Entretenimento

Advogado rebate fala de Zé Cocá sobre São João: "Se continuar tendo emenda parlamentar não vai mudar nada"

Divulgação/Prefeitura de Jequié
Zé Cocá disse que os cachês da bandas estão muitos altos o que pode inviabilizar as festas  |   Bnews - Divulgação Divulgação/Prefeitura de Jequié
Bernardo Rego

por Bernardo Rego

Publicado em 04/02/2026, às 15h59



As festas que acontecem na Bahia, mais especialmente o São João, viraram alvo de polêmica após uma fala do prefeito de Jequié, Zé Cocá (PP), onde disse que as festas juninas devem acabar por conta dos valores exorbitantes cobrados pelas bandas.

Segundo Cocá, os municípios não terão condições financeiras de arcar com essas despesas. “O São João começou com um custo e hoje está dez vezes mais caro do que há cinco ou seis anos”, disse.

“Municípios de pequeno porte não terão condições de pagar. No embalo que está, daqui a três anos, município nenhum baiano conseguirá ter condições de realizar a festa. Um exemplo é o São João nosso que vai aumentar de R$5 milhões, se for na mesma média que foi ano passado, vai para R$15 milhões. Nem Jequié, que é de médio porte, tem condição”, acrescentou.

Pensando nesse cenário, o Bnews ouviu pessoas ligadas ao setor de entretenimento com o objetivo de sentir como está a realidade e se realmente os festejos estão ameaçados por conta dos altos cachês.

Para o advogado Paulo Aguiar, que atua no ramo da música, os cachês dispararam de preço e tem sido "totalmente desproporcional o que está sendo cobrado". Mas, na opinião dele, o São João e as festas de grande porte só serão afetadas se acabarem as emendas parlamentares.

"Eu acho que o São João vai ser impactado se não tiver em emenda parlamentar. Todo mundo sabe que hoje Carnaval, São João, a grande maioria das festas populares, elas são baseadas emenda parlamentar. Se não tiver emenda, eu acho que vai prejudicar, de fato, a realização de grandes eventos públicos, né? Agora, se continuar tendo emenda não vai mudar nada. Acho que os cachês tendem ainda a aumentar cada vez mais", esclareceu.

"Eu acho que muitas vezes o ente público também deixa de valorizar os artistas da Terra para fazer contratações nacionais que às vezes não tem nada a ver com o período", acrescentou o advogado ao alertar que muitas vezes também existe contratações que são desproporcionais com a identidade da região.

"Eu acho que tem muito dinheiro, tem muita venda para poder ser melhor aproveitada do que vem sendo nesses períodos", pontuou o Paulo. O advogado também chamou a atenção para as prefeituras que têm contratado grandes atrações, gratuitas para o público, acabando assim com as festas privadas.

"Hoje os municípios contratam esses grandes artistas e botam na praça pública, ou seja, ninguém mais vai fazer um, ninguém vai comprar mais pra ir numa festa privada, ou seja, as emendas conseguiram também acabar com as festas privadas, os empresários hoje não tem mais para onde recorrer", afirmou Paulo ao Bnews.

Outra questão pontuada pelo advogado são as queixas dos músicos e técnicos que fazem o show acontecer. Segundo Paulo, há alguns problemas para recebimento dos cachês, muitas vezes impactado pelas empresas que fazem a intermediação, mas o músico não tem muito para onde recorrer porque, se acionar a Justiça, acaba ficando mal visto no mercado e não vai poder mais tocar.

"Se ele colocar na justiça sabe que vai ser a última vez que vai trabalhar. É a grande realidade. Botou na justiça não trabalha mais", disparou o advogado.

Quem também conversou com a equipe do Bnews foi Jorge Mancha, que atua como roadie (profissional que participa da montagem e desmontagem do palco, posicionamento e afinação dos instrumentos, testes de som). Ele contou que cidades pequenas investem muito dinheiro para trazer artistas grandes e acaba tirando um músico local que custa R$ 20 mil e vive daquilo. "A gente vive ainda sendo escravocrata da cultura, porque só quem ganha são as grandes empresas que estão na ponta", argumentou.

O produtor Adhemar Niti, que atua na produção de eventos há muitos anos, disse que o mercado do entretenimento "está mais exigente e os custos operacionais dispararam".

"Em 2025, notamos inclusive uma redução na oferta de 'megaeventos', pois a conta tornou-se arriscada. O produtor hoje prioriza a viabilidade financeira sobre o tamanho do espetáculo. Como reflexo, houve uma migração natural para eventos de menor porte, que oferecem maior segurança de retorno e controle de gestão, pois tem se mostrado mais viável", argumentou o produtor.

Niti também defende que haja um incentivo na qualificação técnica de quem produz shows, eventos, para que todos possam angariar recursos dos entes públicos e poder produzir coisas de boa qualidade.

"Mais do que criar incentivos, o poder público precisa investir na capacitação dos agentes culturais e simplificar a burocracia, garantindo que o recurso chegue na ponta com fiscalização adequada. A reestruturação só acontecerá quando tratarmos o entretenimento como indústria, valorizando toda a cadeia produtiva e não apenas o artista no palco", chamou atenção.

Niti comentou a declaração do prefeito de Jequié sobre a alta dos cachês e que isso pode inviabilizar as festas de São João na Bahia. "A declaração reflete uma crise matemática real, mas não necessariamente o fim da festa. O erro está em achar que o sucesso do evento depende apenas de 'megashows'. O público busca a experiência completa: segurança, conforto, organização e cultura. É plenamente possível realizar um São João de alta qualidade investindo em artistas regionais e infraestrutura impecável. Soluções como consórcios intermunicipais para dividir custos logísticos e curadoria inteligente permitem equilibrar as contas sem sacrificar a tradição. As prefeituras precisam ter responsabilidade fiscal e entender que uma festa boa é aquela que diverte o povo e não quebra o município", concluiu.

Clique aqui e se inscreva no canal do BNews no YouTube!

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp Google News Bnews


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)