Esporte

Esquema de diplomas falsos de técnico para ex-jogadores vem à tona e envolve ídolo do Vitória, pentacampeão mundial e astros do futebol

Ilustrativa / Arte BNews
Investigação do UOL aponta que ex-jogadores teriam recebido licenças atribuídas à escola argentina ATFA sem cumprir formação; documentos apresentariam erros, datas inconsistentes e QR codes inválidos  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa / Arte BNews
Tiago Di Araújo

por Tiago Di Araújo

tiago@bnews.com.br

Publicado em 07/10/2026, às 09h20



Uma investigação do Uol expôs um suposto esquema envolvendo a venda de licenças para treinadores de futebol que teria sido conduzido pelo ex-jogador Alejandro Mancuso, que teve passagens por clubes como Palmeiras e Flamengo e também trabalhou como auxiliar de Diego Maradona.

Entre os nomes citados no caso estão jogadores conhecidos do futebol brasileiro e sul-americano, como o ídolo do Vitória, Dejan Petkovic, o zagueiro Thiago Silva, o pentacampeão com a Seleção Brasileira, Roberto Carlos, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Felipe Melo, Alex de Souzae Paulinho.

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mancuso

Segundo a investigação, Mancuso oferecia a possibilidade de obter quatro licenças de treinador vinculadas à Associação de Técnicos de Futebol da Argentina (ATFA), incluindo os níveis PRO, A, B e C. A promessa seria de que o interessado pagasse até R$ 100 mil e recebesse os certificados em um prazo máximo de dez dias.

A reportagem do UOL foi realizada ao longo de quase dois anos e teve acesso a dezenas de áudios e mensagens que mostram Mancuso apresentando o que seria uma espécie de caminho paralelo para jogadores profissionais conseguirem certificados sem passar pela formação convencional.

Mancuso dizia ter uma solução para jogadores

Em uma das conversas obtidas pelo Uol, Mancuso se apresentava como “diretor internacional da ATFA” e oferecia uma alternativa para atletas que não queriam cumprir todo o processo de formação.

“Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou”, afirmou.

Em outro momento, ele questionou a necessidade de ex-jogadores passarem por uma formação de vários anos. “São caras que jogaram bola a vida toda, precisa de três anos de curso online?”, disse.

O modelo regular da ATFA, porém, prevê uma progressão entre os níveis C, B, A e PRO, com cursos que podem durar de seis a 13 meses. A formação completa pode levar cerca de três anos.

A própria ATFA nega que Mancuso tenha tido qualquer vínculo oficial com a instituição.

ATFA nega relação com Mancuso

Em nota de esclarecimento citada na investigação, a entidade afirmou que Mancuso não fazia parte de sua direção e não possuía qualquer autoridade, contrato ou autorização para representar a instituição.

O documento, assinado pelo secretário-geral da ATFA, Salvador Pasini, afirma que qualquer oferta, pagamento ou documento apresentado por Mancuso em nome da entidade não tinha relação com a instituição.

A ATFA também informou que os fatos chegaram a ser investigados pela Justiça federal criminal e correcional da Argentina em 2025. Durante a apuração, houve busca e apreensão na sede da entidade, mas, segundo a própria ATFA, não foram encontrados documentos que comprovassem a existência de diplomas ou licenças irregulares.

Ainda conforme o esclarecimento da associação, o Ministério Público argentino pediu o arquivamento do caso, e a Justiça encerrou a investigação em dezembro de 2025 por entender que não havia crime. A entidade afirma que a decisão se tornou definitiva dentro do sistema jurídico argentino.

Documentos apresentavam inconsistências

Apesar do encerramento da investigação criminal na Argentina, a análise realizada pelo UOL encontrou uma série de inconsistências nos documentos apresentados como licenças de treinador.

Entre os problemas identificados estão QR Codes que não funcionavam, datas retroativas, certificados que apareciam apenas como cópias autenticadas e não como documentos oficiais da ATFA, além de informações divergentes.

Em um dos casos, o nome de Luiz Gustavo aparece escrito de maneira incorreta. Em outro documento, referente a Alex de Souza, o esporte foi identificado como “futsal”, em vez de “fútbol”. Também foram apontadas diferenças na assinatura e ausência de elementos que seriam necessários para a homologação de cursos realizados por uma federação estrangeira.

A reportagem também cita a ausência do chamado “ANEXO 9”, documento relacionado à autorização de estudantes estrangeiros em cursos de federações de outros países.

Felipe Melo desconfiou e recebeu dinheiro de volta

Um dos casos que chamaram atenção foi o de Felipe Melo. O ex-jogador teria recebido uma licença atribuída à ATFA, mas passou a desconfiar da autenticidade do documento porque nunca chegou a participar das aulas presenciais que deveriam fazer parte da formação.

felipe melo

Segundo a investigação, Felipe retirou o documento de suas redes sociais e conseguiu receber o dinheiro de volta. A licença também aparece entre os seis documentos investigados pela polícia argentina em julho de 2025.

