Entretenimento
por Alex Torres
Publicado em 20/02/2026, às 11h29 - Atualizado às 11h49
A polêmica com a cantora Daniela Mercury sobre a ordem dos trios do Carnaval de Salvador foi um dos temas mais comentados durante os dias da folia soteropolitana. A 'Rainha do Axé' reivindica o direito de abrir os desfiles sob argumento de ser a artista com mais tempo ininterrupto a se apresentar no Circuito Dodô, tendo também o bloco Crocodilo como pioneiro na Barra-Ondina.
Recentemente, o presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington, afirmou que Daniela Mercury nunca teria saído em primeiro no circuito desde a chegada do Bloco Crocodilo ao Barra-Ondina, em 1996.
Levantamento oficial realizado pela prefeitura de Salvador, com base em dados divulgados no Diário Oficial, aponta que o Crocodilo saiu na 5ª posição logo na primeira folia da capital baiana. Ao longo dos anos, entretanto, percebe-se que Daniela Mercury cai de posições com a chegada de novos blocos, principalmente com a popularização do Circuito Barra-Ondina.
Entre as contestações da artista está de que os quatro blocos que estiveram na sua frente no primeiro ano do Crocodilo — Broder, Fecundança, Adrenalina e Me Leva — já não existem mais e, com isso, o dela seria o mais antigo a sair no Barra-Ondina. Vale destacar que Daniela Mercury foi a única artista a estar presente em todos os anos desde 1996, sem nenhuma exceção.
Na teoria, o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) utiliza critérios técnicos, históricos e de tradição para organizar a fila dos trios elétricos. Neste ano de 2026, entretanto, a lista com a ordem do desfile só foi divulgada pela Prefeitura de Salvador na quarta-feira, dia 11 de fevereiro, véspera do carnaval.
A partir da folia do ano de 1998, outros blocos tradicionais resolveram descer para a Barra, a exemplo do Olodum (1979), Camaleão (1979) e Coruja (1963), que seriam mais antigos que o Crocodilo na data de fundação, mas que nunca haviam saído no respectivo circuito.
Com o acontecimento, a dúvida que recaiu seria o critério de "antiguidade" utilizado pelo Comcar: 'a ordem seria por fundação no bloco ou tempo de circuito?'. Em contato com o Bnews, a esposa, empresária e produtora de Daniela Mercury, Malu Verçosa, defende a antiguidade no Barra-Ondina.
Foi por essa razão que o Crocodilo foi para a Barra. Porque os Internacionais, Camaleão, entre outros, estavam antes no Campo Grande e o Crocodilo não tinha horário bom para desfilar", explicou Verçosa.
Mesmo assim, houve anos em que o Crocodilo foi um dos últimos a sair no atual circuito mais popular do Carnaval do Salvador. Em 2012, por exemplo, o Crocodilo chegou a ficar na 10ª posição no domingo e 11ª posição na segunda-feira. Em outros carnavais, inclusive, Daniela Mercury chegou a ficar atrás dos trios de Psirico, Seu Maxixe e La Furia, que surgiram bem depois.
Verçosa ainda questionou, durante entrevista ao programa Bnews Agora, na rádio Itapoan FM, sobre os acordos que seriam feitos internamente para que um novo bloco utilize a vaga de um antigo que não está mais desfilando.
"Está na hora da gente discutir e da gente mostrar com transparência o que é que está acontecendo. Quem está na vaga de quem? Como é que chegou nessa vaga? Por que que passou na frente? Quem deixou? Quem permitiu? Por que permitiu?", perguntou.
Isso tem que ficar claro, tem que ser informado aos blocos que fazem parte do Comcar, tem que ser acordado. Não pode ser um, dois ou três blocos decidindo de forma pouco democrática quem é que passa na frente. Os questionamentos que a gente fez esse ano, inclusive, a gente viu o mesmo do Gandhy, do próprio Armandinho, questionamentos válidos, e a gente colocar os holofotes sobre isso é importantíssimo", completou.
A reivindicação de Daniela Mercury é antiga, mas, neste ano, ganhou contornos judiciais após a cantora obter uma liminar favorável para que pudesse ser a primeira a sair no Circuito Dodô. A solicitação chegou a ser atendida, mas acabou sendo derrubada dias depois, pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), mantendo as posições definidas pelo Comcar.
Ao analisar o pedido da cantora, o desembargador responsável pelo caso entendeu que não há comprovação de direito automático à primeira posição de saída. Além disso, a decisão também considerou que a mudança poderia gerar impactos relevantes na logística operacional, nos contratos firmados, na segurança pública e na organização geral da festa
Como acontecem as mudanças?
Presidente do Comcar, Washington Paganelli também conversou com o Bnews e confirmou o critério de antiguidade como predominante para a definição da ordem de saída dos trios elétricos. Além das mudanças de nome que podem acontecer nos blocos, ainda existe a possibilidade de realmente um artista ceder a vaga para outro, a depender da necessidade.
"Pode acontecer essa troca de lugar. Isso foi algo que aconteceu entre o bloco Bróder com o Camaleão, por exemplo, e também do Fecundança com o Coruja. Ano passado mesmo, a própria Daniela (Mercury) fez isso com o bloco de Carla Cristina", relembrou Paganelli, que negou a possibilidade de comercialização das vagas.
"Que eu saiba, não acontece. Estamos até atualizando as regras, mas só posso afirmar que acontece se alguém conseguir me provar isso. Se apresentar um recibo mostrando que o lugar foi vendido, iremos juntos ao Ministério Público (MP-BA) para punir isso aí e até cassar essa vaga. A venda dessas vagas é proibida para não acontecer precedentes", explicou.
Paganelli pontou ainda que podem acontecer situações pontuais, como uma concordância dos demais blocos em passar um trio elétrico na frente. Segundo o presidente do Comcar, essa situação pode ter justificado, por exemplo, a posição do Olodum, que chegou depois do Crocodilo e já foi colocado na primeira posição.
"Pode ter sido isso, mas é totalmente diferente do que Daniela está fazendo. Ela está querendo uma vaga na qual ela não tem direito, tanto que os blocos, assim como o Comcar e a Associação de Blocos da Barra (ABB), entraram com uma ação contra a decisão do juiz", afirmou.
Por fim, Washington Paganelli ainda respondeu a respeito de pipocas que teriam surgido posteriormente e, mesmo assim, já foram colocados em posições mais à frente no desfile. Ele explicou que, mesmo com a organização do Comcar, prefeitura e governo podem colocar alguns trios independentes para a população que não queira ou não possa pagar pelos blocos.
Diante do impasse, a discussão em torno da ordem de saída dos trios elétricos segue provocando questionamentos. Por um lado, o Comcar sustenta a ideia de que "antiguidade é posto", mas também admite a existência de brechas, enquanto a equipe de Daniela Mercury cobra transparência na regra e acordos internos. Com a decisão do TJ-BA, a polêmica permanece acesa e, ao que tudo indica, pode perdurar nos anos seguintes do Carnaval de Salvador.
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