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Preso na adolescência, homem que levou 'sermão' de juiz vira advogado; entenda

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Após ser detido aos 17 anos, Marcelo fez uma promessa ao juiz que o ouviu e cumpriu mais de 20 anos depois.  |   Bnews - Divulgação Arquivo Pessoal
Juliana Barbosa

por Juliana Barbosa

juliana.barbosa@bnews.com.br

Publicado em 19/04/2025, às 09h49 - Atualizado às 09h50



Quem diria que um sermão poderia mudar a vida de alguém? Foi o caso de Marcelo Aguado Perez, de 53 anos. Após ser detido na adolescência em uma noite de diversão com os amigos, ele passou por uma audiência que mudou sua vida e fez uma promessa ao juiz, cumprida mais de 20 anos depois. As informações são do portal Uol.

Em 1989, Marcelo era um jovem de 17 anos que "só queria sair para azarar com a mulherada". Em uma dessas noites de curtição, alguns amigos tiveram a ideia de pichar o muro de uma tradicional escola da cidade de São Carlos, no interior de São Paulo, onde viviam.

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"Eu não queria ir, mas pensei 'só eu vou ficar aqui?', e acabei me juntando a eles", contou.

E, assim, Marcelo desceu a rua. “Os garotos já estavam pichando" o local, um colégio de freiras. "Fora Sarney", era o que dizia a pichação. "E eu nem sabia quem era o presidente", contou Marcelo, aos risos.

Mas, naquele momento, um homem já havia percebido a presença dos jovens. Foi então que Marcelo começou a avisar os colegas, dizendo: "já terminaram aí? O dono já percebeu, podem correr!".

E todos correram. Mas ele, como não havia feito nada além de vigiar, voltou para o mesmo lugar em que estava antes.

'Só eu fui qualificado'

O zelador do prédio pichado apontou à polícia quem eram os envolvidos. "Você também porque você avisou os meninos", disse o homem a Marcelo, que era o único a portar um documento de identificação naquele dia.

"Todos deram seus apelidos, já que não estavam com documento, mas só eu fui qualificado realmente pelo nome", contou. "Minha mãe me orientou a sempre andar com a identificação", completa.

Marcelo não contou o ocorrido aos pais. Até que, meses depois, um oficial de justiça entregou uma intimação em sua casa para ser ouvido por um juiz sobre a depredação.

Minha mãe se recusou a ir comigo, porque disse que, se ela fosse, me mataria. Ela é brava. E meu falecido pai era mais calmo e falou 'vou lá ver o que é', contou Marcelo.

Quem conduziu a oitiva —o ato de ouvir as partes de um processo judicial— foi o então juiz Antônio Benedito Morello, que começou pedindo que Marcelo dissesse a verdade.

Ele tem o olhar da penitência do motoqueiro fantasma [um personagem da Marvel]. Quando ele olha, não tem jeito de correr. Então ele dizia: 'você não mente pra mim, não'. E eu respondi: 'não, senhor, eu vou contar tudo aqui”, disse Marcelo.

Após contar toda a história do que aconteceu naquele dia, o juiz, então, se voltou para o pai de Marcelo.

"'Seu Geraldo, que horas o senhor acorda?' E ele respondeu '6 horas da manhã'. 'E o que o senhor faz?'. 'Sou contador'. 'E o senhor volta que horas para casa?'. '18h30'. 'Ah, então o senhor fica quase 12 horas lá?'. 'Fico'", narrou Marcelo.

Aí o dr. Morello falou: 'Está vendo? Acha justo o que está fazendo com o seu pai? Você depreda um patrimônio de propriedade privada e traz o seu pai para passar essa vergonha aqui na frente de um juiz?'. Na hora, se eu pudesse, eu escondia minha cabeça debaixo da terra como um avestruz”, disse Marcelo.

Após a fala do juiz, Geraldo pediu desculpas pela atitude do filho. Segundo Marcelo, ele disse algo como "a gente tenta educar da melhor forma possível". E, complementando a fala do pai, o garoto disse: "É mesmo, excelência, o senhor tem razão. O meu pai sempre foi muito trabalhador. Nunca vi meu pai falar mal de ninguém e não reclamava".

Foi ali que Marcelo disse ter aprendido sua lição. "Foi como se fosse um tapa moral", comentou. E logo depois, veio a promessa.

Doutor, eu nunca mais vou voltar aqui no fórum. E, se eu voltar, vai ser para trabalhar aqui dentro ou ser advogado”.

Ele voltou ao fórum

Após ser absolvido na oitiva com o juiz Morello, Marcelo voltou à vida comum. Se tornou vendedor de carros e vivia na cidade de São Carlos.

Aos 40, ele finalmente conseguiu pagar sua faculdade de direito sem depender de ninguém. "Foi como começar a vida do zero", desabafou. Em 2007, se formou na universidade.

Logo que passou no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Marcelo pegou um caso que não aceitaria facilmente, mas ele precisava se lançar na advocacia.

Por coincidência do destino, o juiz que julgaria o caso era ninguém menos que Morello.

Ao despachar o caso, quando já estava prestes a sair da sala do juiz, Marcelo teve um suspiro de coragem, deu meia-volta e se apresentou como aquele garoto da oitiva.

Aí ele olhou e falou: 'Seu pai é o contador, né?' Ele lembrou. E ainda disse: 'Olha que beleza, né? Estou ficando velho', lembrou Marcelo.

Naquele momento, Morello levantou e lhe deu um abraço —um gesto incomum entre advogados e juízes, o que o deixou surpreso. "E no final ainda me disse: 'doutor, no que precisar, estou sempre por aqui'", contou.

'Sempre falei alguma coisa'

Agora desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Morello disse que era muito comum trazer em seus julgamentos um apelo moral durante a leitura da sentença. "Mesmo quando eu absolvo, eu falo 'eu te absolvi, mas você sabe que você fez tal coisa'. Então, é o meu jeito", explicou.

“Eu acho que a pessoa deixa de fazer coisa errada não porque considera errada. A pessoa deixa de fazer coisa errada por causa da vergonha.” , disse Morello.

Para o magistrado, a punição maior é aquela que faz o réu sentir que estava errado. "A punição tem de ser uma punição moral. Às vezes, ele tem de sentir isso", disse.

“Ele foi uma daquelas pessoas que passam pela vida da gente e, de certa forma, marcam bastante. Mudou minha vida. Sou fã”,  finalizou Marcelo.

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