Petkovic já tinha licença argentina

Dejan Petkovic também aparece no caso. O ex-jogador possuía uma licença argentina, mas o documento acabou suspenso porque ele não havia concluído a etapa presencial exigida na formação.

O caso reforça a diferença entre a formação convencional e a alternativa apresentada por Mancuso aos ex-atletas.

Diego Lugano também teria adquirido licenças por meio de um chamado “curso rápido”, com a parte teórica realizada pela internet e sem a etapa presencial.

Luiz Gustavo acreditava que comprava homologação

Luiz Gustavo também relatou à reportagem que acreditava estar contratando um processo de homologação para sua carreira, e não simplesmente comprando um certificado.

A desconfiança surgiu quando ele recebeu históricos acadêmicos contendo avaliações e informações referentes a atividades que, segundo ele, nunca havia realizado.

Roberto Carlos recebeu documentos, mas nunca utilizou

No caso de Roberto Carlos, pentacampeão mundial com a Seleção Brasileira, a negociação teria sido feita por meio de sua assessoria.

Segundo o posicionamento enviado à reportagem, o ex-jogador negociou com Mancuso, recebeu as licenças e um cartão pelo correio, mas nunca utilizou os documentos porque não havia concluído o curso.

Um dos documentos relacionados ao ex-lateral também aparece entre os materiais investigados pela polícia argentina em 2025.

Thiago Silva tentou confirmar os certificados

Thiago Silva, por sua vez, informou por meio de sua assessoria que havia pago por cursos que não foram oferecidos da maneira como haviam sido apresentados.

O jogador tentou verificar a situação diretamente com a ATFA, mas não conseguiu confirmar os documentos. Os certificados chegaram ao atleta no fim de 2023 e, segundo sua assessoria, nunca foram utilizados.

Alex de Souza já tinha formação pela CBF

Outro nome citado é o de Alex de Souza. O ex-meia havia concluído a formação da CBF Academy quando adquiriu uma licença argentina.

Ele afirmou à reportagem que a intenção era conseguir uma facilidade no processo, mas que nunca utilizou o documento. “Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei”, declarou.

A licença atribuída a Alex também apresentava uma das inconsistências identificadas na apuração documental.

Jogadores dizem que acreditavam estar fazendo algo regular

Nem todos os envolvidos afirmaram ter percebido irregularidades no momento da contratação.

Paulinho, por exemplo, relatou que realizou cursos pela internet e acreditava que a ATFA reconheceria a experiência de jogadores de alto nível.

“Em nenhum momento parecia ser algo ilegal ou falso”, afirmou.

Roberto Assis também teria sido procurado durante a pandemia. Ele disse não se lembrar se chegou a depositar dinheiro pelo processo.

Paolo Guerrero aparece igualmente entre os nomes citados na investigação.

Jogador admite que compra de licenças era conhecida

A reportagem também ouviu, sob anonimato, um jogador que admitiu ter adquirido uma das licenças por meio de Mancuso.

O atleta afirmou que diversos jogadores fizeram o mesmo e que, embora o processo parecesse fácil demais, eles não imaginavam inicialmente que os documentos poderiam ser falsos.

“A verdade é que nós, jogadores que pegamos as licenças com o Mancuso, sempre soubemos que esse dia iria chegar. Que alguém descobriria o esquema e daria ruim”, afirmou.

Mancuso nega venda de licenças

Procurado pelo UOL, Mancuso negou ter vendido licenças de treinador. Segundo ele, jogadores brasileiros frequentemente perguntavam como poderiam “dar um jeito” de conseguir a documentação, e sua atuação teria se limitado a indicar um contato dentro de uma federação.

“Eu não estou na federação, eu não sou parte da federação”, declarou.

mancuso

Questionado especificamente sobre áudios nos quais apareceria oferecendo diplomas por US$ 20 mil, Mancuso negou. “Não, isso não existe”, afirmou.

Ele também negou ter recebido depósitos diretamente e disse que eventuais pagamentos seriam destinados à federação.

Investigação expõe versões diferentes

O caso reúne, portanto, versões distintas sobre como as licenças foram obtidas e qual era o papel de Mancuso nas negociações. Enquanto alguns jogadores afirmam ter contratado cursos, processos de homologação ou licenças e posteriormente encontrado problemas nos documentos, Mancuso nega ter vendido certificados e afirma que apenas fazia a ligação entre os interessados e representantes de uma federação.

A ATFA, por sua vez, afirma oficialmente que Mancuso nunca teve autorização para representá-la e que os documentos oferecidos por ele em seu nome não eram vinculados à instituição. A entidade também informou que a investigação criminal realizada na Argentina terminou com o arquivamento do caso em dezembro de 2025.

Classificação Indicativa: Livre

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