Entretenimento

Trouxalândia e encontros no shopping: os rolês que marcaram a adolescência da geração Z em Salvador

Imagem gerada por IA
Adolescentes marcavam encontrinhos por meio de uma página no facebook com apenas um objetivo: fazer amizade  |   Bnews - Divulgação Imagem gerada por IA
Andreza Oliveira

por Andreza Oliveira

Publicado em 08/06/2025, às 07h00



Muito se fala dos millennials, de como se divertiam e como as coisas funcionavam. Mas e a geração Z, que se divide entre os antigos “rolês”, inovações tecnológicas e uma pandemia de Covid-19? Como foi essa transição? E como eram as formas de diversão e interação antes de tudo isso? É isso que você vai entender — ou relembrar — por aqui.

Entre os anos de 2014 e 2016, surgiu a famosa página Trouxalândia no Facebook. Ela reunia jovens menores de idade de diversos locais da Bahia, especialmente da capital, para fazer amizades e interagir. Na página, existiam grupos — as chamadas "famílias" — que se organizavam para fazer os famosos encontrinhos, normalmente realizados no Shopping Salvador ou no Farol da Barra, aos fins de semana.

Conversando com os “novos adultos” — jovens entre 20 e 27 anos que faziam parte da página e desses grupos —, a equipe do BNews conseguiu relembrar e entender como funcionavam as interações e os encontros. Nestes subgrupos, os administradores organizavam os rolês para que os membros se conhecessem pessoalmente. Além disso, alguns iam apenas para “ficar” — o famoso beijo na boca sem compromisso.

“A galera ia mesmo em busca de fazer amizade, ficar conhecido e beijar na boca. Era todo sábado, SSA [Salvador Shopping], e todo domingo, Barra.”, destacou Camille Bastos, de 22 anos. 

Cientes de que iriam aos encontros, os adolescentes postavam suas fotos ou o ícone da família à qual pertenciam na página principal, perguntando se outros participantes também iriam — o que incentivava ainda mais a interação. Alguns já compartilhavam fotos com o intuito de descobrir quem gostaria de beijá-los. E, claro, existiam os “códigos da curtida”:
❤️ Amei = Quero beijo
👍 Like = Só amizade

“Eu postava, todo mundo postava perguntando ‘quem vai para o SSA’ e descer todo mundo de galera, postavam também para ficar com as pessoas.”, contou Luana Lage, de 22 anos.  

prints

prints

“O Trouxalandia era na época, era o Instagram de hoje em dia, né? Que tinha uns blogueiros. E alguns até cresceram a partir de lá e veio pro Instagram. E hoje em dia são realmente Influenciadores de verdade”, acrescentou.

Muitos dos jovens que administravam os grupos tinham milhares de amigos no Facebook e acabaram se tornando os “famosinhos” da época. Naqueles tempos, o Instagram ainda não tinha stories, nem influenciadores como os conhecemos hoje. Assim, os encontros também serviam para que os “anônimos” conhecessem essas figuras e, quem sabe, ganhassem fama depois de uma foto juntos.

Encontros no Shopping

Os encontros no Shopping Salvador, localizado na Avenida Tancredo Neves, aconteciam aos sábados à tarde e eram considerados “rolês mais leves”, por ser um local fechado, seguro e com regras. Os jovens não iam com o objetivo de comprar algo, mas apenas para “bater perna” e fazer amizades. Circulavam entre a praça de alimentação e a livraria, onde costumavam conversar e ter um pouco mais de privacidade para ficar com quem já tinham combinado previamente.

print

“A gente ia pra biblioteca do Shopping Salvador e estava lotada de jovens. Um olhando pra cara do outro, conversando e se conhecendo. E era da praça de alimentação pra biblioteca. Da biblioteca para a praça de alimentação. Era sempre esse roteiro e ficávamos rodando de um lado pro outro”, relembrou Bastos.

print

Encontros no Farol da Barra

Já os encontros no cartão-postal mais famoso de Salvador aconteciam aos domingos e, segundo relataram fontes do BNews, eram “rolês mais quentes”. Por ser um espaço aberto e com grande circulação, geralmente só os adolescentes mais velhos compareciam. Lá, além das amizades e beijos, também rolava consumo de bebidas alcoólicas e música.

print

“No farol da barra, todo domingo era certo encher de adolescentes. Virava um verdadeiro carnaval fora de época”, relatou Manoel Thobias, de 27 anos.

print

A diversão, no entanto, não durou tanto tempo. Com a popularização dos encontros, os locais começaram a ficar superlotados de jovens que, muitas vezes, não consumiam e acabavam não movimentando a economia dos estabelecimentos. Além disso, pequenas brigas começaram a surgir, gerando desconforto para adultos e comerciantes.

O tempo passou, os rolês continuaram, mas nunca haviam chegado a um extremo — até o surgimento da pandemia de Covid-19. Com a necessidade do isolamento social, todos tiveram que ficar em casa. Já em 2021, com o avanço da vacinação e a retomada gradual das atividades, os administradores relembraram os velhos tempos e voltaram a marcar os encontros.

Entretanto, quando os rolezinhos retornaram, o clima já era outro. Os jovens já não tinham como objetivo fazer novas amizades. Muitos marcavam os encontros para brigar e resolver questões de “talaricagem” — termo usado quando alguém dá em cima do(a) parceiro(a) de um amigo — ou para enfrentar rivalidades entre as famílias.

“O último encontro que teve no Salvador Shopping, teve confusão, correria, e muitas brigas, por causa dessas rivalidades de família. Teve até cadeiras voando, vandalismo, e aí decidiram mudar de shopping para ver se resolvia essa confusão toda”, relatou Thobias. 

Foi então que ocorreu a superlotação no Shopping Salvador e o caos se instalou. Um sábado marcado por brigas e depredação resultou na proibição da entrada de adolescentes desacompanhados de adultos nos fins de semana. Como alternativa, os encontros foram transferidos para o Shopping Bela Vista, na região do Cabula. Mas a tentativa também não deu certo, e os rolezinhos foram extintos de vez.

“Até decidiram mudar de shopping para ver se resolvia essa confusão toda. Mudaram para o Bela Vista, mas não adiantou nada”, lamentou o rapaz.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp Google News Bnews


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)