Esporte
por Thiago Teixeira
Publicado em 23/01/2026, às 05h50 - Atualizado às 05h54
Supostas fraudes trabalhistas, simulação de acordos judiciais, possíveis desvios de recursos e ausência de transparência na operação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Atlético de Alagoinhas. Essas alegações estão contidas numa notícia-crime protocolada junto ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) por torcedores do clube no último dia 8 de janeiro.
O documento, obtido com exclusividade pelo BNEWS, também levanta suspeitas sobre a criação e a estrutura financeira da SAF — negociada em setembro de 2025. Na época, o Carcará vendeu 90% das ações para o grupo TLS Sports por, inicialmente, R$ 20 milhões, que podem chegar a R$ 60 milhões.
Os dados da notícia-crime apontam para um "padrão reiterado de acordos trabalhistas considerados artificiais, homologados judicialmente com valores expressivos, mas sem correspondência comprovada com vínculos reais de trabalho".
Diversas reclamações trabalhistas teriam sido ajuizadas com narrativas padronizadas, atribuindo vínculos longos e contínuos a pessoas que, na prática, não teriam exercido as funções descritas ou teriam prestado serviços por período muito inferior ao informado nos autos.
A notícia-crime destaca o caso de Washington de Jesus Barreto, conhecido como Xaxá Barretão, atual presidente da Liga Desportiva Alagoinhas (LDA) — que teria envolvimento político com o clube. No acordo trabalhista homologado, foi atribuído a ele um vínculo laboral extenso com o Atlético de Alagoinhas.
No entanto, registros oficiais indicaram que, no mesmo período, Washington mantinha contrato formal ativo com a empresa Master Serviços, com jornada incompatível com atuação simultânea no clube — o que configuraria como sobreposição de vínculos, gerando incompatibilidade de horários.
O mérito da notícia-crime ainda não foi analisado pelo Ministério Público. O órgão apenas recebeu as documentações através da Secretaria Processual e Administrativa da Promotoria de Justiça Regional de Alagoinhas. O rito normal é, caso a denúncia venha a ser aceita, que seja aberto um procedimento preparatório e, em seguida, um inquérito civil público para apurar o caso.
A ação aponta indícios de que parte dos valores pagos nestes acordos não permanecia com os supostos beneficiários, mas seria desviada para a alta cúpula do clube, alcançando, inclusive, o presidente do Carcará, Albino Leite. Os recursos teriam sido utilizados para fins alheios ao pagamento trabalhista, como manutenção de influência política e controle interno da entidade.
A representação também atribui atuação relevante ao presidente do Conselho Deliberativo do clube, Emílio Alves de Souza, que, conforme os relatos, teria orientado o ajuizamento das ações, auxiliado na formatação das demandas e atuado politicamente para viabilizar homologações rápidas.
O acúmulo de funções — incluindo a presidência do conselho e a condução de normas internas e eleitorais — é apontado como fator que agrava a gravidade do cenário, por indicar possível uso instrumental da estrutura administrativa da entidade.
Além das fraudes trabalhistas, a notícia-crime questiona a constituição da SAF do Atlético de Alagoinhas. De acordo com o documento, a TLS Sport possui capital social declarado de apenas R$ 150 mil, valor considerado "incompatível com a dimensão do investimento anunciado".
Também é mencionada a ausência de histórico empresarial robusto no setor de gestão esportiva e a falta de transparência documental sobre a operação. Não teriam sido apresentados, segundo a representação, contratos detalhados, estudos financeiros, garantias, relatórios de due diligence ou comprovação pública da capacidade econômica do grupo envolvido.
O BNEWS conversou com o presidente do Atlético de Alagoinhas, Albino Leite, e com o presidente do Conselho Deliberativo do clube, Emílio Alves de Souza. Ambos negaram veementemente a existência de qualquer irregularidade trabalhista, ou de qualquer natureza, destacando a lisura e transparência na gestão da instituição.
Por meio de nota, o Atlético de Alagoinhas afirmou que "todos os acordos trabalhistas firmados pela entidade foram corretamente submetidos ao crivo judicial, uma vez que todos eles foram devidamente homologados pela Justiça do Trabalho, demonstrando a sua completa validade jurídica e respeito ao rito processual vigente".
Nesse sentido, a Diretoria do Alagoinhas Atlético Clube reitera que todos os pagamentos e acordos realizados estão dentro da mais estrita legalidade, sem margem para qualquer discussão a respeito de desvio de recursos ou repasses indevidos para membros da Diretoria do Clube ou para terceiros", dizia a nota.
O Carcará ainda levantou suspeitas de que a denúncia encaminhada ao MP, na verdade, possui interesses políticos por detrás, afirmando que recebeu com "estranheza a tentativa de colocar a própria integridade da atuação da Justiça do Trabalho em xeque".
Sugerir que acordos homologados judicialmente foram, de alguma maneira, meio para a prática de irregularidades é de acentuada gravidade e demonstra, no mínimo, um desprezo pela legalidade e pela justiça. A Diretoria do Clube compreende e acolhe a paixão do torcedor, contudo, é inaceitável que eventuais descontentamentos com o desempenho do time em campo sirvam de lastro para a promoção de notícias falsas ou perseguições infundadas", dizia a nota enviada ao BNews.
O Atlético de Alagoinhas ainda enfatizou que "críticas construtivas serão sempre bem-vindas, mas denúncias irresponsáveis que visam desestabilizar a instituição, jamais serão toleradas". Ainda de acordo com a nota, "o clube e seus gestores permanecem à inteira disposição do Ministério Público e da Justiça Baiana para prestar quaisquer esclarecimentos".
O BNEWS também procurou a TLS Sports, que afirmou que as acusações citadas na notícia-crime dizem respeito exclusivamente à Associação Civil do clube, sem qualquer relação com a SAF ou com a empresa. Por meio de nota, a empresa afirmou que a SAF ainda não possui CNPJ constituído, encontrando-se em fase de registro.
A TLS também declarou que não participou nem teve conhecimento de acordos ou processos trabalhistas envolvendo a associação e classificou como indevida a menção à SAF na representação encaminhada ao MP. No posicionamento, a TLS sustentou que o processo de constituição da SAF seguiu todos os trâmites legais.
Reiteramos que todos os documentos que comprovam a solidez financeira e a capacidade de investimento do grupo empresarial por trás da TLS Sports foram exaustivamente analisados e deliberados pelos órgãos competentes da Associação Civil", dizia a nota da empresa enviada ao BNEWS.
A TLS ainda reiterou o compromisso de investir R$ 20 milhões ao longo de 20 anos no Atlético de Alagoinhas. A empresa destacou que integra um grupo com atuação nacional, e declarou que a futura SAF será pautada por princípios de transparência, governança e gestão profissional.
A TLS Sports, como adquirente da SAF do Atlético de Alagoinhas, permanecerá atenta ao andamento de quaisquer apurações relativas à Associação Civil. Paralelamente, seguirá firme no processo de modernização do Atlético, implementando medidas de governança e transparência. O nosso compromisso é inabalável com a construção de um Atlético de Alagoinhas forte, moderno, transparente e vitorioso, sempre respeitando sua rica história e, sobretudo, seu maior patrimônio: a apaixonada torcida", destacou a TLS por meio de nota.
O BNEWS não conseguiu contato com Xaxá Barretão. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada em caso de eventual posicionamento futuro.
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