paulo (Capital). (Foto: Divulgação)

Sobre esses eventos motivacionais promovidos pela marca, o ex-franqueado contou ao BNews que era obrigado a participar anualmente, custeando todas as despesas. “Os encontros serviam para exaltar a marca e o presidente Alexandre e que a Cacau show era a melhor coisa do mundo, mas nos bastidores a maioria só reclamava. O atendimento às demandas dos franqueados era desorganizado e, ao apontarmos erros em cobranças ou entregas, raramente tínhamos retorno adequado", conta. 

Segundo o Metrópoles, denúncias de assédio moral, gordofobia, homofobia e humilhações públicas foram protocoladas no Ministério Público do Trabalho (MPT).

Fiscalização e barreiras judiciais

A fiscalização constante também foi alvo de críticas. “Somos monitorados o tempo todo, com auditorias e visitas de ‘cliente oculto’. Qualquer desconformidade resulta em penalização”, relatou o ex-franqueado de Salvador.

Ele ainda criticou a política de expansão adotada a partir de 2021, que eliminou a exclusividade territorial e resultou na abertura de lojas próximas umas das outras, prejudicando o faturamento dos pontos já existentes.

Outro ponto mencionado diz respeito à obrigatoriedade de pagamento à vista na compra de produtos, após a retirada de crédito pela franqueadora: “Se deixássemos de pagar qualquer boleto, eles executavam o valor da garantia depositada em banco e suspendiam as entregas. Toda a estrutura é feita para blindar a Cacau Show de prejuízos, transferindo todos os riscos ao franqueado.”

Questionado sobre a possibilidade de ingressar com ação judicial contra a Cacau Show, o baiano explicou que a empresa exige a assinatura de um aditivo de opção por arbitragem, um procedimento extrajudicial. “Quando se assina esse termo de opção por arbitragem, a gente não pode entrar com uma ação judicial. Porém, a arbitragem que eles impõem é em São Paulo, tem um valor elevadíssimo e é sigilosa”, relatou. 

Ele afirmou ter pesquisado sobre o tema e constatou que processos judiciais estavam sendo arquivados devido à escolha pela arbitragem. “Eles fazem isso exatamente para impedir o franqueado de entrar com ações ou mesmo a arbitragem, porque de fato é muito cara. Fora o sigilo. Ou seja, mesmo que na arbitragem eles percam, a sentença arbitral é sigilosa e ninguém fica sabendo.”

Ao decidir encerrar as atividades, o ex-franqueado relata que enfrentou dificuldades para concluir o processo. “Mesmo seguindo todos os procedimentos previstos em contrato, demoraram meses para autorizar o encerramento, continuaram enviando mercadorias após o pedido de suspensão e atrasaram a devolução do valor em garantia.”

Ações na Justiça e "Doce Amargura"

A Cacau Show enfrenta processos judiciais por cobranças indevidas e falhas no fornecimento adequado de produtos às lojas franqueadas. Um processo na 25ª Vara Cível de Brasília destacou que a política de retirar crédito de franqueados que movem ações judiciais contra a empresa é uma prática institucionalizada e prevista em contrato, caracterizada pelo juiz Julio Roberto dos Reis como "mero revanchismo" e uma afronta ao princípio constitucional da liberdade profissional.

Insatisfeitos, franqueados criaram um perfil anônimo em uma rede social chamado "Doce Amargura" para compartilhar seus relatos. A responsável pela página, que ainda é franqueada e teme represálias, relatou ter recebido uma visita do vice-presidente da Cacau Show, Túlio Freitas, em sua loja no interior de São Paulo, a mais de 600 km da sede da empresa.

Segundo ela, Freitas teria perguntado "o que era preciso" para que ela parasse com as publicações. A franqueada busca agora a rescisão judicial de seu contrato. Muitos franqueados relatam dificuldades para encerrar os contratos sem assumir dívidas elevadas ou perder bens dados em garantia.

Posicionamento da Cacau Show

Em nota, a Cacau Show afirmou que "não reconhece as alegações apresentadas pelo perfil Doce Amargura em redes sociais". A empresa declarou ser "uma marca construída com base na confiança mútua, no respeito e na conexão genuína com nossos franqueados", prezando por "relações próximas, transparentes e sempre pautadas pelo diálogo".

Sobre a visita de Túlio Freitas, a empresa informou que faz parte de suas atribuições como diretor comercial visitar lojas para fortalecer o relacionamento com os franqueados e entender as necessidades do negócio, sem qualquer relação com o perfil de denúncias: "A Cacau Show concluiu afirmando não compactuar com condutas que contrariem seus valores e que segue firme em seu propósito de "tocar a vida das pessoas, compartilhando momentos especiais".

Alexandre Tadeu da Costa não foi encontrado pelo BNews para comentar o caso. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada caso algum posicionamento seja enviado.

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