Entretenimento
Publicado em 13/09/2026, às 11h35 Rafaela Kalil e Tiago Di Araujo
Aos 84 anos e com 61 deles dedicados ao samba, Nelson Rufino ainda demonstra surpresa diante do tamanho da obra que construiu ao longo da carreira.
Homenageado da 5ª edição do Samba no Parque, realizada neste domingo (13), no Parque da Cidade, em Salvador, o compositor falou ao BNews sobre a trajetória que o transformou em um dos grandes nomes do samba baiano e revelou que, em alguns momentos, chega a questionar se realmente é responsável por tantas músicas.
“Eu jamais imaginaria que um dia eu tivesse um repertório da minha autoria do tamanho que eu tenho. Tem horas que eu me conflito assim: ‘Será que essa música é minha mesmo?’, sabe? Eu me pergunto”, contou.
Antes de se tornar referência no gênero, Nelson lembra que começou como seresteiro e tinha nos boleros uma de suas paixões. A aproximação com o samba aconteceu posteriormente, também por influência familiar. “Eu era seresteiro, gostava de cantar boleros, até que fui caindo no samba”, relembrou.
Um dos personagens dessa passagem foi Walmir Lima, que foi casado com a irmã de Nelson e também participou dos primeiros momentos musicais do compositor. Os dois faziam serenatas antes de se aproximarem definitivamente do samba.
A lembrança familiar ganhou ainda mais força durante a entrevista. Nelson contou que, no dia anterior, quando completou 84 anos, recebeu uma ligação de Walmir, que recordou uma frase dita pela mãe do sambista, Dona Chiquinha.
“Lembra que Dona Chiquinha, tua mãe, perguntava: ‘Varnir, Varnir, meu filho vai dar pra alguma coisa?’”, contou Nelson, reproduzindo a lembrança.
Para o compositor, a mãe, que já morreu, estaria acompanhando a trajetória construída pelo filho ao lado do pai. “Mas ela tá lá do outro mundo com meu pai também assistindo tudo isso”, afirmou.
Religioso, Nelson Rufino atribui a Deus parte importante de tudo o que conquistou. Antes mesmo de falar sobre a música, o sambista fez questão de destacar a gratidão pela vida.
“Eu sou um homem muito agarrado com Deus, então tudo que rolou na minha vida até hoje, até antes da música, eu me ajoelho pra agradecer a Deus. Agradecer pela vida”, declarou.
A homenagem no Samba no Parque ocorre justamente em um momento simbólico da carreira. Além dos 84 anos completados no sábado (12), Nelson celebra 61 anos de trajetória dedicada ao samba.
Ao falar sobre o reconhecimento recebido em Salvador, o compositor lembrou que, depois de anos de carreira, passou a ver sua obra ganhar ainda mais espaço na própria terra.
“Tá acontecendo uma coisa linda na minha terra. Primeiro foi Rio de Janeiro, São Paulo, mas ultimamente minha terra acordou pra minha obra”, afirmou.
Nelson citou ainda algumas das homenagens que recebeu ao longo dos últimos anos, entre elas uma estátua, um palco batizado com seu nome e o título de comendador. “Eu já tenho até estátua aqui, tenho palco, já título de comendador. Então, só agradecer”, disse.
Produtor e organizador do Samba no Parque, Fernando Rufino também falou ao BNews sobre a homenagem ao pai. Segundo ele, a relação entre os dois ultrapassa os laços familiares e se transformou em uma parceria em torno da preservação e valorização do samba.
“Meu pai é meu amigo, um parceiro, um pai, um irmão, um parceiro dos sonhos que a gente se propõe fazer em relação ao samba”, afirmou Fernando.
Para ele, o gênero musical tem justamente a capacidade de aproximar diferentes gerações e manter vivas histórias construídas ao longo do tempo. “O samba congrega, ele é familiar, ele é passado de gerações para gerações e sempre tá aqui presente. E isso, para mim, fortalece”, declarou.
Fernando também destacou que cresceu convivendo com sambistas baianos e de outras partes do país por causa da trajetória do pai. “Dentro da seara da minha casa eu pude conviver com vários sambistas, da terra como nacionais também”, contou.
A 5ª edição do Samba no Parque também mantém uma frente social. O público foi convidado a levar 1 kg de alimento não perecível, destinado a instituições filantrópicas, entre elas a Obra de Assistência Irmã Dulce, o Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC) e a Casa do Caminho.
A programação começou às 10h e reuniu artistas de diferentes gerações para celebrar Nelson Rufino. Entre os convidados estavam Roberto Mendes, Gal do Beco, Aloísio Menezes, Batifun, Juliana Ribeiro, Rogério Bambeia, Taian Riachão, Viola de Doze, Viva Voz e Noelson do Cavaco.
Fernando explicou que a escolha dos convidados segue justamente a proposta de aproximar nomes consagrados de novos artistas.
“A gente sempre mescla a galera, os novos sambistas com a velha guarda. É importante isso, o legado”, afirmou.
O produtor também revelou que já trabalha na preparação de uma nova iniciativa relacionada ao Dia do Samba, prevista para o fim do ano. Segundo ele, a proposta deve unir apresentações musicais, seminários e oficinas para discutir o gênero.
“Não pode ter só o didático se não houver a festa, né? Então vamos mesclar isso de uma forma muito bacana”, afirmou.
No Samba no Parque, porém, o centro da celebração foi Nelson Rufino. Aos 84 anos, o compositor recebeu o público e os convidados para uma festa que também serviu como reconhecimento a uma trajetória construída ao longo de mais de seis décadas.
Antes do show, Nelson resumiu o sentimento diante da homenagem em uma palavra: gratidão.
“Eu deverasmente agradecido”, afirmou. “Tomara que a nossa festa agrade os convidados, que eu quero agradecer de antemão.”
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