Entretenimento
A atriz Thainá Duarte anunciou na noite deste sábado (19) que não seguirá mais no papel da protagonista do longa “Geni e o Zepelim”, adaptação cinematográfica da clássica canção de Chico Buarque. A decisão vem após uma forte onda de críticas por parte da comunidade LGBTQIAP+ e de artistas, que questionaram a escolha de uma atriz cisgênero para interpretar uma personagem tradicionalmente compreendida como travesti.
A canção integra a peça “Ópera do Malandro”, de 1978, na qual Geni é retratada como uma travesti. Com o anúncio de que uma mulher cis ocuparia o papel no cinema, críticas surgiram imediatamente nas redes sociais e em veículos de imprensa, acusando a produção de praticar o chamado transfake — quando artistas cis interpretam personagens trans.
Em vídeo publicado em suas redes sociais, Thainá não esclarece se pediu para sair ou se foi desligada do projeto, mas reconhece o impacto da escolha. “Sinto muito que essa escolha tenha machucado tanto a comunidade trans. Agora eu entendo melhor o tamanho dessa reivindicação”, declarou.
A atriz afirmou ainda que teve uma conversa com a diretora Anna Muylaert antes de aceitar o papel, e que a proposta era fazer uma releitura da música que conectasse a história de Geni a questões contemporâneas, como a devastação da Amazônia. Segundo Thainá, foi garantido que a diretora estava em diálogo com representantes da comunidade trans.
Apesar da saída, a atriz lamentou os ataques violentos que recebeu após o anúncio de sua escalação. Comentários como “transfóbica oportunista” e até ameaças de morte foram deixados em seus perfis. “Tá doendo bastante. E eu espero que a atriz que interprete a Geni faça tão bem, que isso possa sanar um pouco a dor que estamos sentindo”, afirmou.
Ver essa foto no Instagram
Após o pronunciamento de Thainá, a Migdal Filmes, produtora do longa, divulgou nota oficial informando que o projeto será redesenhado. A nova versão trará uma atriz trans no papel principal. “Compreendemos que o momento político global, e em especial o cenário transfóbico no Brasil, impõe a todas as pessoas uma postura ativa e comprometida”, diz a nota.
Ver essa foto no Instagram
A polêmica
O debate se acirrou com o posicionamento da atriz e dramaturga trans Renata Carvalho, uma das primeiras a denunciar publicamente o que chamou de apagamento. “Triste em saber que o novo filme escalou uma atriz cisgênero para interpretar a personagem travesti Geni — uma das personagens trans mais emblemáticas do teatro e da música brasileira”, escreveu em suas redes.
A cantora Liniker, ícone da representatividade trans no Brasil, também se manifestou: “O debate ser aberto como votação se é certo ter uma pessoa trans ou cis nesse papel ou não, já nos expõe grandemente. Todo respeito ao trabalho de Thainá Duarte, mas… é por espaço e oportunidade que nos colocamos”, destacou.
Diante da polêmica, a diretora Anna Muylaert usou as redes para defender inicialmente que a letra da música não determinava com exatidão a identidade de gênero da personagem, o que permitiria diferentes interpretações. “A gente entendeu que a letra pode ter várias leituras”, afirmou. No entanto, internautas recuperaram documentos enviados à Ancine, onde a sinopse original do filme descrevia Geni como “travesti”.
Com a crescente pressão, Anna voltou atrás. “Se a sociedade chegar à conclusão de que Geni só pode ser interpretada como uma mulher trans, a gente vai repensar o filme”, disse em vídeo. E foi exatamente o que aconteceu.
Repercussão entre artistas
Camila Pitanga, que havia criticado a escolha de Thainá, mudou o tom após o vídeo de despedida da atriz e prestou apoio: “Digna, verdadeira. Te amo. Te abraço. Sigo sempre do seu lado. Você é luz”, comentou.
Outros artistas, cis e trans, seguiram opinando sobre a necessidade de representatividade legítima em papéis centrais como o de Geni, ainda mais em um país como o Brasil, onde pessoas trans seguem sendo alvo de violência e marginalização.
Um debate necessário
A polêmica escancarou um tema que já vinha sendo debatido no meio artístico: o espaço das pessoas trans em papéis que as representem. Em um país que, segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), segue como um dos que mais mata pessoas trans no mundo, a visibilidade e a ocupação de espaços simbólicos e de destaque na cultura têm se mostrado urgentes.
Com a reestruturação do projeto, a expectativa agora é que a produção siga seu curso com mais escuta, diálogo e representatividade, e que a escolha de uma atriz trans para interpretar Geni represente um passo à frente na luta por equidade no audiovisual brasileiro.
Classificação Indicativa: Livre
Lançamento com desconto
Congresso Internacional
cinema em casa
som poderoso
Imperdível