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Entre a pedra e o preconceito: fechamento de espaços LGBTQIAPN+ evidenciam o esvaziamento da cena queer em Salvador

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Ataques homofóbicos, falta de apoio e mudanças socioculturais contribuem para o esvaziamento da cena LGBTQIAPN+ em Salvador  |   Bnews - Divulgação Reprodução
Edgar Luz

por Edgar Luz

edgar.luz@bnews.com.br

Publicado em 30/05/2025, às 06h00 - Atualizado às 07h09



Salvador, conhecida por sua vibrante cena cultural e diversidade, tem testemunhado o esvaziamento da cena LGBTQIAPN+ com o fechamento de espaços dedicados à comunidade. Bares, casas noturnas e points multiculturais que antes serviam como pontos de encontro e expressão artística estão encerrando suas atividades, deixando um vazio na vida noturna da cidade.

Em 2020, o fechamento do Bar Caras & Bocas, que funcionava na Rua Carlos Gomes, marcou a comunidade e deixou uma lacuna na cena. Após sofrer 14 ataques homofóbicos, incluindo pedradas e invasões, o estabelecimento encerrou as atividades.

ataques ao caras e bocas
Bar Caras e Bocas sofreu ataques homofóbicos. Foto: Reprodução

Alexsandra Leitte, uma das proprietárias do local, relembrou o caso, contando que os ataques geraram medo na clientela e inviabilizaram a continuidade do negócio. “A comunidade ficou com receio de frequentar o espaço. A gente entrou no Ministério Público para poder haver a investigação sobre os ataques homofóbicos, mas não foi adiante. Numa vistoria foi dito que a gente precisava adaptar o espaço com saída de emergência, mas como era alugado, não tinha como fazer essa modificação, e aí optamos pelo fechamento”, relatou.

Geovanne Morais era frequentador do Caras &Bocas e presenciou ataques homofóbicos ao espaço. “Eu estava lá com amigos assistindo um show de drag, quando a gente ouviu um barulho estranho e o show parou. Eram pessoas apedrejando o bar de prédios vizinhos, a gente tentou se proteger, porque os ataques homofóbicos estavam intensos do lado de fora. Nunca senti tanto medo na minha vida, até pra sair de lá foi bastante tenso, pois fiquei com receio de ser atacado na rua. Ali tem muitos locais frequentados por homens heterossexuais, mas isso só acontecia no Caras & Bocas, um bar LGBT+”, relembrou. 

Com a maioria dos pontos LGBTQIAPN+ de Salvador sobrevivendo da renda dos ingressos de clientes pagantes, torna-se praticamente inviável atender a algumas exigências públicas. Como consequência, no decorrer dos anos, outros pontos culturais fecharam as portas. Entre alguns exemplos, o Cabaret 54 e o Champagne Bar — mais conhecido como Bar da Ray — famosos pelas apresentações de drag queens, perderam espaço na cena e anunciaram o fechamento.

Outro espaço que encerrou as suas atividades recentemente foi o Carmén Espaço Cultural, Lounge e Bar, localizado no Largo do Tororó. Após cinco anos de funcionamento, o local anunciou seu fechamento em fevereiro de 2025. O Carmén era conhecido por suas apresentações artísticas e por ser um ponto de resistência cultural para a comunidade LGBTQIAPN+.

Carmén Espaço Cultural, Lounge e Bar
Carmén Espaço Cultural, Lounge e Bar encerrou as atividades em fevereiro de 2025. Foto: Divulgação.

Lucas Sodré, frequentador assíduo, expressou sua tristeza com o fechamento do Carmén. “Muito triste saber que o Carmén fechou, eu ‘batia ponto’ lá todo final de semana (risos). O lugar onde eu sempre me senti em casa, acolhido e pertencente. Era puro luxo, meu bar favorito”, afirmou. Ele também destacou a falta de incentivo financeiro como um dos principais motivos para o encerramento desses espaços. “A nossa comunidade precisa de locais como esses pra ter voz e se fazer ser vista, então, os poderes públicos precisam olhar para esse esvaziamento da cena e dar a sua devida importância”, pontuou.

Vale ressaltar que a perda desses locais impacta diretamente a economia da cidade. Isso porque, ao menos 10% da população de Salvador é LGBTIAPN+, segundo apontou uma estimativa do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2024. Sendo assim, dos 2,4 milhões de habitantes, pode-se dizer que pouco mais de 240 mil pessoas pertencem à comunidade. 

Dados do GGB indicam que a homofobia continua sendo uma realidade preocupante na Bahia, contribuindo para o esvaziamento da cena queer no Estado. No ano passado, foram registradas 31 mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+, sendo Salvador responsável por 14 delas. Um número que evidencia a vulnerabilidade da comunidade e a urgência de medidas efetivas de proteção.

Além da violência e da falta de apoio institucional, mudanças socioculturais também contribuem para o esvaziamento desses espaços. Alexsandra Leitte observou que, atualmente, muitos membros da comunidade LGBTQIAPN+ preferem permanecer em seus bairros de origem, onde se sentem mais aceitos, reduzindo a necessidade de frequentar bares específicos no centro da cidade.

“Antigamente tinha aquele hábito de esconder da família, esconder da comunidade, do bairro e ir para outro bairro para poder viver. E hoje, meio que não tem mais essa necessidade. Além do mais, a maioria desses bares fica no centro da cidade também, o que dificulta o transporte da população periférica até esses locais”, disse.

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Flaminga, Miss Gay Salvador 2024

Flaminga, drag queen e detentora do título de Miss Gay Salvador 2024, também trouxe a localização dos espaços como um dos possíveis fatores que levam a esse esvaziamento. “Os bares que abriram no Centro acabaram fechando. Antigamente era onde ferviam os bares e boates LGBT+, mas só o Marujo, praticamente, consegue se sustentar por lá. Acredito que pelo tempo que está ali”, relatou, lamentando os fechamentos. “É muito triste, por que a gente acaba perdendo aquele senso de comunidade”, ponderou.

Marcelo Cerqueira, presidente do GGB destaca a ascensão da Internet como um dos fatores para o esvaziamento da cena na cidade. “Hoje em dia as pessoas não precisam mais sair de casa para ter acesso a cena cultural, até mesmo para se conhecer. Os aplicativos de relacionamento facilitaram, de certa forma”, declarou. Ele apontou também que a diversidade de entretenimento na cidade pode ser um ponto determinante. “Salvador tem praias lindas, diversos eventos gratuitos e espaços culturais, o que acaba contribuindo também para a baixa aderência de públicos em locais mais tradicionais”, concluiu.

Embora o cenário seja de esvaziamento, a resistência segue como uma prioridade da comunidade. Há 24 anos sendo palco da arte transformista, o Bar Âncora do Marujo se mantém como um dos principais e mais ativos espaços queer no Centro de Salvador. Com um menor tempo de funcionamento, o Boteco do Paulista se consolidou como um point fortalecedor da arte drag na capital baiana e movimenta as noites boêmias do Rio Vermelho.

Âncora do Marujo e Boteco do Paulista
Âncora do Marujo e Boteco do Paulista seguem funcionando a todo vapor. Foto: Divulgação

A ausência de políticas públicas eficazes voltadas para a proteção e promoção dos direitos da comunidade LGBTQIAPN+ desponta como um dos principais motivos para a marginalização desses grupos e para o fechamento de espaços que poderiam servir como refúgios e centros de cultura e resistência.

Classificação Indicativa: Livre

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