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Homens pagam R$ 20 mil em retiro espiritual para lidar com traumas e repressão sexual

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A proposta do curso é ressignificar traumas e promover a conexão emocional, desafiando normas sociais opressoras.  |   Bnews - Divulgação Reprodução: Instagram
Juliana Barbosa

por Juliana Barbosa

juliana.barbosa@bnews.com.br

Publicado em 14/06/2025, às 09h35



Aprender a lidar com emoções, sexualidade e se permitir o afeto com outros homens é o objetivo central do curso Body & Heart (Corpo e Coração, em tradução livre), promovido pelo terapeuta integrativo Daniel Bittar, de 35 anos, em São Paulo e no litoral norte paulista. O programa, que pode custar até R$ 19.900, reúne técnicas de terapias corporais, toque e práticas de vulnerabilidade emocional. As informações são do portal Folha de São Paulo .

Segundo Bittar, o curso é “um convite a buscar conexão com a própria vulnerabilidade”. Nos encontros, os participantes passam por atividades como ioga, meditação, dança, massagens, abraços, carinhos e, eventualmente, sexo — sempre de forma opcional. “Nada é obrigatório — há quem participe de todas as atividades e quem escolha deixar o retiro antes do fim”, afirma.

Os encontros acontecem em uma casa de 600 m² no bairro de classe média alta Sumarezinho, na zona oeste de São Paulo, ou em um espaço maior e integrado à natureza em Ilhabela, no litoral norte. As turmas contam com até 20 participantes, sendo a maioria formada por gays e bissexuais.

Durante a semana, Bittar também oferece sessões individuais de terapia tântrica. Já nos fins de semana e feriados, organiza os retiros em grupo. A proposta, segundo ele, vai além do acolhimento de afeto masculino. “Há emoções, bloqueios, traumas que eles chamam de ‘couraças’, que são essas tensões que a gente vai juntando pelo corpo”, explica.

Antes de atuar na área, Bittar trabalhou como produtor audiovisual. Foi durante uma jornada pessoal de busca por autoconhecimento que ele se aprofundou em práticas de tantra e neotantra. O terapeuta estudou durante dois anos na Índia, em Koh Phangan, na Tailândia, e em Bali, na Indonésia.

A ideia de criar os cursos surgiu de uma experiência frustrada na Tailândia, quando, ao tentar participar de uma imersão em neotantra com amigos, foi impedido porque o grupo era formado por casais gays. A partir daí, testou o formato com conhecidos na Itália e depois trouxe o projeto ao Brasil, onde atua desde 2019.

O neotantra, que serve de base para os encontros, é uma adaptação ocidental das práticas tântricas orientais, com forte influência dos ensinamentos de Osho, líder espiritual indiano retratado na série Wild Wild Country, da Netflix. A prática propõe ressignificar traumas e relações, promovendo maior conexão consigo e com o outro.

“O fundador [Osho] elegeu o sexo como uma das possibilidades para a conexão e a iluminação, mas entendo que esta não é a única forma de alcançar tais objetivos”, explica Bittar. “Um dos caminhos é explorar a energia sexual, o que não acontece necessariamente pelo sexo. Muito disso ele mistura com outras práticas de bioenergética. ”

Entre os frequentadores dos retiros estão homens que buscam ajuda para lidar com questões como repressão sexual, compulsão por pornografia e traumas emocionais. Bittar compartilha que sua própria motivação veio do vício em pornografia: “Nos cursos que promovo, há também alunos com problemas para se livrar da dependência no chamado chemsex, que é o sexo com uso de substâncias psicoativas.”

Segundo ele, o trabalho com o corpo e o toque tem sido uma ferramenta importante nesse processo. “Muitas pessoas recorrem ao método para limpar a sexualidade da mente, deixar a pornografia um pouco de lado e se conectar com o próprio corpo. ”

A influenciadora Talita Gois, estudiosa do neotantra, acredita que a prática pode ser complementar a outros tratamentos. “A maioria dos tratamentos psiquiátricos foca na regulação emocional e química do cérebro, o que é importantíssimo. Mas o corpo fica muitas vezes fora da equação. O neotantra pode ser uma ferramenta complementar”, afirma. Para ela, a abordagem “reativa o corpo, o desejo, o toque, o vínculo com o prazer que muitos pacientes perderam, seja por conta de traumas, medicação ou repressão emocional”.

O curso Body & Heart oferece diferentes opções de valores. A versão de quatro dias em São Paulo custa R$ 2.500. Já em Ilhabela, com hospedagem e alimentação, os pacotes vão de R$ 5.000 (quarto compartilhado simples) até R$ 19.900 (suítes de luxo). Segundo o organizador, há ainda um programa social que oferece descontos para quem não pode arcar com os custos totais.

Mais do que um retiro, Bittar enxerga os encontros como um caminho de cura e enfrentamento à repressão da sociedade. “Quando você se conecta com o seu sentir e para de rejeitar as suas emoções, todo esse sistema opressor, que você pode nomear como homofóbico, machista, patriarcal, vai se dissolvendo”, diz.

“Nada é um processo repentino. É um trabalho para uma vida. ”

Classificação Indicativa: Livre

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